quarta-feira, 16 de maio de 2007

rapaz comum

- Uma cerveja...
.
- Qual?
.
- A mais gelada.
.
Enquanto pensava, bebia. Pensava bastante. Bebia bastante. Mais um dia de trabalho, nada especial. Cumprira a rotina tal qual uma máquina. Sentia-se uma peça. Sua função não exigia muito. Precisava prestar atenção para conferir o material e a nota fiscal. A qualquer momento poderia ser substituído. Qualquer um poderia substituí-lo facilmente nos afazeres da Expedição.
Pensava em tudo isso e bebia. Pensava em sua vida vazia.
.
Um amigo senta-se ao lado.
.
- Muito trabalho?
.
- Tiro de letra.
.
- Imagino... Quantas dessa já tomou até agora?
.
- Essa é a primeira.
.
- Essa hora?
.
- Fiquei trabalhando até mais tarde
.
- Que merda!
.
- Nem me fale...
.
Mais dois amigos, mais umas cervejas. Quase todos os dias são iguais.
.
- E esse aqui ontem, ficaram sabendo?
.
- Não...
.
- O que o babaca aprontou dessa vez?
.
- Pra variar, bebeu tudo que tinha pela frente no boteco perto da Faculdade. Ajoelhou na calçada, depois caiu de cara no chão.
.
- Por isso essa marca na testa?
.
- É... Sem contar a chuva. Sem noção.
.
Ouvia histórias. Contava histórias. Quase sempre sobre bebedeiras. Também as de sacanagens, as brigas. Nunca faltava o futebol. As confusões no estádio. Os baseados. O pó.
.
Era quase sempre assim.
.
- Dá um cigarro.
.
- Sua vez de jogar.
.
- Empresta o isqueiro.
.
- Vai logo, é sua vez.
.
- Calma.
.
- Você é folgado igual aquele alemão do Big Brother, manja?
.
- Vai se foder, não assisto essa bosta.
.
- Lógico, você não tem uma namorada. Então joga logo.
.
Cervejas, cigarros, bilhar. Estádio. Trabalho, encheção de saco no trabalho. Casos no trabalho. Vontade de pedir as contas quase diariamente. O aluguel do apartamento pra pagar.
.
Algumas festas. Algumas baladas. Alguns amigos. Algumas mulheres.
.
Papo furado.
.
Igrejas só em casamentos. Aliás, semana passada foi padrinho de um amigo de infância, que resolveu casar depois de engravidar a donzela.
.
Só visitava médicos em caso de vida ou morte. Odiava-os.
.
Também não tinha simpatia por advogados. Apesar de ter alguns amigos advogados dos quais ele até gostava.
.
Sempre votava nulo.
.
Nos últimos tempos andava indiferente ao que acontecia ao redor. Então conheceu uma mulher. Mulher interessante. Interessante e gostosa. Não a conhecia muito bem e sentia que ela lhe escondia algo. Certa vez falou sobre um ex-marido. Parece que o cara ainda não a tinha esquecido e estava na ilha, trancado. Quis não se importar com esse fato, mas ficou meio depressivo. Não quis mais vê-la.
.
Ontem pela manhã a polícia encontrou o corpo dele boiando no Tietê. Ninguém sabe o que aconteceu.

Nenhum comentário: