quinta-feira, 26 de abril de 2007

O que é ser de esquerda?

Esta pergunta, feita pela revista Caros Amigos a 36 pensadores e militantes de diversas áreas de atividade (Igreja, Política, Universidade, Propaganda, Imprensa, Empresariado, Sindicatos, Judiciário, Movimentos Sociais e Arte), foi publicada neste mês de abril e vale a pena ser lida.

Na minha opinião, entre acadêmicos, magistrados, políticos etc..., a melhor resposta foi a de Helena Silvestre, coordenadora estadual do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto – MTST, que mostrou ótima consciência da realidade, sabendo enxergar a relação de problemas específicos com a estrutura política do país. Abaixo, reproduzo a resposta como foi publicada na Caros Amigos, ano XI, número 121, abril 2007 (grifos nossos):

Helena Silvestre
COORDENADORA ESTADUAL DO MOVIMENTO DOS
TRABALHADORES SEM TETO – MTST

O que eu acho é parecido com aquilo que o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto acha: a gente tem uma sociedade que não comporta a gente. E aí ser de esquerda é compreender isso, e também que é possível construir uma sociedade diferente, onde caibam todas as pessoas. A gente não sabe muito bem o que é essa outra sociedade, mas a gente sabe o que ela não é. A gente não quer a concentração de todas as riquezas, desde a inteligência até aquilo que o homem consegue construir quando intervém na natureza. Essa concentração é fatal: se um lado tem mais, o outro tem menos. Eu sou do ABC (região metropolitana de São Paulo) e ali o PT nasceu de um modo muito interessante, uma experiência única de partido. Conseguia juntar quadros, organizações populares, sindicais, conseguia, enfim, representar todos do povo pobre. Mas colocou a disputa pelo poder do Estado acima da organização popular. Optou por ganhar as eleições mesmo à custa de se afastar do povo. O Lula agora diz que ministro ganha pouco, 7.000 reais. Para quem ganha 350 reais, ouvir isso é uma ofensa muito grande! O Tarso Genro [ex-presidente do PT, atual ministro da Justiça] fala na televisão: “Ah, o PT não é um partido que quer transformação profunda, o PT é um partido reformista”. Então faz um governo em que cabem todos os partidos, dos mais reacionários aos de aluguel. Cabe todo mundo, só não cabe o povo. Agora, qual é a alternativa de esquerda? A organização popular. As instituições protegem o que está dado, não querem transformar. E conservar o que existe, para o pobre, é conservar o abismo a dois passos da gente. Antes você tinha um monte de gente na fábrica, vivendo condições de vida muito semelhantes e com questões muito claras: nós somos o chão de fábrica, ele é o patrão. Essa era a identidade de classe, que alguns chamam de identidade coletiva. Com o desemprego crescente, perdeu-se o que era fundamental nessa identidade. Hoje, quem a gente chama de classe trabalhadora? O camelô que vende cachorro-quente, o cara que é da Toyota ou o maluco que opera a bolsa de valores? Entre um e outro tem uma distância muito grande e essas pessoas estão fora do espaço onde tradicionalmente se organiza o povo: os sindicatos. Os movimentos são uma resposta a isso. Eu gostaria de ver um mundo onde o cara que planta batata possa fazer música, pintar quadros, mexer no computador, fazer o jornal. E que trabalhe para viver, não viva para trabalhar.

3 comentários:

Carlos Serra disse...

Atribuí-vos um prémio, visitem o meu blogue.

Vives disse...

Meu caro, eu não conhecia o médico que você citou no meu blog não. Sensacional!
Quanto a este post, concordo plenamente com a mulher. Querer mudar o que está errado e lutar contra quem quer conservar o abismo. Eu votaria nela.
Abração.

chapa100 disse...

um comentario fantastico e de uma pessoa que tem uma base intelectual da luta por uma sociedade melhor.