terça-feira, 6 de março de 2012

Breve exemplo da distância entre o debate político e as necessidades nacionais

por Julio Canuto


No plano da política nacional, o Brasil vive da rivalidade entre PT e PSDB. Rivalidade que contagia corações e mentes, levando a debates (ou seriam brigas?) onde não se trocam idéias, mas só se defende o ponto de vista de seu time - ops, quis dizer partido - , muitas vezes em tom ofensivo, até desprovidos de razão, mesmo em espaços abertos ao livre diálogo, como as redes sociais. Uma coisa, porém, todos concordam, quer seja o PT, o PSDB e os torcedores: o Brasil é um país em crescimento [1].

Somos a terceira economia do mundo, medido pelo PIB, mas ainda somos o 73o. em IDH (medido por indicadores de desempenho nas áreas da saúde, pela longevidade; educação ou conhecimento, pela média de anos de estudo da população adulta e o número esperado de anos de estudo; e rendimento ou padrão de vida digno, pela renda nacional bruta por pessoa), temos o terceiro pior índice de desigualdade social do mundo (PNUD, 2010) e ocupamos o 53o. lugar no PISA (que mede a habilidade dos alunos em leitura, ciências e matemática). O que faria o país crescer e desenvolver-se? Neste artigo, foco a atenção na Educação, com análises sobre o PISA.


CONTEXTOS DIFERENTES NA EDUCAÇÃO

A primeira postagem de 2011 trouxe este indicador, junto ao IDH e a moradia, como principais desafios do Brasil nos próximos anos. O Brasil que ficou em 53o. lugar no PISA (2009), teve o seguinte desempenho: em leitura, quase metade dos brasileiros avaliados alcança apenas o nível 1, o grau mínimo de habilidade de leitura. em ciências, pouco mais da metade (54%) revelou entender o óbvio e tem enormes dificuldades de usar ou compreender essa disciplina (nível 1). Em matemática, a situação é ainda pior: 69% dos estudantes do País também ficam apenas no nível 1, isto é, "não conseguem ir além dos problemas mais básicos e têm dificuldades de aplicar conceitos e fórmulas. Na avaliação da OCDE, eles teriam inclusive dificuldades de tirar proveito de uma educação mais avançada" (AGÊNCIA ESTADO).Ou seja, nas três áreas, metade dos estudantes brasileiros não passaram do grau mínimo de compreensão. "Na outra ponta, apenas 1,3% dos estudantes atinge os níveis 5 e 6 em leitura, 0,8% em matemática e 0,6% em ciências". (AGÊNCIA ESTADO). Como se vê, estamos ainda muito distantes de uma educação de qualidade. Mas nada é tão ruim que não possa piorar. Há pelo menos outras duas questões a serem tratadas: o acesso e a finalidade. 


O acesso ao sistema público de educação deve ser universal e próximo a residência. Para quem mora nas periferias das cidades brasileiras, é fácil notar que estes direitos muitas vezes não são respeitados. Algumas vezes por não haver o equipamento no território, e outras por não comportar a demanda. O momento da passagem do Ensino Fundamental para o Ensino Médio é um tormento na vida de muitos pais, quando os filhos são transferidos de escolas. A finalidade é "o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho", e para tanto está baseado em alguns princípios e deve dar várias garantias, conforme Lei Federal 9.394/1996 e 11.700/2008.


Interessante estudo avalia os sistemas educacionais dos países que tiveram os melhores resultados no PISA e mostra que mesmo neste locais, há o que se corrigir. A série "Destino: Educação", iniciativa do Canal Futura, em parceria com o SESI, procura "desmistificar o ranking e contextualizar as conquistas de cada país", como diz Beatriz Cardoso, consultora da série. Matéria publicada no site do CENPEC, que faz a chamada para a série, coloca alguns exemplos de desmistificação. 


Na Coréia do Sul, por exemplo, país que ficou em quinto lugar no PISA, o diretor do Instituto de Pesquisa Educacional Hanyang University, Yun-Kyung Cha, afirma que 
As conquistas dos estudantes coreanos são baseadas em uma competição implacável. A sociedade, os pais, os professores, todos torturam os estudantes para que cheguem mais e mais alto. Muitos estudantes comentem suicídio por não conseguirem atingir as expectativas dos pais e as suas próprias expectativas. Eles não estão felizes.
Em Xangai, que ficou em primeiro lugar na avaliação, Zhanf Minxuan, vice-diretor do Xhangai Education Commission reconhece que "se o PISA testasse criatividade, potenciais pessoais, talvez não estivéssemos no topo. O PISA testa apenas aquilo no qual somos fortes". 


Ja a Finlândia, terceira colocada, destoa dos outros dois países citados acima. O site do CENPEC reproduziu uma entrevista de O GLOBO com Pasi Sahlberg, diretor de um centro de estudos vinculado ao Ministério da Educação da Finlândia e autor do livro "Finnish lessons: what can the world learn from education change in Finland?" (que em uma tradução livre para o para o português significa "lições finlandesas: o que o mundo pode aprender com a mudança educacional na Finlândia?"). Desta entrevista deixo alguns pontos muito interessantes, que em parte coincidem com os pontos comuns dos países líderes, mas que vai mais além, abrangendo características que vão além da produção e nota. É importante destacar que Pasi Sahlberg deixa claro que as ações realizadas na Finlândia não são para serem reproduzidas por outros países, mas servir apenas como aprendizado.


