sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Notícias escusas

Não sei se todos os poucos leitores deste blog estão de acordo (provavelmente não), mas acho os telejornais, em geral, muito chatos. Não sei se o problema está no formato ou nas pautas ou nos ancoras, sei lá... O fato é que entre tudo isso, as análises econômicas é a parte, em minha humilde opinião, mais inútil. Não que eu esteja menosprezando a importância da Economia, muito pelo contrário. O problema é que notícias sobre a Bolsa de Valores me parecem realmente inúteis. A Bolsa sobe, a Bolsa desce, a Bolsa se mantém estável... e minha vida continua na mesma.

Porém, lendo o livro Drogas: Hegemonia do Cinismo*, uma coletânea de ensaios originalmente apresentados no seminário “Drogas – Debate Multidiciplinar” ocorrido na Fundação Memorial da América Latina, me deparei com aspectos da economia mundial, no mínimo, sinistros. Percebi quanto somos ignorantes sobre o submundo das Bolsas de Valores. Os mecanismos do Mercado financeiro, através dos quais os capitais ganham liberdade para viajarem ao redor do mundo, podem esconder poderosos esquemas de lavagem de dinheiro. Até onde me lembro, os telejornais não costumam noticiar coisas do tipo. Por isso, resolvi transcrever alguns trechos desse livro que, como tantos outros, apesar das preciosas informações que contém, permanecem mofando nas prateleiras das bibliotecas. O primeiro trecho é retirado de “Movimento de Dinheiro e Tráfico de Drogas na Amazônia”. Segundo a autora, Lia Osório Machado**,

A lavagem de dinheiro, isto é, o processo mediante o qual o dinheiro obtido por meios ilegais passa à condição de legítimo ou tem suas origens ilegais mascaradas, constitui um problema em si mesmo. Recobre não só os lucros obtidos com o comércio ilícito de drogas, mas também a evasão de capitais, a sonegação fiscal, a corrupção, o contrabando e todas aquelas atividades que buscam escapar do controle e da regulamentação governamental dos Estados nacionais.

No processo de lavagem de dinheiro, a economia ilegal atinge seu “ponto de bifurcação”, deixando para trás sua condição ilegal para passar a integrar a economia lícita. Essa quebra de simetria entre o “antes” e o “depois” só é possível graças à alquimia realizada pelo sistema bancário e financeiro, que transforma o dinheiro sujo em dinheiro limpo através de operações numéricas e certos jogos de deslocamento geográfico.

A simbiose a que assistimos hoje entre as organizações que exploram o comércio de drogas ilícitas e o sistema bancário e financeiro internacional pode ser considerada não só como a questão mais importante entre todas as que caracterizam a economia da droga, mas também como a dimensão sombria da própria evolução do mercado internacional de dinheiro e de divisas, hoje administrado por um sistema bancário e financeiro globalizado.” (p. 217 e 218)
O trecho a seguir foi extraído do estudo “O Processo de Lavagem de Dinheiro das Atividades do Crime Organizado: As Networks Ilícitas”. O autor deste estudo, Raúl Cervini***, explica que,

“[...]
O primeiro fator que cria obstáculos à localização dos ativos críticos é o crescimento vertiginoso, nas duas últimas décadas, do volume relativo, em diversos setores das economias nacionais, da atividade econômica classificada como informal, negra ou fora da contabilidade.
A variável “setor informal” da economia implica dificuldades adicionais para a análise. Uma delas se apresenta quando pensamos nos componentes deste setor. Podemos observar a respeito que, embora o setor compreenda um amplo espectro de atividades ilegais que vão do tráfico de drogas ao de armas, metais preciosos, obras de arte furtadas, seqüestros extorsivos etc., também inclui fundamentalmente atividades legais, como a compra de bônus, de ações, de bens imóveis etc., nem sempre facilmente distinguíveis das primeiras.

A outra dificuldade está ligada à impressionante expansão que este componente revela em determinadas regiões. Em países como a Colômbia, a Bolívia ou o Peru, para dar alguns exemplos, os setores da economia informal têm tanta importância que perdem sentido as estatísticas econômicas oficiais e, conseqüentemente, também as prescrições de política econômica baseadas naqueles dados.
” (p. 194)

Entre tantas reflexões sugeridas por estes estudos, considero uma bastante relevante. Fico imaginando quanta gente com cargo de prestígio e de confiança; quanta gente rica e poderosa (quem sabe até uns desses cansadinhos que andam se manifestando por aí...) não entraria pelo cano se o uso e a produção de drogas fossem devidamente legalizados, fechando a torneira de dinheiro ilegal que irriga suas contas bancárias. Aparentemente, se o jornalismo sério resolvesse investigar essa questão, com certeza as análises econômicas seriam bem mais interessantes. Além disso, as colunas sociais provavelmente ganhariam ares de coluna policial.

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Notas

* Ribeiro, Maurides de Melo; Seibel, Sérgio Dario (orgs.). Drogas: Hegemonia do Cinismo. São Paulo: Memorial, 1997.

** Pesquisadora dp CNPq/FINEP. Departamento de Geografia, UFRJ.

***Professor de Direito Penal nas Faculdades de Direito da Universidade de la República e da Univesidad Católica Del Uruguai. Secretário-geral para a América Latina do International Center of Economic Penal Studies (ICEPS).
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Leia também: O Estado bandido e as ‘mulheres no tráfico’ de Maurício Campos.
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Um comentário:

polly disse...

enfim, é este o motivo por trás de tanta hipocrisia!

o lance é tão sério q nem se pode falar em legalização de drogas, o chão treme.

a indústria farmacêutica e do tabaco também tão se dando bem nessa, né...