quinta-feira, 28 de junho de 2007

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara” *

Este post está recheado de reflexões e questionamentos acerca da ilusão humana quanto à ordem (padronização) e o progresso (progresso?)

Pensando essa sociedade que o ser humano criou ao longo de sua caminhada sobre a face da Terra, não consigo parar de pensar que nunca esta coisa dará conta de resolver suas deficiências. Pode até ser exagero ou pessimismo de minha parte, mas não vejo mesmo qualquer saída... definitivamente.

Ora, baseamos nossas relações em regras, normas, leis, ou seja, em tentativas de padronização racional da vida. Infelizmente, padronizações não são suficientes para atender às necessidades e anseios da totalidade dos indivíduos – mesmo porque a totalidade não é uniforme. Sendo assim, como enquadrar todas as manifestações do espírito a padrões tão reduzidos? Quem e quantos são os que definem os padrões? O que fazer com aqueles que não se enquadram nos padrões? Confinamento?


Essa situação é complicada porque quem define, ou melhor, o grupo que define esses padrões, objetivará instintivamente seus próprios interesses, segundo sua visão particular. O resultado disso é a formatação limitada da sociedade, sem que se considere a universalidade de condições à que estamos sujeitados. A razão dos que propõem qualquer padronização à sociedade não é suficiente para apreender além daquilo que vêem (ou daquilo que querem ver). Só no plano das idéias de Hegel a razão daria conta duma padronização dessa envergadura. Teríamos que desenvolver, assim como os Thundercats, a visão além do alcance, ou seja, seria preciso que compreendêssemos realidades que não conhecemos, sem preconceitos nem discriminações sem, simplesmente, marginalizar o diferente. Não que tal incapacidade seja simples falta de preparo (apesar de ser isso também...) da sociedade em geral e dos governantes em especial, mas algo dessa magnitude, de fato, é impossível de ser empreendido. Seremos eternamente reféns da incapacidade do Estado em solucionar os nossos conflitos, pois o Estado tem a visão limitada, quando não, ausente. E sempre será assim, porque seu destino é representar os interesses das classes dominantes vulgo formadores de opinião.

Se para os formadores de opinião (o governo, a mídia, além de professores, mestres, doutores e a própria Academia), que são os que mais contribuem para a padronização da sociedade, compreender a complexidade do real é algo improvável, o que dizer daqueles (a esmagadora maioria) que não tem conhecimento e articulação suficientes para participar de forma ativa do processo de estruturação do sistema social? Devem, estes últimos, permanecer resignados? Ou devem ocupar, resistir e lutar? Greve? Passeatas? Ou ainda, assumir novas atitudes individuais, como combater o consumismo, usar a bicicleta em detrimento do automóvel, votar nulo ou prestar serviços voluntários? Há alguma possibilidade para estabelecer algum tipo de ordem?

É nesse ponto, quando a realidade se apresenta como conflito entre cegos, mais ou menos como aquela descrita por Saramago em seu Ensaio sobre a Cegueira, que a incapacidade de encontrarmos soluções para nossas diferenças fica mais evidente, revelando o animal primitivo que nunca deixamos de ser. Afinal de contas, o que somos por baixo das máscaras sociais que vestimos? E o que somos além de nossa identidade? As últimas questões nesse momento são, como proporcionar oportunidades (e não apenas oportunidade de ser explorado) e acesso aos meios para inclusão, num sistema limitado e limitante como o nosso, em que as leis e instituições impedem tal acesso, gerando insistentemente a marginalidade? Como os marginalizados devem enfrentar a intolerância, o preconceito e a privação? Alguém aí falou em progresso?
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*Epígrafe na contra-capa do livro Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago
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