1. "A reforma educacional não foi guiada pelo sucesso escolar e, sim, pela democratização do acesso a escolas de qualidade";
2. "As crianças devem ser vistas como indivíduos que têm diferentes necessidades e interesses na escola. Ensinar deve ser uma profissão inspiradora com um grande propósito de fazer a diferença na vida dos jovens. Infelizmente, esses princípios básicos deram lugar a políticas regidas pelo mercado em vários países"
3. 
"Professores são profissionais de alto nível, como médicos ou economistas"; 
4. 
"A tecnologia é uma ferramenta, mas o foco continua sendo na pedagogia entre pessoas, sem tecnologia. A tecnologia não deve guiar o desenvolvimento educacional e, sim, ser uma ferramenta como várias outras."; 
5. 
"A Finlândia é o antídoto a este movimento que impõe provas padronizadas, privatização de escolas públicas e remunera os professores com base em avaliações de desempenho que se tornou típico de diversos sistemas educacionais pelo mundo". 


A EDUCAÇÃO NO BRASIL E O DEBATE POLÍTICO

Dentro destes pontos se inclui o que a nossa Constituição afirma como sendo finalidade da educação brasileira, conforme citado anteriormente. A educação deve estar voltada para as necessidades dos educandos e ao mesmo tempo atualizada com a realidade nacional, no sentido de trabalhar alternativas profissionais e de vivência, sem contudo as impor.

Agora responda: estes pensamentos aparecem em alguma propaganda política? A capacitação aparece, mas apenas como formação de mão de obra, no ciclo de preparar para o mercado - trabalhar/produzir - gerar renda - consumir. 

O discurso dominante - e também midiático - conquista as mentes brasileiras e também estrangeiras. A população tem a sensação de possuir uma boa qualidade de vida pelo bom momento econômico nacional, o que promove a ilusão de que qualidade de vida é apenas consumir mais. Daí vem a confusão entre desenvolvimento e crescimento. Isso faz com que seja notório que este contexto e o discurso que o legitima, correspondam aos interesses dos que disputam o poder para nada mudar.   


Por fim, tudo isso mostra que o debate político na forma como está colocado está bem distante do debate que realmente interessa ao país. Assuntos de maior importância são tratados ou como propaganda política (maquiando números e consequências), ou como acusações de fracasso do adversário político. E quem quer que chegue ao poder vai manter as coisas mais ou menos do mesmo jeito. A crítica de um hoje, é a crítica do outro amanhã, e uma sustenta a outra.


Neste ano teremos as eleições municipais, onde elegeremos prefeitos (executivo) e vereadores (legislativo), é muito importante estarmos antenados sobre os problemas macros e os regionais e cobrar dos candidatos respostas a estas demandas. Demandas que sentimos na pele, e não as que nos são inculcadas.
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1. muitas vezes eles falam em "desenvolvimento", como se fosse sinônimo de crescimento. Mas não vou entrar nesta discussão, pois já falamos disso vários vezes neste blog.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Triste notícia na "Folha da Amargura"

por Julio Canuto.


Caros leitores, em breve este blog voltará a trazer novas postagens semanalmente. 

Enquanto isso, que tal um belo texto do sempre genial poeta Sérgio Vaz?

O texto abaixo faz parte do livro "Literatura, pão e poesia", publicado pela Global Editora. 

A interpretação é livre. Boa leitura.






FOLHA DA AMARGURA 


POETA É PRESO EM FLAGRANTE SORRISO


Neste sábado pela manhã, a tropa de elite do mal-humor, fortemente armada, conseguiu prender o poeta Augusto, 44, que estava sorrindo, sem autorização, deliberadamente em mais uma manhã terrivelmente ensolarada. Acusado de Idiota, o poeta foi enquadrado na lei nº777, denominada "Tristeza não tem fim" e imediatamente levado ao Departamento das caras amarradas, no Centro das Mágoas, em São Paulo.

O Poeta Augusto tinha acabado de acordar e saiu para uma pequena caminhada, cheio de alegria, conforme testemunhas, e começou a sorrir para todos que estavam em sentido contrário, literalmente, Foi aí que foi abordado por uma viatura que fazia ronda no local.


Antes de fugir trocou olhares sem maldades com a tropa do mal-humor e saiu em disparada pela Rua Esperança. Depois da perseguição com troca de insultos, não por parte do poeta, ele foi preso em flagrante, ainda com duas ou três risadas que iria usar mais tarde.

Ao ser interrogado Augusto não entregou quem lhe havia fornecido a alegria, e ainda revelou, de forma risonha e irônica, que ele era o dono da boca.

O mal-humor confirmou sua prisão temporária por 30 dias, e que no final da tarde o poeta será transferido para o presídio de solidão máxima, enquanto aguarda o julgamento.

O Secretário Geral das mesquinharias, Coronel José Bicudo Guerra, 98, informou em entrevista coletiva que o governo vai investir pesado na luta contra o bom-humor, e que dentro de dois ou três anos vai erradicar a alegria do país.

