sexta-feira, 27 de julho de 2007

sobre o vandalismo

"(...) Vandalismo é uma violação intencional, a desfiguração de algo considerado valioso pelos outros. Mas sabemos, também, que pode ser uma forma de expressão. (...) Vandalismo é um tipo de parasitismo nascido na essência da civilização ocidental.
Em nossa cultura atual somos triturados, manipulados pela tecnologia e por interesses comerciais. Marketeiros de plantão colocam sentido no vestir de roupas, carros, móveis e até mesmo na comida nós escolhemos nossos significados através dos produtos, simultaneamente criando e erradicando nossa noção de nós mesmos. Somos projetos comerciais. Somos hospedeiros e a cultura da comodidade é o nosso parasita. Somos objetos vandalizados – tortos, deformados, cobertos de marcas que não podemos honestamente dizer que escolhemos por vontade própria. Sugados da comunidade e humanidade, somos levados a acreditar que dependemos do nosso parasita para nossa identidade. O que conhecemos como “vandalismo” é na verdade a rejeição da dependência do consumo. O vândalo mina o sentido comercial. A cultura do consumo cria um lodo sobre nós e é vulnerável em suas próprias raízes rasas. Ela teme toda a reflexão. Cidadãos vivendo dentro dela em estado permanente de evasão pessoal, evitando a contemplação pelo medo de confrontar a realidade da completa falta de sentido em que vivemos ou, pior, a desvantagem competitiva e exclusão social. Vandalismo é uma expressão dessa psicologia de fuga e a compreensão de que a existência se tornou uma atividade criminosa. Vandalismo é arte quando a arte não pode mais resgatar o sentido do absurdo esmagador das condições materiais atuais. Numa sociedade que valoriza o mito da total escolha, a escolha mais crucial se tornou criminosa: a habilidade de criar novos sentidos. O ponto onde o mito e a realidade se encontram é na intersecção da política e arte, na ameaça do vândalo, no agitador cultural, no anarquista."
Esse é um trecho de um texto publicado algum tempo atrás na revista Trip. É baseado em um ensaio filosófico de Andrew Stillman e publicado na revista Adbusters, na primavera de 2000. Esse ensaio trata do episódio ocorrido em 30 de novembro de 1999, quando dezenas de milhares de manifestantes fecharam a Organização Mundial do Comércio e criaram um estado de emergência na periferia de Seattle, EUA. Trata-se de uma ato contra o costume consumista. (Um bom texto sobre esse assunto você pode ler aqui).

O fato é que, o consumo precisa ser percebido como a contribuição de cada um de nós para a manutenção do sistema capitalista, opressor e excludente por essência. O consumismo desvia a atenção de assuntos mais relevantes - uma espécie de sublimação necrófila em que a pessoa renega a si para buscar, na posse de bens materiais, o sentido para sua vida. Enquanto as pessoas pensam em consumir, deixam de refletir sobre sua própria existência enquanto cidadãs e, principalmente, enquanto seres humanos.

Viagem minha? Romantismo? Talvez... O problema é que, enquanto isso, os donos do poder (entendendo-os como o fruto da simbiose entre as elites política e econômica) continuam se refestelando no estamento brasileiro.

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2 comentários:

Cibele disse...

Achei o texto interessante, mas cuidado para não fazer uma generalização burra quando se diz que as pessoas não criam sentido, apenas consomem.

nóis! disse...

Cibele, é exatamente o sentido criado pelo consumidor ao consumir q está sendo questionado. Mas d qquer forma, tomaremos cuidado com as generalizações burras!