domingo, 2 de abril de 2006

notícias do Rio... (e do Brasil)

...a conversa que segue é real...

- E aí, leandro, tudo bem contigo?

- Opa!

- É difícil estar nestes tempos, né? Meu, estive vendo as notícias do Rio de Janeiro, a ocupação dos morros pelo exército. O Léo disse que aquilo era uma guerra civil, que a imprensa não fala assim mas que era... concordei, pensei em escrever algo, mas vendo aquela complexidade, desisti... Pensei em ti. Como que você vê, sente e vive isso, morando aí? Claro que aqui em Sampa as coisas também acontecem, apenas que de forma diferente até mesmo por conta da geografia...

- Guerra Civil: rapaz, isso aqui, penso eu, não chega a ser uma guerra civil. Isto é, se considerarmos guerra civil como um estado de desordem em que pessoas lutam para mudar o que lhes é imposto. O foco em uma guerra civil é a mudança, aqui isso não ocorre. Há uma subcultura do tráfico, difundida principalmente através do Funk, mas não o funk sexual, são os "proibidões".( não sei se tu já ouviu falar) Nas letras destes funks há uma exaltação do cotidiano dos traficantes. As crianças crescem idolatrando-os. Não pensam em uma mudança coletiva, como na guerra civil, apenas querem poder ter acesso aos bens da classe média, que lhes chega através da TV e em seus passeios pelo "asfalto", e poderem cuidar de suas famílias. É isso.

- To te perguntando isso porque to lendo um livro pra fazer uma resenha, pro mês que vem, chama-se: “Os bestializados - o Rio de Janeiro e a República que não foi”, do José Murilo de Carvalho, dá uma olhada. Tem um trecho no primeiro capítulo onde o autor fala da cidade do Rio nos primeiros anos da república, que diz: "a cidade não era uma comunidade no sentido político, não havia o sentimento de pertencer a uma entidade coletiva. A participação que existia era antes de natureza religiosa e social e era fragmentada." Daí ele passa a falar dos cortiços, e cita Aluísio de Azevedo, autor que lança a expressão "república de cortiço", no sentido de que fora do aparato oficial, por exclusão, estes cortiços desenvolveram regras próprias, formando pequenas repúblicas. Daí vem um trecho que me chamou a atenção: "Ali (no cortiço) se trabalhava, se divertia, se festejava, se fornicava e, principalmente, se falava da vida alheia e se brigava. Porém, à menor ameaça vinda de fora, todos esqueciam as brigas internas e cerravam fileiras contra o inimigo externo. Este inimigo era outro cortiço e, principalmente, a polícia. Frente a polícia, dono e moradores se uniam, pois estava em jogo a soberania e a honra da pequena república. Cortiço em que entrava polícia era cortiço desmoralizado. É profundamente irônico e significativo que a república popular do cortiço se julgava violada, derrotada, quando lá entrava o representante da república oficial". Significativo o trecho, não? A República mudou, os cortiços e os morros também.... Ambas organizações sociais se tornaram mais complexas...

- Júlio, escrevi um pequeno texto sobre o assunto, chama-se "Fragilidades em tempos de Fortalezas". Não está um primor, mas tem algumas informações que, apesar de nós já estarmos cansados de saber, é sempre bom estar relembrando.

- Pô, legal... vou ler agora mesmo!

- Cara, espero ter contribuido em alguma coisa. Um abraço!

- Abraço...

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