segunda-feira, 14 de maio de 2007

Virada Cultural 2007

Educação e Cultura devem ser a base de toda sociedade. É à partir delas que formamos cidadãos críticos e livres de preconceitos, uma vez incentivados para a observação das variadas formas de manifestação cultural e formas de pensar que integram a sociedade. Mas para ser a base, esses aspectos essenciais devem ter qualidade e estar disponíveis para toda a sociedade. A nossa Educação vai mal, mas nossa Cultura sempre foi o maior exemplo da criatividade e originalidade do povo brasileiro. Neste sentido, a Prefeitura de São Paulo acertou ao promover a Virada Cultural, evento que ocorre uma vez por ano e que consiste na realização de atividades culturais gratuitas, durante 24 horas ininterruptas em vários pontos da cidade – e principalmente no centro. Este ano, em sua 3a. edição nos dias 5 e 6 de maio, a Virada trouxe mais de 300 atrações em cerca de 80 pontos da cidade, incluindo os bairros da periferia e os CEUs – Centros Educacionais Unificados – reunindo mais de 3 milhões de pessoas.

É claro que ainda deve melhorar. Atividades como esta devem ocorrer várias vezes ao ano e, além disso, o acesso a cultura deve acontecer a todo o
momento. Também as atrações devem aumentar em estilos. Por enquanto apresenta-se teatro, dança, balé e, principalmente, música. Sabemos que nossa cultura é muito mais que estas formas de manifestações, e bem que poderíamos ter também poesia, artes plásticas etc, etc... Mas é louvável o fato de você passar pelo Teatro Municipal e ver João Bosco, andar mais um pouco e ver a apresentação de um grupo carioca numa exibição performática de música e teatro, andar mais um pouco e ver a Nação Zumbi e o rap dos Racionais Mc’s na Praça da Sé, a Grooveria Eletroacústica com Ed Motta na São João, o músico cubano Fernando Ferrer na Vieira de Carvalho, as bandas clássicas do rock nacional na Barão de Itapetininga, o jazz na Praça Dom José Gaspar, o Jamac com oficinas de gravura e estêncil no Centro Cultual da Vergueiro, o samba na periferia com Leci Brandão e Arlindo Cruz em Guaianazes, os experimentos de Tom Zé e Naná Vasconcelos nos CEUs Vila Atlântica, Aricanduva e Parque Veredas e outros inúmeros artistas, menos conhecidos mas tão bons e originais quanto os citados.

Mas nem tudo são flores, e assim como havia um ótimo clima para aproveitar as atrações, houve também uma confusão, levada ao extremo pela mídia (como pode ser visto nos elos abaixo) que em muitos casos preferiu noticiá-la, deixando de lado a grandiosidade do evento ao proporcionar tantas atrações em tantos lugares.

A confusão ocorrida envolvendo polícia e o público que assistia a apresentação dos Racionais MC’s na Praça da Sé, possibilita algumas reflexões. A princípio nada justifica tamanha demonstração de ignorância. Aqueles que são fãs de Mano Brown, Edy Rock, Ice Blue e Kl Jay sabem que
qualquer motivo serve pra despertar a fúria da polícia e da “opinião pública” (entenda-se a grande mídia e os setores mais conservadores da burguesia tupiniquim) contra o grupo de RAP, e que por isso devem evitar qualquer atitude que deslegitime seus ídolos e porta-vozes. A Polícia, por outro lado, deveria estar preparada para entender que muitos fãs não compreendem o verdadeiro sentido das letras do grupo. Compreender a mensagem das músicas já seria um bom início. Não quero com isso dizer que todos deveriam apreciar tal estilo musical, mas criticar sem conhecer não passa de falta de respeito e, como todos sabem, respeito cabe em qualquer lugar. O fato é que, o que seria uma oportunidade de convívio entre as diferenças resultou numa grande demonstração de intolerância. Acusações mútuas não resolvem nada e escancaram o que há muito já é possível detectar: a sociedade está cada dia mais doente. Vale lembrar que a sociedade é formada pela totalidade daqueles que a integram e, se algo está errado, a culpa não pode ser atribuída à apenas uma de suas partes. Não há como extirpar o mal através da violência; qualquer solução nesse sentido pode ser considerada um ato tirânico. Infelizmente não há soluções práticas nem simples. Uma coisa é certa, sem um verdadeiro esforço de toda a sociedade, sem a iniciativa e a criatividade de cada indivíduo, a tendência é só piorar. A prefeitura, por incrível que pareça, pelo menos nesse sentido, está tentando fazer sua parte; cabe a nós aproveitar a oportunidade e até colaborar pela manutenção dessa brecha.

Educação e Cultura mostram-se, mais uma vez, como aspectos essenciais da sociedade.




Veja algumas matérias sobre a Virada:

- Folha Online, "Virada Cultural anima noite de sábado em São Paulo"
- Centro de Mídia Independente, “PM-SP dá show de cassetetes e tiros na Virada cultural
- Panóptico, “Para a polícia população não tem direito à cidade
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Imagens: site da Virada Cultural
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