sábado, 7 de janeiro de 2006

Sobre mídia e política (...e os escândalos)

Já quase no final de 2005 foi noticiado pelos meios de comunicação que o chamado “mensalão” foi comprovado. Próximo de completar seis meses das denúncias feitas pelo ex-deputado e presidente do PTB, Roberto Jefferson, à Folha de S. Paulo em 06 de junho de 2005 e após o afastamento, renúncia e cassação de alguns supostos envolvidos é que se chegou a esta conclusão. O pior: ainda sem sabermos de onde veio o dinheiro. Não parece que as coisas estão fora de ordem? Julgamentos antes da comprovação dos atos ilícitos...

Pelo contrário! O tal escândalo obedeceu com rigor as “regras” da estrutura seqüencial de um escândalo midiático.

Além de toda especulação que envolve estes escândalos e que os deixam imprevisíveis quando acompanhados diariamente, no calor dos acontecimentos e denúncias, podemos notar várias semelhanças quando observados em retrospectiva.

O sociólogo inglês John B. Thompson observou bem o fenômeno e produziu um ótimo trabalho que deveria chegar ao conhecimento de todos: “o escândalo político – poder e visibilidade na era da mídia”. Thompson destaca a importância da mídia em tais eventos chamando a atenção para os aspectos espaço-temporais que envolve sua ação, já observados por ele em outros trabalhos, como exemplo “a mídia e a modernidade”.

Nas sociedades modernas, quando um ato ilícito é noticiado ele rapidamente chega a diferentes contextos. Esta característica faz com que o (ou os) sujeito(s) a quem se refere a notícia perca o controle da situação e fique, assim, muito mais complicado articular uma rápida reação, quer seja a denúncia justa ou não.

Como estes fatos são invariavelmente veiculados pela mídia, é necessário também observar o comportamento desta para avaliarmos o fato em questão.

Desde que houve a profissionalização do jornalista, no século XIX, a mídia ganhou uma certa autonomia dos partidos, pois não são mais sustentados por estes, e passou a atuar como agente na criação e desenvolvimento dos escândalos. Os motivos são seus próprios motivos e, com isso, ela leva vantagem na relação aqui tratada já que ela é o meio de informação e formação de opinião da sociedade e ao mesmo tempo o canal de expressão dos partidos e políticos. Segundo Thompson, esses motivos podem ser lucros financeiros, objetivos políticos, autoconcepções profissionais ou rivalidades competitivas. Dentre estas, algumas são mais exceções que regras.

Os meios de comunicação, no Brasil, passaram por dificuldades financeiras em 2003. Os jornais vêm sofrendo forte queda nas vendas por conta, entre outras coisas, das novas fontes de informação, como a Internet. Portanto, o interesse da mídia nestes episódios que acompanhamos aos montes no Brasil me parece ter a ver com os interesses da mídia como empresa – financeiros – e não políticos-ideológicos como muitos teimam em afirmar. No entanto, a diferença aqui colocada é bastante tênue, confundindo-se em várias situações pois, por conta de um interesse empresarial, a mídia pode interferir na vida política e o que me permite visualizar esta delicada diferença é que ela não se prende, sempre, em uma única ideologia política.

Esta vantagem que tem a mídia se deve ao caráter da confiabilidade em nossos dias, ao valor da reputação, já que com a flexibilização das classes sociais a partir da década de 1970 observou-se uma valorização da reputação - capital simbólico - envolvida nas relações sociais e, principalmente, sociais, tanto para mídia como para os políticos.

No Brasil, onde há uma sociedade marcada historicamente por esta legitimidade da hierarquia nas relações sociais, isto nos aparece claramente. Aqui, os escândalos políticos, sendo uma forma de esvaziamento do campo simbólico, causam muita repercussão. Ou seja, a presença de uma grande personalidade da política num depoimento, sendo obrigado a se esclarecer, já constitui motivo suficiente para uma punição moral e perda de reputação, ainda que não haja provas suficientes.

É bom estar atento para as noticias. Sabe o que ocorre, informar-se a respeito dos assuntos de interesse da nossa sociedade é realmente muito importante. Tão importante também, é saber sobre os meios que nos fornecem tais informações. Isto é muito útil para a compreensão dos fatos e para formação de opiniões mais próximas à realidade.

Sugestões:
CANUTO, Júlio, O Escandalo do Mensalão - denúncia e evolução do escândalo pela Folha de S.Paulo, no sítio Recanto das Letras.

DAMATTA, Roberto, Carnavais, Malandros e Heróis, Rio de Janeiro, Editora Guanabara, 1990.

THOMPSON, John B. , O Escândalo Político: poder e visibilidade na era da mídia, Petrópolis, Editora Vozes, 2002.
_______________ , A mídia e a modernidade – uma teoria social da mídia, Petrópolis, Editora Vozes, 2003.

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