terça-feira, 24 de janeiro de 2006

Admirável Mundo

“Estendeu a mão para o botão de sintonia no quadro de comando de bordo e o fez girar ao acaso: “...dentro de ti o céu é puro e sossegado”, cantaram em trêmulo dezesseis vozes de falsete, “e o tempo é suave como num vale...”
Depois, um soluço, e o silêncio. Bernard desligara o rádio.
– Eu quero contemplar o mar, em paz – disse. – Não se pode nem olhar, com esse barulho infernal nos ouvidos.
– Mas eu acho delicioso. E, além disso, não quero olhar.
– Mas eu quero – insistiu ele. – Isso me dá a sensação... – hesitou, procurando as palavras – ...a sensação de ser mais eu, se é que você compreende o que quero dizer. De agir mais por mim mesmo, e não tão completamente como parte de alguma outra coisa. De não ser simplesmente uma célula do corpo social. Você não tem a mesma sensação, Lenina?
Mas Lenina estava chorando.
– É horrível, é horrível – repetia. – E como é que você pode falar assim de não querer ser parte do corpo social? Não podemos prescindir de ninguém. Até os Ípsilons...
– Sim, já sei – disse Bernard com sarcasmo. – “Até os Ípsilons são úteis!” Eu também. E gostaria imensamente de não servir para nada!
Lenina escandalizou-se com a blasfêmia.
– Bernard! – protestou, espantada e aflita. – Como pode falar assim?
Bernard, em outro tom, respondeu meditativamente:
– Como posso? Não, o verdadeiro problema é este: como é que não posso; ou antes, pois sei perfeitamente por que é que não posso, o que eu sentiria se pudesse, se fosse livre, se não estivesse escravizado pelo meu condicionamento?”
* * *
Extraí o trecho acima de ADMIRÁVEL MUNDO NOVO, livro escrito por Aldous Huxley em 1932. O romance vislumbra uma sociedade dominada pela técnica. Nessa sociedade as pessoas passam por processos que desumanizam e condicionam, inclusive geneticamente, cada indivíduo para que realize funções pré-estabelecidas. Pestes e doenças, assim como as sensações e os sentimentos estão totalmente sob controle graças ao desenvolvimento científico e metodológico.

Se compararmos a sociedade idealizada pelo autor com a atual, veremos que, apesar de não existirem instituições especializadas no condicionamento iguais as que ele descreve, boa parte de nosso comportamento é condicionada pela sociedade, através de seus costumes e tradições. E assim como no romance, não percebemos até que ponto somos levados a agir de forma padronizada, colocando nossas verdadeiras potencialidades pra escanteio.


...

Um comentário:

Helena S. disse...

Verdade, e de certa forma ler esse livro nos faz pensar se acaso existisse isso tudo, nao seria condicionalmente melhor? obvio que nao, mas eu penso a respeito.
Eu bem gostaria de tomar alguns gramas de soma de vez em quando.