Da redação: vira-lata das ruas

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Parabéns, São Paulo!

por Julio Canuto

Esta é a primeira postagem do ano de 2012. Após um mês sem postar devido aos compromissos profissionais, iniciamos hoje mais um ano no blog. Começamos com um parabéns a São Paulo - atrasado! Mas o que chega na hora nesta cidade?

Vi muitas mensagens de amor a cidade, este caos no qual aprendemos a viver, e que diferente do "hit" do ano passado, existe amor sim. É, aliás, pelo amor a cidade que a indignação também não dorme, e esbraveja diante de mandos e desmandos que não respeitam seus cidadãos.

Como já disse neste espaço, sou paulistano por um destes desmandos, uma decisão do governo federal que promoveu a migração de milhões de pessoas. A cidade não foi de todo acolhimento como muitos insistem em se gabar. A vida foi dura - demais! A vida se estabilizou com a mudança para um Conjunto Habitacional, no extremo leste, que só muito tempo depois foi melhorando - e sempre com muito esforço dos moradores. Mas de fato havia oportunidades, e por isso nos estabilizamos.

Enfim, a mensagem que aqui vai como primeira postagem de 2012 resume muito bem tudo isso, e não mostra Avenida Paulista, nem ponte estaiada. Foi escrita pela pedagoga Regiane Santana.

"Parabéns, São Paulo! Desejo a você pessoas mais educadas, ruas mais limpas e iluminadas, motoristas responsáveis, mais segurança, menos enchentes, mais árvores. Enfim, muitos anos de vida antes do caos total."
Vista panorâmica da Cidade Ademar, zona sul de SP. De Henrique Manreza

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O Brasil é o sexto do mundo

por Julio Canuto.


"O Brasil tem batido os países europeus no futebol por um longo tempo, mas batê-los em economia é um fenômeno novo." Douglas McWilliams, chefe-executivo do Centro de Pesquisa para Economia e Negócios (CEBR, em inglês) do Reino Unido.


anúncio foi feito pelo jornal britânico The Guardian: o Brasil é a sexta economia do mundo. Coincidentemente o país termina 2011 também em sexto lugar no futebol. Na economia se comemora, no futebol se lamenta. Mas o que uma coisa tem a ver com a outra?


ECONOMIA


Na economia alcançamos o sexto lugar em medida do PIB - Produto Interno Bruto, que é a soma dos bens e serviços produzidos no país em determinado período. Isso diz quase nada sobre a qualidade de vida da população que aqui vive. Grosso modo, revela apenas que não estamos estagnados, que há investimentos e, indiretamente, alguma infraestrutura. Mas nada diz sobre salários, infraestrutura aos cidadãos, educação, saúde (incluindo saneamento) etc.

Todos sabem que apesar do pomposo título de sexta maior economia do mundo - superando o Reino Unido, oh! - somos também um dos campeões em desigualdade social. Somos apenas o 73o. no IDH; a corrupção esta estampada diariamente nos jornais e nos pequenos gestos cotidianos; e nossa cidadania ainda é regulada (no sentido que Milton Santos dá ao conceito). Até mesmo o nosso Ministro da Fazenda, Guido Mantega, já avisou que o Brasil levará 20 anos para ter o padrão de vida europeu. E isso me preocupa, pois a qual padrão ele se refere? Com certeza não é de cidadania, mas de consumo. E se tem uma coisa que o planeta está precisando é de menos consumo. Mas esta já é uma outra história.

Enfim, ser a sexta maior economia representa pouca coisa na prática cotidiana.


FUTEBOL


Também estamos em sexto lugar no futebol, conformeranking de seleções da FIFA de 21 de dezembro, mas neste caso ninguém comemora, só lamenta. Afinal, éramos os melhores do mundo.

O futebol, nosso principal esporte, a paixão nacional, carece de investimentos estratégicos. É só parar para pensar: o que representa os clubes da sére A e B do Brasileirão no total de equipes do país, em todas divisões e até torneios de várzea? Nem mesmo todas as equipes dessas duas séries possuem boa infraestrutura. aliás, poucas possuem boa infra. O futebol vive do marketing, das especulações. Retratando a realidade nacional, é o local onde impera a desigualdade de oportunidades. Até mesmo os grandes clubes do futebol nacional pouco oferecem aos atletas no que se refere a educação, apoio psicossocial etc. Tratei desse assunto em outro blog, ao falar dos investimentos feitos nos EUA e sua Major League Soccer.

Nos outros esportes então. Não raro vemos atletas fora de importantes competições por falta de patrocínio. Não há prática esportiva nas escolas públicas. Não há sequer um controle de qualidade sobre áreas esportivas e equipamentos esportivos. E a mídia adora exibir as histórias de superação dos atletas, que enfrentam inúmeras barreiras (financeiras, sociais, psicológicas) sem atentar para o lado vergonhoso de uma nação que não incentiva e nem dá oportunidades aos seus cidadãos.

Ainda assim todos estarão motivados para o hexa em 2014, que definitivamente não merecemos.

Mas segue a vida e nossas ilusões são renovadas em mais uma festividade de fim de ano, em mais uma temporada ou em mais uma eleição. Enquanto engolimos estas notícias e esperamos o tal "padrão europeu" na política, na cidadania e no futebol, assistimos a mais uma partida, bebemos mais uma cervejinha e as perspectivas de mais algumas gerações acabam também em cesto, este outro com "c".

