segunda-feira, 26 de dezembro de 2005

Espelhos

Nunca lhe disseram, mas ele sabia que as pessoas o consideravam como um sujeito frio. Suas reações (ou a ausência delas) diante das mais variadas situações comprovavam as impressões. Sem expressões – de dor, de tristeza, de alegria ou de desejo – ele ia vivendo.
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Internamente ele se conhecia bem; o que sentia – até intensamente – e o que pensava. Porém nada disso era refletido nos espelhos pelos quais passava. Alguns um pouco mais atentos, alertavam que ele se preocupava com os outros. Outros diziam que ele não se preocupava com ninguém. Que tanto fazia subir como descer. Esta contradição de opiniões, externas, devia-se a falta de reflexos. Não refletia nem se fazia refletir: um gelo!
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Mas eis que os dias foram esquentando. Sentia agora um calor de rachar; ou melhor, de derreter, porque seco não era. E de tanto internalizar o que vivia foi, ao derreter, se enchendo. Mesmo porque suas relações aumentaram em número e intensidade...
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O que foi bom! – pensava ele.
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No entanto, intensidade demais também causa efeitos variados, e de vários ele não gostava.
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Comprovando a tese freudiana, lançou mão de alguns “remédios”. Claro, nada de orações já que não era de se expressar e, além disso, cético. Muito menos de procurar auxílio médico, posto que seria inútil sendo sua aparência “normal”. Sempre gostou da noite, o que facilitou o tal “tratamento”, e gostava dos meios que o fazia relaxar, sorrir e sentir-se. Sentir também intensamente – uma eventual agitação – mais próximo de uns e outros. Aliás, é bom que se diga que apesar da aparente frieza sempre teve amigos.
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Introspectivo mas de amizade fácil. A exceção comprovava a regra das opiniões controversas. E a controvérsia foi que ele não se apegou a teoria psicanalítica e abandonou o tratamento iniciado para seu (des)controle.
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A conseqüência da falta de tais remédios é que o ar quente daqueles dias ia fazendo o gelo derreter até transbordar o que internalizava. Fato este que foi motivo de comemoração. Gostou da mudança, pois agora se sentia seguro. Passou a dizer o que sentia, o que pensava etc. Não só pelas palavras, mas – mesmo! – pela sua expressividade. E como não refletia nele as expressões alheias, o que viu refletido nos outros era algo diferente do que procurava mostrar. Se por um lado era uma evolução ter algum reflexo; por outro continuava mal interpretado.
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E sabe o que aconteceu?
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Recaída?
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Pelo contrário: usou de sua naturalidade original – que percebeu confundida pelos outros com frieza – e resolveu o problema. Notara agora que o reflexo dos espelhos com os quais cruzava era em grande parte a incompreensão vazia, sem reflexão. E como sempre sentiu necessidade de refletir sobre o que está ao seu redor, a imagem que devolvia a quem cruzava com ele era também vazia para aquele ponto de vista, pois não era o simples rebate de uma aparência.
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Daí se deu conta do que sempre soube: que não precisava de espelhos. Alguns, no entanto, ele considerava necessários e tem estima por eles. Cada um destes é diferente do outro, e isto é o que lhe agrada. Mas não os usa como forma de observar seu reflexo e até por conta disso anda um pouco “largado”. É apenas que o que é refletido por estes lhe importa mais.
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Assim está passando seus dias, que continuam quentes e ele agora gosta de tudo. Do que lhe faz bem e do que lhe faz mal, porque tudo o faz sentir-se. Também não expressa tudo, pois lhe disseram que “nem tudo precisa ser dito”, o que considerou muito justo e verdadeiro.
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Não sabe mais ao certo o que pensam aqueles outros. Se o consideram frio ou não. Sabe apenas que esta história não termina aqui, e como o clima é “louco” por estes lados, vive intensa e naturalmente a sua vida.

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