terça-feira, 22 de maio de 2007

Comprar é o sentido único?

Tendo em vista que o manto do capitalismo cobre quase a totalidade das relações sociais, vejamos o seguinte ciclo:

Pra fazer parte do mundo do consumo é necessário dinheiro. Pra ter dinheiro é preciso trabalhar. Se não tem trabalho, não tem dinheiro e, se não tem dinheiro, não se pode consumir. Então a gente trabalha pra ganhar dinheiro pra poder consumir. Se o salário é baixo, não dá pra consumir tudo o que se deseja. Daí arruma mais um trabalho. A gente trabalha, trabalha, trabalha e sempre falta dinheiro. De tanto trabalhar, a gente não tem tempo pra fazer outras coisas mais produtivas (pra nós mesmos), como ir ao cinema, ao teatro, conversar com os vizinhos ou passear com os filhos. Dessa forma, nos tornamos solitários, pois nossas relações são, na maioria das vezes, superficiais, como as que costumam se desenrolar nos locais de trabalho. A vida vai perdendo o sentido e se tornando vazia. Muita gente recorre ao consumo acreditando que isto pode distrair um pouco a cabeça, afinal a vida não é muito agradável quando se resume a sair de casa para trabalhar e voltar para casa para dormir. Essa é uma das táticas que visam anestesiar as sensações de solidão e falta de sentido que, em outros tempos, foram preenchidos pela Religião, por exemplo. Em outros casos, ainda, o consumo serve como uma espécie de compensação pela falta de atenção para com os nossos ou pelo modo agressivo resultante da vida estressante com que os tratamos. É o típico caso de presentear para tirar peso da consciência...

Assim, como o capitalismo competitivista tem por característica tornar as pessoas mais individualistas, a luta contra o capitalismo também deve focar a individualidade; a ação individual consciente da existência do outro e do [meio ambiente] que nos envolve. Como sabemos, o sistema capitalista é sustentado pelo consumo, seja de bens ou de serviços nem sempre (quase nunca) realmente necessários. Por isso, é importante que o indivíduo tome consciência de que seus próprios [
hábitos] podem [escravizá-lo]. Se por um lado há uma extraordinária ofensiva publicitária para que as pessoas comprem cada vez mais, por outro, deve haver a resistência à esse tipo de ataque. Não consumir é uma forma de o indivíduo lutar contra um sistema que, apesar da aparência da liberdade (de produzir e de consumir), torna as pessoas reféns de necessidades supérfluas. Ora, se ao invés do cidadão desfavorecido pelo sistema mérito e/ou plutocrático capitalista deixasse de lutar para poder consumir bens tais como automóveis que custam o olho-da-cara, televisores não-sei-quantas-polegadas, celulares-com-câmeras-e-sei-lá-mais-o-que, tênis-e-roupas-de-marca; se deixasse de comer em redes multinacionais de fast-food dando preferência aos lanches do Sr. Manuel da padaria do seu bairro que emprega alguns de seus próprios vizinhos; se trocasse o refri pelo suco de frutas produzidas por trabalhadores rurais, e direcionasse sua energia para a conquista de redes de esgoto, melhores condições de transporte, de ensino, de sistema de saúde etc., talvez verificaríamos dois prováveis resultados, quais sejam, o fortalecimento da auto-estima de quem participa de uma luta que beneficia aos seus iguais e um ataque direto às grandes empresas que lucram com o sonho de consumo, principalmente dessa população que está começando a entrar na armadilha do crediário.

Em suma, seria necessário incentivar novos hábitos e estilos de vida que fujam das armadilhas do mercado.

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Mais sobre consumismo, leia:
- BOFF, Leonardo - “O palhaço de Kierkegaard e a crise climática” - em ADITAL
- SANTAMARTA, José - “Consumo sin cabeza” - em Consume Hasta Morir
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