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Pedra de rumo: a importância da cartografia social

por Julio Canuto

Quem lê este blog já ha algum tempo, ou quem teve a curiosidade de pesquisar o motivo de existir este blog, sabe que o nome e a motivação é criticar a produção acadêmica feita para a academia, com a proposta de pular os muros e trazer estes conhecimentos com reflexões sobre os fatos do cotidiano, o dia a dia do homem comum.

Não nos prendemos só a isso, mas se fazemos este esforço (bem ou mal), isto não é consequência de uma grande capacidade intelectual de seus colaboradores (considero-me um sociólogo limitado), mas geralmente de pesquisas feitas na web, livros etc e publicadas neste espaço como forma de estimular a reflexão a partir da rua. Quero dizer com isto que encontramos pessoas e trabalhos que propõem um diálogo verdadeiro entre o mundo acadêmico e o mundo real, inclusive com linguagem acessível.

O trabalho a apresentado nesta postagem é um dos melhores exemplos de como a academia (vejam só!) pode ser realmente útil.

NOVA CARTOGRAFIA SOCIAL

O Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia (PNCSA), coordenado pelo antropólogo Alfredo Wagner Berno de Almeida existe desde 2005 e atualmente é composto por 15 doutores (antropologia, direito, geografia, biologia, sociologia, história), 13 doutorandos, 04 mestres, 14 mestrandos, 04 bacharéis e 18 graduandos. Já participaram junto ao Projeto aproximadamente 116 distintos grupos sociais.  

O objetivo do projeto é 
dar ensejo à auto-cartografia dos povos e comunidades tradicionais na Amazônia. Com o material produzido, tem-se não apenas um maior conhecimento sobre o processo de ocupação dessa região, mas sobretudo uma maior ênfase e um novo instrumento para o fortalecimento dos movimentos sociais que nela existem. Tais movimentos sociais consistem em manifestações de identidades coletivas, referidas a situações sociais peculiares e territorializadas. Estas territorialidades específicas, construídas socialmente pelos diversos agentes sociais, é que suportam as identidades coletivas objetivadas em movimentos sociais. A força deste processo de territorialização diferenciada constitui o objeto deste projeto. A cartografia se mostra como um elemento de combate. A sua produção é um dos momentos possíveis para a auto-afirmação social. É nesse sentido que o PNCSA busca materializar a manifestação da auto-cartografia dos povos e comunidades nos fascículos que publica, que não só pretendem fortalecer os movimentos, mas o fazem mediante a transparência de suas expressões culturais diversas. 
(clique AQUI para acessar o sítio do projeto)

Isto é, não se trata de um estudo puramente acadêmico (que vai até os territórios, coletam informações e voltam para academia), mas leva instrumentos e tecnologias e, através de oficinas, possibilita que os membros das comunidades se apropriem das geotecnologias (tecnologias de mapeamento), e que este conhecimento aliado ao saber local, tradicional, seja utilizado por estas pessoas como forma de potencializar o papel dos membros das comunidades como atores políticos, e se tornem protagonistas nas definições de assuntos de ordem econômica, cultural e social em seus territórios. Promove, assim, a valorização da história local, das pessoas que participaram dessa história, contribui para o desenvolvimento do sentimento de pertencimento. Com isso, contribui também para que estas comunidades e seus movimentos discutam e pressionem para o cumprimento do Decreto no. 6040, de 07/02/2007, que instituiu a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais.

O ponto central do projeto, como se observa, é o território, nas suas dimensões de identidade, pertencimento, utilização etc, ao modo como o conceito foi adotado por Milton Santos, como o espaço onde há a interdependência entre a natureza e a ação humana (trabalho e política), e é ao mesmo tempo o resultado do processo histórico e a base material e social das ações humanas. 

O projeto não acontece apenas na Amazônia, mas em vários Estados do Brasil, envolvendo várias universidades e parceiros, com destaque para a Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Universidade Estadual do Amazonas (UEA) e a Ford Foundation. 

O vídeo abaixo mostra os depoimentos de Dona Dijé ( moradora de comunidade quilombola no interior maranhense e uma das lideranças do movimento de quebradeiras de coco) e José Carlos Vandressen (filósofo e pesquisador coordenador do projeto), que trazem reflexões importantes sobre o uso das geotecnologias no dia a dia das pessoas. 

Peço especial atenção à fala de Dona Dijé, sobre a mudança que esta experiência trouxe para a sua vida.

O vídeo tem 35 minutos e foi gravado no Espaço da Foco Santiago & Cintra, empresa de geotecnologia.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O NEgado da Copa e Jogos Olímpicos

por Júlio Canuto

Em 2009 e 2010 participei de trabalho para o ITERJ, o Instituto de Terras do Estado do Rio de Janeiro, órgão vinculado a Secretaria de Estado da Habitação do Governo do Estado do Rio de Janeiro, para execução dos "serviços de cadastro socioeconômico com identificação de demandas", o qual tinha por finalidade "identificar os dados necessários ao processo jurídico de USUCAPIÃO OU AUTO DE DEMARCAÇÃO URBANÍSTICA das áreas selecionadas e para a elaboração do Diagnóstico Socioeconômico".

Entre os quatro "objetivos primordiais"  estava o de "levantar os dados necessários ao conhecimento da realidade social de cada família e reunir elementos e documentos que possibilitem a regularização fundiária das comunidades". Os demais objetivos comptemplavam o levantamento de dados (no mesmo cadastro) para conhecimento da realidade socioeconômica das comunidades; levantar demandas e identificar as famílias em risco social para elaboração de projetos sociais e de geração de renda, bem como ações sociais e econômicas emergenciais.

Tudo que foi apresentado até aqui entre aspas consta do "Termo de Referência dos Serviços de Cadastro Socioeconômico em Áreas Particulares", anexo 1 de cada Edital (imagem). 

Só no ano de 2009 foram oito editais para regularização de comunidades na cidade do Rio de Janeiro e em outros municípios. No total, eram 125 comunidades a serem visitadas e regularizadas, sendo 77 na capital carioca. Com estimativa de atender 61.101 famílias, das quais 39.161 na cidade do Rio de Janeiro (a lista das comunidades está no final da postagem) e outras 48 comunidades e 21.940 famílias em outros municípios. Contemplava comunidades localizadas em áreas públicas e particulares, bem como na zona urbana ou rural. Comunidades já antigas, muitas com mais de 30 anos de existência. 

Na prática, o trabalho consistia em cadastrar as famílias através de formulário fornecido pelo órgão contratante (ITERJ) e recolher a cópia dos documentos junto a assinatura do responsável por cada propriedade, de forma que fosse possível dar entrada no processo de usucapião, o que daria o título de propriedade as famílias (além de pesquisa qualitativa e coleta de dados secundários para a realização dos diagnósticos socioeconômico e físico-ambiental).

Foi um trabalho difícil, sobretudo para as equipes de campo responsáveis pelos cadastros, compostas dos supervisores de campo (representantes das empresas vencedoras da licitação) e moradores das comunidades, contratados para realizarem os cadastros. Tivemos que lidar com a desconfiança da população, justificada pelo histórico de luta para a conquista de um local para morar - como garante a Constituição - ainda que em condições precárias, e resistência à repressão do Estado, representada na coerção policial. Isto é, apesar de ser o atendimento de uma reivindicação das famílias, muitas vezes era preciso também desenvolver um trabalho de sensibilização, ganhando a confiança dos moradores. Pelos mesmos motivos era também um trabalho muito bom de realizar, que nos fortalecia, agregava conhecimento e muita experiência. 


Pena não ter sido totalmente gratificante.

Atendendo a interesses pouco claros, eis que Governo Estadual e Prefeitura do Rio de Janeiro jogaram fora o esforço, a luta e sonho das famílias de algumas dessas comunidades (e também o nosso trabalho). Contando com a omissão do Governo Federal.


Matéria da ESPN Brasil exibida em agosto de 2011 no programa Histórias do Esporte mostra que desapropriações para Copa do Mundo de 2014 e Olimpíadas de 2016 ignoram Leis e Cidadãos. Além disso, alguns funcionários da Defensoria Pública que estavam comprometidos com o trabalho de defender os direitos das famílias foram afastados.


"As desapropriações no Rio de Janeiro visando a Copa do Mundo de 2014 e também os Jogos Olímpicos de 2016 não têm respeitado os cidadãos como manda a lei. Moradores sequer são avisados do motivo pelos quais estão tendo de deixar suas casas e veem em questão de horas suas residências colocadas no chão por máquinas." (ESPN)


Como mostra os vídeos abaixo, trata-se de total abuso e pressão psicológica contra moradores. Documentos emitidos pelo Poder Público exigem a saída imediata das famílias. Imediata mesmo: exatamente "0" (zero) dia para deixarem suas residências, como mostra o documento apresentado pelo Procurador de Justiça Leonardo Chaves (2o. vídeo), onde consta o nome da Comunidade Vila Harmonia, que integrou o projeto de regularização fundiária no Pregão Eletrônico no. 006/2009. Isto é, local onde as equipes passaram, levaram a expectativa aos moradores, recolheram cópias de documentos, levantaram dados, produziram estudos e encaminharam ao Poder Público para que o processo de usucapião fosse realizado.


Através de Informações de companheiros que trabalharam comigo no projeto soube que outras comunidades cobertas pelo programa de 2009 hoje já não existem. 


Acompanhe a matéria da ESPN em dois vídeos.





É muito triste para todos que trabalharam neste projeto (equipe do ITERJ e equipes das empresas contratadas), ver nossos esforços desperdiçados. Chego a me sentir usado, pois procurei trabalhar a desconfiança dos moradores (entendendo a razão da desconfiança) com algo concreto: uma ação para oficializar a propriedade das residências, incluindo sugestões de ação ao Poder Público no encaminhamento de reivindicações dos moradores e através da observação e estudo das comunidades. 


Para que serviu o montante gasto nestas licitações se parte do trabalho foi desprezado? 


Dói mais ainda  pensar que as várias famílias que visitamos, entrevistamos, levamos expectativas, que tinham a certeza de, enfim, ter reconhecido seu direito à moradia, hoje se encontram sem ter onde morar, ou morando em condições precárias, muito distantes de onde construíram suas vidas.


De fato, como disse o morador que citou a Lei Orgânica do Município do Rio de Janeiro (no vídeo), a Copa e as Olimpíadas já estão deixando o NEgado ao lar, à vida digna e, ao que é pior, à esperança. 


