terça-feira, 1 de novembro de 2005

Hermeto

Há um tempo atrás, num texto intitulado “cultura e entretenimento”, falei sobre sons experimentais e citei alguns músicos, dentre os quais Hermeto Pascoal, sugerindo ao leitor de tal texto que se porventura escutasse algo destes músicos que “sentasse, relaxasse e tivesse uma boa viagem”. Como é de costume, repeti o ritual para ouvir com muita atenção o albino e a banda que o acompanha, sabendo da inevitável surpresa que sempre tenho e muito me agrada a cada audição. Confesso que não ouço Hermeto em CD com freqüência. Pra dizer a verdade só muito raramente, pois nada se compara a apresentação ao vivo, em alto e bom som e com toda a energia do momento. “In loco” e louco.

Pensando nisso, passo a observar um tanto distante as sensações desta experiência. Descrevo exatamente sob esta forma de análise por ser a forma que me é possível, já que não tenho um conhecimento erudito sobre música, mas vamos lá... Espero ansioso o início da viagem vendo a banda composta por vários músicos, com os instrumentos de costume – “clássicos”, por assim dizer – como piano, contra baixo, bateria, flautas, sax etc, e outros inventados ou adaptados, como as panelas e chaves da percussão, canos, paralelepípedos e quaisquer objetos que passarem pelas mãos de Hermeto. Além de seus gritos.

Ao ouvir a banda composta como dito acima, percebo uma fundamental diferenciação com outras bandas e músicos convencionais– sem intenção aqui de tratar de valores ou fazer julgamentos na utilização do termo – com sua combinação de sonoridades formando um “todo” (música) que fica evidente. Com a banda de Hermeto não. Aqui se tem uma espécie de conversação entre os músicos e entre seus instrumentos. Ouço a bateria e o sax tocarem de maneira diferenciada e se encontrarem na música. Em minha cabeça, que já se sente em meio daquela falação musical, sinto como se estivesse em um lugar bastante movimentado onde eu, andando com os ouvidos, acompanho a sonoridade do sopro para, ao me deparar com as cordas, sair para outro lado até que a bateria me puxe para outro e acabar dando de cara com a percussão “adaptada” e ficar estático ao vê-la com os ouvidos. Uma música anárquica, conflituosa assim como nossos espíritos na mistura de sensações, viva.

 Bom, se talvez meu leitor não estiver entendendo o que quero dizer, seja porque nunca tenha ouvido Hermeto e se envolvido, ou talvez porque não seja possível descrever sensações e porque não haja palavras para isso eu não tenha utilizado as de costume. Acho que nesta circunstância, deveria encerrar este ensaio da mesma maneira como terminei o anterior já citado. E esta é realmente a intenção. Não utilizo palavras como melodia e harmonia porque na experiência de presenciar uma apresentação do Hermeto e banda percebe-se que não há nada no lugar, não se sabe se essas coisas existem ali. Ouve-se apenas e grandiosamente: música!

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