segunda-feira, 16 de abril de 2007

O capital ataca...

...e o Operador de Telemarketing está na linha de frente



O telefone toca; o sujeito atende. Imagina estar recebendo a ligação de um robô. Do outro lado, ao invés dum robô, um ser humano. Mas bem que poderia ser uma fita cassete repetindo mensagens, feito uma secretária eletrônica ativa, que quer vender algum produto, algum bem ou algum serviço. “Boa-tarde, Sr. Fulano, meu nome é Sicrano, tudo bem? O motivo do meu contato é para informar que encontra-se disponível um novo cartão de crédito em seu nome...” Quem nunca passou por essa situação provavelmente não deve ter um telefone, nem fixo nem móvel.

Mas, acalme-se! Pior que a sua situação, é a de quem está do outro lado da linha: o operador de telemarketing ou o teleoperador. É bom saber que, normalmente, esses trabalhadores devem cumprir uma meta sobre-humana de vendas em um período de 6 horas quase ininterruptas. Durante esse período, eles têm o direito a apenas 15 minutos de descanso para um lanche. Há quem diga que algumas empresas estendem o horário de trabalho para 6 horas e 15 minutos para compensar o tempo perdido.

Em matéria para a revista Piauí de outubro do ano passado, Vanessa Bárbara nos traz com detalhes um cenário que diversas organizações sindicais do exterior denominam como “senzalas da era eletrônica”. Patologias osteomusculares, distúrbios mentais e alterações do aparelho de fonação são algumas conseqüências para a saúde daqueles que se submetem a sobrecarga tanto emocional quanto físicas de uma categoria que, segundo informa a matéria, tem um piso salarial de R$510,00. (O site do sindicato da categoria –
Sintratel – informa que recentemente foi estabelecido reajuste salarial de 3,34%, elevando o piso salarial dos operadores comissionados para R$ 527,98 e dos operadores não-comissionados para R$ 577,28 com o vale-refeição de R$ 8, uma antiga reivindicação). Aliás, o site do Sintratel informa, também, que uma de suas prioridades é, exatamente, organizar grupos de estudo sobre doenças profissionais, além de estimular tal discussão em conjunto com categorias com grande incidência de enfermidade e com a CUT, buscando fazer parcerias com organizações médicas e científicas para o debate da questão. Ainda segundo o site, o sindicato oferece apoio no encaminhamento clínico e jurídico aos trabalhadores e realiza seminários sobre a Saúde do Trabalhador.

Com 630 mil operadores empregados, segundo a matéria de Vanessa Bárbara(*), o telemarketing é o setor da economia que mais contrata hoje no Brasil. Ele surge como a saída para muitas pessoas que, por diversos motivos, não conseguem oportunidades melhores. Segundo estudos de Ruy Braga(**),
“...as Centrais de Tele-Atendimento correspondem a um segmento empresarial composto predominantemente por atividades de baixo valor agregado e que atraem uma força de trabalho pouco qualificada e formada basicamente por estudantes.”
Segundo esse mesmo trabalho,
“Do ponto de vista das características gerais do trabalho dos operadores ocupados em CTAs, é possível realçar que: (a) as operações de teleatividades são realizadas 24 horas por dia, sete dias por semana – conseqüentemente, as CTAs exigem uma forte disponibilidade dos trabalhadores; (b) na medida em que essa disponibilidade se encontra associada a condições difíceis de trabalho, temos como resultado uma forte intermitência; (c) o trabalho submete-se agudamente ao fluxo informacional: ao final de uma chamada, sucede a seguinte, seja automaticamente (em intervalos de 0 a 20 segundos, dependendo do tipo de operação), seja manualmente, após um máximo de dois ou três sonidos.”
Lendo a matéria de Vanessa Bárbara e o estudo de Ruy Braga, veio-me a lembrança o romance “Germinal” de Émile Zola, que fala da exploração por parte dos patrões sobre os trabalhadores das minas de carvão franceses no século XIX. É claro que a história contada nessa obra refere-se a casos extremos, nos quais homens, mulheres e crianças trabalhavam em condições impróprias, com jornadas de até 16 horas, sujeitos a diversos problemas de saúde e correndo o risco de perderem partes do corpo ou até mesmo a vida. Entretanto, mesmo depois de quase dois séculos, e de tantas revoluções sociais e tecnológicas, vemos que as pessoas ainda não podem parar de lutar por melhores condições de trabalho.

Contudo, o que mais incomoda nessa história está no motivo pelo qual esse serviço tem crescido tanto. O fato é que essas centrais de telemarketing se especializaram em vender produtos que as pessoas, muitas vezes, não estão interessadas e, para tanto, contam com o vacilo de quem está do outro lado da linha, ocupado com o próprio trabalho. O problema é quando, após ser fisgado, resolve o consumidor voltar atrás e desfazer o negócio. Tenha certeza que a partir daí desenrola-se um verdadeiro martírio. O serviço de telemarketing é uma espécie de linha de frente das empresas na busca pelo lucro, formado por um batalhão de trabalhadores treinados para vender sem se importar com os impropérios e ofensas que por ventura terão que aturar. Com a palavra, Ruy Braga:
“Com a taylorização do campo da relação de serviço e a decorrente automatização do trabalho do teleoperador, os ganhos de produtividade são alcançados à custa de um acentuado aumento da fadiga física, da postura automatizada, dos contratos de trabalho em tempo parcial, do desinteresse pela função, da vertigem oriunda da multiplicidade das chamadas, das Lesões por Esforço Repetitivo (LERs) etc.” aqui].

(**) BRAGA, Ruy. "Uma sociologia da condição proletária contemporânea". Tempo soc. 2006, vol. 18 [online]. Leia o trabalho na íntegra [
aqui].

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Por isso, durante essas situações, tão características da vida moderna, evite mandar seu interlocutor pro inferno, pois como você deve ter percebido, ele já está lá.
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Referências:

(*) BÁRBARA, Vanessa. "Bom dia, meu nome é Sheila: Como trabalhar em telemarketing e ganhar um vale-coxinha". Revista Piauí, out/2006 [online]. Leia a matéria na íntegra [

Um comentário:

Anônimo disse...

A definição de Senzala é perfeita, pois aproveitam da falta de experiência e conhecimento dos direitos como seres humanos e os conduzem a se conformarem com uma condição ridicula, onde se submetem a executar tarefas arduas em trocas imposições, como: Voce não receberá o tempo de treinamento, será admitido somente após o decimo dia últil trabalhado, somente receberá duas conduções por dia mesmo que necessite de mais, e o primeiro pagamento sé será efetuado após 45 dias de trabalho. Onde está nosso Ministério do Trabalho que fecha os olhos para esta escravidão escancarada.