Abaixo segue a lista de comunidades do município do Rio de Janeiro que participaram do projeto. Quem for do Rio de Janeiro e tiver conhecimento pode verificar quais delas já não existem mais.




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Listagem de licitações do ITERJhttp://www.iterj.rj.gov.br/licitacao.asp

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Curta Sexta Curta 20 - Eu não vou me mover

por Julio Canuto

O Curta Sexta Curta de hoje, em sua 20a. edição, traz uma obra prima sobre a hipocrisia: Eu não vou me mover... ou a mentira tem pernas curtas e cassetetes longos.

Trata-se de um curta-metragem estadunidense lançado recentemente que mostra a hipocrisia do discurso do governo daquele país em relação à liberdade de expressão e legitimidade das manifestações populares. Alteram-se os discursos de Hillary Clinton e Barack Obama sobre as manifestações no norte da África e a forma como os Estados Unidos da América trata as manifestações em seu solo.

É apenas um exemplo do modo de agir de muitos governos, que deveriam respeitar os interesses de suas populações, mas que  agem de forma contrária.

Curto e grosso, resume muito bem o principal motivo do descontentamento em muitos países com o sistema (falsamente) representativo.

Editado por Corey Ogilvie, "Eu não vou me mover" é dedicado ao povo, filmado pelo povo, para o povo.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Festas de fim de ano. Cuidado!

por Julio Canuto

O ano de 2011 vai chegando ao fim. Dezembro é uma festa só: sítios, churrascos, confraternização, praia, muita comida, bebida, e outras coisas mais... TUDO EM EXCESSO!

O vídeo abaixo, uma compilação de 20 anos de campanhas do TAC (Transport Accident Commission) foi exibido na Austrália em 2009 e, dizem, teve um efeito fantástico. A informação é de que houve sensível diminuição nos acidentes provocados pelo consumo de álcool e outras drogas nas estradas daquele país. Parece que o pessoal se conscientizou, deixou de usar drogas nas datas comemorativas, ou deu o tempo necessário para pegar a estrada.

Não custa nada lembrar. Se for encontrar com os amigos ou familiares, quiser se entorpecer, se embebedar, fique por lá. Descanse, durma, volte só depois, quando já não estiver sob efeito de drogas. Para os que vão ficar em casa e receber os amigos, convença-os de que é melhor ficarem. Aproveitam melhor a festa e voltam tranquilos. Agora, se só for dar uma passada na casa de alguém, faça isso antes de começar a beber.

Aproveite a festa numa boa, você é uma pessoa querida e todos esperam que volte no ano seguinte.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Reflexões sobre o 15.O SP

por Julio Canuto

Esta mensagem era pra ter sido escrita a quase um mês, mas devido a tantas obrigações profissionais, que me afastaram do noticiário e também da rua, publico agora.

O ano de 2011 marca uma nova etapa na participação política no mundo. Seja no norte da África, pela queda de governos ditatoriais; na Europa e EUA, pela perda dos direitos sociais, recessão e desemprego como consequência do privilégio dado aos bancos durante a crise; quer seja no Chile, com os estudantes exigindo educação pública de qualidade; destaca-se a participação dos jovens, dando nova esperança de mudanças concretas no mundo. A web tem se mostrado como importante meio de troca de idéias e até mesmo de mobilização, bem como meio de informação a parte da grande mídia, uma alternativa que expõe outras opiniões.
Não coloco todas essas manifestações no mesmo patamar. Vejo que lutam por objetivos distintos, de formas distintas, embora o problema da cidadania plena seja o pano de fundo. Muito me alegrou ver as manifestações na Europa desde maio, com as ocupações de praças públicas, em atos não violentos e sem partidos. Fiz questão de compartilhar vídeos e textos.

Porém, quando este movimento chegou em São Paulo a partir do dia 15 de outubro, curiosamente não tive vontade de apoiar, e não sabia porque. Desde então tenho procurado pensar, analisar, ler o site do movimento e os textos nos jornais. Nessas pesquisas, encontrei um artigo que considerei muito bom: "Duas opiniões sobre o 15.O em São Paulo", que está na íntegra logo após esta minha primeira reflexão.
Penso que, de fato, os partidos não nos representam. Infelizmente não tenho me animado nas eleições. Velhos políticos nem um pouco dignos continuam no poder. Isso causa um desgaste tremendo (e vejo isso pelos meus pais e outras pessoas, que não acreditam em mais nada). Neste sentido, a proposta de manifestar-se sem as bandeiras partidárias é compreensível e me agrada.

Também me agrada a manifestação contra as causas globais das desigualdades, mas seria importante que as reivindicações estivessem focadas nos problemas locais (com a consciência da influência global). Os problemas colocados são todos muito importantes, embora eu tenha objeções sobre alguns na forma que está no manifesto, mas o problema é que aparecem aos que acompanham pela mídia e até mesmo pelos que passam pelo Anhangabaú e Viaduto do Chá como temas amplos, como coisas bem diferentes. Se por um lado é louvável que diferentes movimentos estejam se unindo, todo cuidado é preciso na forma de transmitir isso a população, para que tudo fique claro. Tarefa dificílima, diga-se.

