quarta-feira, 22 de março de 2006

A Caverna e a Academia

Por Leonardo André
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Qualquer pensamento que se pretenda dominante pode ser comparado a escuridão da caverna, do mito descrito por Platão. Impor uma única forma de entender o mundo é o mesmo que manter as pessoas acorrentadas de frente a parede, possi-bilitando que elas enxerguem apenas as sombras projetadas a partir das pessoas e objetos que passam diante da porta da caverna, entre os raios de luz solar.
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Hoje, a masmorra do pensamento é o consumismo que aprisiona corações e mentes em todas as camadas sociais. Muita gente está enxergando apenas as sombras da realidade. Em outras palavras, pode-se dizer que a sombra é ignorância quanto às infinitas possibilidades que o conhecimento pode oferecer. Segundo o mito da caverna, se ocorresse de alguém conseguir libertar-se e correr pra fora, num primeiro momento sentiria o incomodo de anos de total imobilidade e a cegueira provocada pela claridade repentina. Mas ao se acostumar com a luz, o sujeito enxergaria os homens e os objetos dos quais só podia ver as sombras e, assim, entendê-los melhor.
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Sou levado a crer, então, que atualmente o ser humano, mergulhado na escuridão, está supervalorizando bens materiais em detrimento de uma vida digna, consigo mesmo e com os demais, colocando de lado princípios como amizade e honestidade em nome dessa busca insana por dinheiro e felicidades tecnológicas. O consumo não é o único caminho para a felicidade!
Ao voltar pra caverna e relatar as alternativas possíveis lá fora, muitos dos prisioneiros ingenuamente execrariam e não dariam ouvidos às boas novas. Outros até tentariam deter tal informação através de violência ou censura.

Mas aqueles que se livraram das correntes não devem desistir. A pergunta que não quer calar: a Academia não deveria indicar os caminhos que levam até a porta?

Nas palavras de Gabriel Cohn na Folha de São Paulo, “Está em causa o modo de inserção da universidade na sociedade. E isso na sua versão mais radical, que pode ser expressa nos seguintes termos: a universidade ainda não logrou ser vista pelo conjunto da sociedade como algo seu, como uma instituição da sociedade.” (...) “A universidade – pelo menos a universidade pública, que é decisiva sob todos os aspectos – completará o seu problemático trajeto de inserção na sociedade e receberá dela o reconhecimento correspondente quando souber exercer e proclamar sua autonomia nesses termos. Nem empresarial simplesmente nem meramente edificante, muito menos beneficente: mas produtora de conhecimento ao qual ninguém terá acesso sem ela e formadora dos cidadãos que saberão usá-lo publicamente. Nisso consiste sua outra face, não sombria, mas radiante”.
Enquanto os acadêmicos ainda estiverem com a visão ofuscada pela claridade, não conseguirão conduzir os demais à liberdade e, assim, não cumpriram sua finalidade...
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sobre o mito da caverna:
a matéria de Gabriel Cohn:
ilustração:
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