segunda-feira, 7 de maio de 2007

Tocar nas Raízes

Continuando a discussão sobre as condições do trabalho hoje e, mais especificamente, sobre as empresas de telemarketing, citamos duas matérias que tratam do assunto e que foram veiculadas na revista Caros Amigos, nos meses de março e abril (nº 120 e 121).

A escritora Marilene Felinto publicou artigo intitulado “crime e telemarketing” (Caros Amigos. nº 121), onde começa objetiva e arrasadora: “é para o crime e para o telemarketing que mais se perdem jovens (para não citar a gravidez como outro motivo, para não associar nascimento de vida com delito e exploração) – jovens das classes baixas”. Mais adiante ela explica o que significa “perder-se”: “sair do rumo mesmo, abandonar os projetos a que estavam envolvidos e dos quais tinham algum apoio para continuar os estudos e cavar um lugar menos pior do que o subemprego”. Aí está a síntese do que vínhamos falando nas duas postagens anteriores que trataram do tema - [O Capital Ataca] e [As entrelinhas do Plano (sur)Real]. Além disso, procuramos explicar de forma simples como isto se deu no Brasil e as conseqüências.

Para fecharmos aqui a discussão – mas, claro, com a intenção de servir de subsídio para novas ações desta nova grande classe – voltamos ao que foi dito na primeira postagem: “mesmo com tantas revoluções sociais e tecnológicas, as pessoas não podem parar de lutar por melhores condições de trabalho”. Mas como lutar? Para isso, recorremos ao sociólogo Ricardo Antunes, um dos maiores especialistas brasileiros no estudo das mudanças no mundo do trabalho. Em entrevista a Juliana Sassi (Caros Amigos. nº 120), ele fala o que é essa nova morfologia do trabalho:

“se no passado o operariado taylorista/fordista era dominante – vamos pensar no operário da indústria metalúrgica, de macacão, montando os automóveis –, hoje você tem os trabalhadores do telemarketing com 70%, 80% da classe trabalhadora feminina, os trabalhadores dos supermercados, ou seja, uma ampliação dos setores industriais nas periferias: as grandes empresas do EUA estão no México pagando vinte vezes menos à classe trabalhadora mexicana, saem dos EUA e da Europa e vão pra Ásia, montadoras saem do Brasil e vão para a China. Essa mudança reconfigura uma nova classe trabalhadora, mais heterogênea, mais diferenciada, masculina em alguns setores, feminina em outros – em muitos países do mundo, ela já é mais feminina e altamente informatizada. A indústria de calçados, por exemplo, em quase 70 por cento das áreas que estudamos – Americana, Grande Campinas, e Estado de Santa Catarina –, se tornou terceirizada. Então qual é o futuro? Eu diria que, se a lógica do sistema global do capital se mantiver, vamos ter o mundo do trabalho mais ou menos assim: no topo haverá um núcleo pequeno, bastante sofisticado, bem remunerado, porém altamente instável, pode estar trabalhando hoje na Volkswagen, amanhã ir para a Índia, voltar pra Argentina e depois pra Rússia, são os, digamos assim, assalariados altamente qualificados. Não são os proprietários dos meios de produção, é a alta fatia assalariada, mas com muita instabilidade e perdendo o emprego muito facilmente. Um gerente de banco pode perder o emprego com 40 anos e aí não encontra mais emprego, esse é o topo dos assalariados. Na base, um desemprego e uma precarização estrutural profunda. E os índices de desemprego reais no mundo já são altos, muito maiores do que os dados divulgados (...) Então, na base um desemprego muito ampliado, e no meio do mundo do trabalho uma massa ampla realizando trabalhos precários, caindo cada vez mais na informalidade, trabalhando muito mais e recebendo menos e sem nenhuma estabilidade – aquela relação contratada tayloriana/fordizada que marcou a industrialização do século 20 está em processo de erosão, os capitais querem uma classe trabalhadora supérflua que possa oscilar entre a sua condição de perenidade”.

Sobre as formas de organização, Ricardo Antunes fala que existem várias, desde os sindicatos – que deve buscar alternativas para incluir cada vez mais as mulheres, os terceirizados, a organização dos jovens etc –, passando pelos Movimentos Sociais até formas inovadoras:

“temos que entender que não há hierarquia nas lutas sociais, há uma nova morfologia do trabalho, e frente a essa nova morfologia do trabalho existem novas e velhas formas de organização da classe trabalhadora. Se você perguntasse para mim ‘mas, Ricardo, qual é a mais importante?’, eu responderia: ‘Aquela que fizer a luta mais radical’. O que é fazer a luta mais radical? Não é berrar, que não adianta nada, é tocar nas raízes (...) Qual foi o elemento mais nefasto do liberalismo nesses últimos 30 anos? A tentativa de inculcar no trabalhador e na trabalhadora a idéia do ‘você querendo, você consegue, você sozinho é capaz’. É o individualismo possessivo inculcado em cima de subjetividades despossuídas, porque o trabalhador não tem posse alguma. Isso é tão violento que hoje você vai a uma empresa e eles não dizem mais trabalhador, eles dizem ‘parceiro’, ‘consultor’. Qual parceria, se na primeira crise demite todos os ‘parceiros’? É falacioso, é ideológico. (...) Por isso o desafio hoje dos movimentos sociais, dos sindicatos, dos partidos de esquerda, dos fóruns sociais mundiais é resgatar o sentido de pertencimento de classe”.

Aí está. Agora que sabemos como as coisas caminharam até a situação atual e qual o nosso papel como trabalhadores neste cenário, é hora de tocar nas raízes através de inúmeras ações, como conversar com os amigos, trocar experiências sobre as relações de trabalho como forma de perceber o que está nas entrelinhas das mudanças verificadas por nós e, a partir daí, tentar uma participação mais ativa (e organizada) nas decisões que influenciem nos direitos trabalhistas.
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Referência:
SASSI, Juliana. Trabalho x Capital: “berrar não adianta”. Entrevista com Ricardo Antunes. Caros Amigos. Ano X. nº 120. março 2007. Disponível [aqui]

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