É aí que o artigo citado me auxiliou. Publicado pelo Instituto Pólis, traz argumentos do sociólogo Silvio Caccia Bava e de participantes do 15.O - Acampa Sampa. A crítica do Caccia Bava recai sobre a falta de clareza das reivindicações (é muita coisa sendo reivindicada, de forma genérica). Senti isso também. E na minha opinião, há mais dois fatores:

1. Qual o projeto? Isto é, sabemos o que está errado, mas o que fazer? Como mudar efetivamente? Aliás, este é um entrave que vejo também nos movimentos da Europa e do norte da África, embora nesses locais os objetivos estão claros. 

2. O movimento parece muito descolado das importantes conquistas anteriores do período de redemocratização e a Constituição. Penso que seria interessante a luta para o real estabelecimento da participação popular que a Constituição prevê. Fala-se em "democracia real", mas eu não consigo enxergar o que exatamente seria isto, já que a democracia participativa está prevista em nossa Constituição.
Por outro lado, outros dois pontos merecem destaque, a partir dos quais parabenizo o movimento:
1. A forma não violenta de manifestação, que deve aproximar as pessoas muitas vezes apenas curiosas, além de não dar pretexto para a truculência do Estado.
2. As aulas abertas, saindo dos muros das faculdades e chegando as ruas. O discurso também deve ser acessível a todos. Com certeza irei em uma dessas aulas.
Enfim, continuo ainda sem uma opinião formada, mas acho que aos poucos vou evoluindo. Voltarei a falar no assunto. Por enquanto, deixo o debate no artigo abaixo.

20/10/2011
DUAS OPINIÕES SOBRE O 15.O EM SÃO PAULO 



15 de outubro. Neste dia, a complacência da população mundial com o status quo foi abalada: em 71 países, mais de 869 cidades decidiram se manifestar contra o sistema político desigual e opressor. No Brasil, 39 cidades aderiram aos protestos globais, com ocupações em locais públicos, atos, assembleias e eventos culturais. Em São Paulo, os manifestantes montaram um acampamento no Viaduto do Chá.

A pergunta principal que o Movimento 15 de Outubro levanta é: “por que a voz dos ricos e de corporações multinacionais tem mais peso na construção do futuro do Brasil do que a do povo”?

Para Leandro Cruz, historiador e integrante do movimento, “nós vivemos sob a ditadura do poder econômico, em que as elites e corporações do Brasil tomam conta do processo político, movidas pela ganância, sem levar em conta fatores humanos, a qualidade de vida das pessoas e do meio ambiente. Há quem diga que os levantes estão acontecendo porque a Europa está em crise, e que aqui não ia acontecer nada, porque nós não estamos em crise e vivemos um bom momento, o que não é verdade”.

Silvio Caccia Bava, editor chefe do Le Monde Diplomatique Brasil identifica os dois principais pontos que sustentam os levantes mundiais: um sistema político opressor, que não ouve as demandas expressas nas manifestações, e a crise financeira que limita as possibilidades da juventude conseguir espaço para o exercício da plena cidadania.

A repressão policial ao acampamento do Movimento 15 de Outubro intensifica-se. As redes sociais e blogues do movimento registram na internet ações da Guarda Civil Metropolitana arrancando cartazes e faixas colocadas pelos manifestantes; no dia 19, a Polícia Militar impediu os manifestantes de realizarem um protesto na Avenida 23 de maio, retiveram RGs e investigaram manifestantes.

O acampamento está organizado em diversas frentes, como a equipe de comunicação, que atualiza redes sociais e escreve notícias, e a de cozinha, que cuida das doações de alimentos recebidos. A organização do acampamento espelha a proposta do movimento: todos podem manifestar suas ideias e participar, sem qualquer tipo de hierarquia.

Diversas assembleias e grupos de trabalho estão sendo realizados diariamente para debater temas nos quais o movimento reivindica participação social, como o Código Florestal, a precarização da saúde, a violência policial e a remoção de famílias para a construção dos megaeventos. Além disso ocorrem atos, aulas públicas e apresentações culturais.

Para Silvio, a proposta do movimento é interessante, mas o contexto brasileiro não favorece o crescimento de uma mobilização como essa. “Para mim seria uma surpresa se esse movimento ganhasse uma grande dimensão no Brasil. Estamos vivendo um momento em que o desemprego está muito baixo, e oportunidades estão sendo oferecidas aos jovens. Eu acho que o sistema político da nossa democracia criou espaços de participação nos últimos anos: temos conselhos e conferências, inclusive a Conferência Nacional de Juventude, que de alguma maneira canalizam as demandas dessa população jovem para negociação com o poder público. Eu também não vejo claramente quais são as bandeiras. Se você olhar na Grécia, há claramente uma situação polarizada. A economia está num estado crítico, e os jovens propõem o fim das heranças, que é uma proposta radical, e o salário base para empregados e desempregados de 30 mil euros por ano. Em Madri, eles reivindicam a estatização do sistema financeiro privado. No Chile os estudantes fizeram um referendo onde a ampla maioria referendou a proposta de que a educação não pode ser mercadoria; ela deve ser pública, universal, gratuita e de qualidade. Eu não vejo no Brasil demandas desta ordem. O aperto fiscal na Europa, que desmonta o Estado de Bem-Estar Social mobiliza as pessoas que estão indignadas com a perda de direitos, como por exemplo na Grécia, onde a saúde, que era gratuita, começou a ser paga. Qual a perda de direitos que esses jovens questionam no Brasil?”

Segundo Leandro Cruz, “temos várias bandeiras porque há muito que se reclamar, e a principal pauta é que em todos esses assuntos nós queremos ser ouvidos e respeitados. O difícil é você começar a rolar a bola de neve. Outras ocupações como nos Estados Unidos e Espanha começaram como grupos pequenos, mas guerreiros, e depois cresceram. A gente não está propondo uma reforma política, e sim uma transformação profunda de todo o sistema político e decisório do Brasil. Nós queremos participar de todas as etapas do processo, a população tem que ser ouvida durante estudos, debates, e tem que tomar parte nas decisões de maneira direta, seja através de plebiscito, e nós temos que construir juntos essa nova maneira de decidir as coisas”.

Caccia Bava compara a mobilização em São Paulo à dos estudantes chilenos. “No caso do Chile, o movimento adotou uma bandeira muito concreta, que foi se ampliando, se radicalizando: queremos educação de qualidade para todos. A mercantilização do serviço público na área de educação ou excluía o jovem de entrar na universidade ou dava a este uma dívida enorme quando saía. Isso era uma situação concreta a enfrentar. Se nós não temos esses objetivos concretos no Brasil, esses movimentos não vão prosperar. Se o cenário fosse de desemprego, crise financeira, quebradeira de empresas, inflação alta, aí sim poderia haver um crescimento desses movimentos nas ruas reclamando seus direitos, porque para sanar esses problemas todos, na ótica neoliberal, iriam se cortar várias coisas que hoje são oferecidas como políticas públicas. Isso não está acontecendo e não vai acontecer. Esse movimento só ganhará força se a crise financeira europeia for tão forte a ponto de se transformar numa crise global e tiver um impacto forte no Brasil. Até agora isso não está desenhado”. O Movimento 15 de Outubro chama a todos: “Venha participar! É hora de mostrar sua indignação com o sistema capitalista. A união de tod@s @s indgnad@s mostrará que o povo quer transformações profundas na sociedade. Queremos construir uma democracia direta e participativa. Traga sua bandeira, sua vontade e sua voz!”

Confira o blogue e o manifesto do Movimento 15 de Outubro.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Sobre a ocupação da USP

por Leonardo André


Batalhão de Choque foi acionado para por fim à ocupação. Foto: Folha.Com

A ocupação das dependências da reitoria da USP deu o que falar. No facebook vi colegas e professores romperem relações (ao menos as virtuais) por divergirem quanto à permanência ou não dos gambé na segurança do campus. Ninguém me perguntou, mas resolvi dar minha opinião...

Quem está mais próximo ao movimento estudantil sabe que o problema não é apenas os estudantes pegos fumando maconha no estacionamento da USP. Não é de hoje que a relação entre estudantes e Policia é espinhosa. Aliás essa treta é histórica. O problema é que nem todos entendem que o pensamento nunca foi exatamente livre nesse país, mesmo do lado de dentro dos muros da Universidade. Sem uma cobertura mais profunda de episódios como esse é muito fácil essa rapaziada engajada pagar de playboyzinhos mimados que querem fumar maconha a salvo do papai e da mamãe. É óbvio que a opinião pública vai interpretar os fatos a partir das imagens amplamente divulgadas das paredes pichadas, das viaturas quebradas, das ganhafas de bebida alcoólica espalhadas pelas dependências dos prédios ocupados, dos molotovs etc. Com rostos cobertos tal qual presos rebelados passam uma imagem bastante negativa para quem não compartilha de suas posições políticas. Por isso acredito que essa rapaziada precisa ser mais esperta, talvez tenham que sair um pouco do casulo, dos diretórios acadêmicos. O melhor aliado para suas causas deve ser a opinião pública. Sempre. E invadir e depredar não é, definitivamente, o melhor caminho para se aproximar de quem está além dos muros. Melhor seria se tivessem organizado um grande acampamento como ocorre em Wall Street, levantando bandeiras com suas propostas de mudanças, com suas demandas, sei lá... enfim, qualquer coisa que pelo menos não queimasse tanto o filme perante a opinião pública. Da forma como a parada toda se encaminhou, nosso querido governador ainda ganhou pontos com o eleitorado e a PM despreparada para conviver com estudantes provavelmente vai continuar lá, pois esse é apenas mais um entre tantos paliativos que o poder público mete goela a baixo dos telespectadores do Jornal Nacional. Marcelo Rubens Paiva colocou muito bem o problema ao dizer que “foi a reitoria da USP que pediu que a Linha Amarela do metrô, ainda na prancheta, não passasse pelo campus, alegando questões de segurança. No projeto original, as estações seriam na Praça do Relógio e no HU (Hospital Universitário). Construíram no Butantã. Os milhares de alunos, professores, funcionários e visitantes que circulam diariamente pela maior universidade da América Latina são obrigados a caminhar mais de 1 km até a portaria da instituição”. 

De qualquer forma, é errando que se aprende e Univesidade é um bom lugar pra aprender, não? Mesmo não concordando com o modus operandi, ainda prefiro ver gente incomodada do que gente acomodada.

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