quarta-feira, 25 de julho de 2007

Do desprezo ao conhecimento

Escolhas quanto à profissão e suas conseqüências
Muitas vezes fui questionado sobre os motivos que me levaram a cursar Ciências Sociais. Não parece ser muito fácil para algumas pessoas entenderem a razão que leva alguém a estudar algo sem um objetivo claro e com uma expectativa salarial tão modesta. Nem passa por suas cabeças a idéia de que alguém pode estudar qualquer coisa simplesmente por gosto. Talvez, as pessoas estejam acostumadas à só estudar para ter uma qualificação profissional e, assim, ter um bom emprego e ganhar muito dinheiro. Engenharia, Medicina, Administração de Empresas, entre outras, ao contrário das Ciências Sociais, são profissões bem definidas que atendem demandas mais objetivas além de gerar mais renda, o que desperta maior interesse das pessoas.

Porém a escolha por determinada profissão deveria responder antes a uma afinidade da pessoa do que à ganância pelo dinheiro, para que essa pessoa sinta-se realizada no seu trabalho. Não deveríamos nunca escolher cursos que ofereçam simplesmente o melhor custo benefício, quer dizer, um curso que ofereça melhor remuneração e que, ao mesmo tempo, corresponda a alguma característica do candidato. Pois, senão, entre Direito e Engenharia, a melhor opção pra quem não é muito chegado à leitura seria Engenharia e pra quem não tem o menor jeito com uma calculadora científica, o melhor poderia ser cursar Direito. Mas isso ainda não é o pior. Perdi a conta de quantas vezes escutei o famoso, “não sei o que fazer, então vou prestar Administração...” . Definitivamente não é assim que deveria ser. Em sociedade o trabalho não é apenas um meio de satisfazer os anseios pessoais, mas a contribuição dos indivíduos para com a totalidade.

É claro que o dito até aqui não é nenhuma regra. Existem engenheiros que amam Engenharia, Advogados que não saberiam ser outra coisa, assim como, por outro lado, existem sociólogos loucos pra entrar na grana.

Infelizmente, desconfio que os profissionais formados hoje, em grande medida, seja mesmo de picaretas, vide desgraças como a de Congonhas ocorrerem com certa freqüência (menos de um ano separa as tragédias da GOL e da TAM!).

Vale lembrar que, além do caos aéreo, temos também o caos na saúde, na educação, na segurança pública etc., o que me leva a perguntar se de modo geral não está faltando competência e sobrando amadorismo, tanto de profissionais quanto das autoridades responsáveis pela fiscalização. Será que o país tem capacidade suficiente para responder a demanda por profissionais qualificados? Não estaríamos sofrendo os efeitos do descaso pelo conhecimento e à sua aplicação prática?
O buraco é mais embaixo (reflexões acerca de algumas características de nosso tempo)
Das atitudes que permeiam nossas relações interpessoais emana o sentido do ser da sociedade. Captar e competir são as diretrizes do paradigma que permeia nossa estrutura social.

Captar é agir no sentido de alcançar o que desejamos. Não nos satisfazemos apenas em saber ou ver que uma coisa existe; há sempre a necessidade de se ter essa coisa. Queremos quase tudo que admiramos, senão, vejamos: algumas pessoas não se contentam em saber e admirar a beleza de uma arara; então, pagam pra que alguém seqüestre um exemplar dessa espécie diretamente de seu habitat natural para mantê-lo em cárcere privado, na sala de estar. Captar, eis a principal característica do capitalismo. Redundante...

Mas, além do captar, outra característica de nosso tempo é o competir. Captar parece fazer mais sentido a partir do momento que se capta mais que os outros. Captar por captar não tem graça. Captar, e acumular o que é captado, são atitudes tidas como virtudes e, por isso, atribuem importância e poder a quem demonstra maior capacidade de captar. Obter a admiração, a simpatia e a boa vontade dos demais, seja pelo mérito ou pela impostura, é essencial ao captar.

O capitão do time de futebol é o cara que acumula a responsabilidade da equipe toda; o rico tem poder por ter captado muita grana (sempre muito mais do que precisa, porque na verdade o que precisa é ostentar); a cidade mais importante de um país é sua capital, pois acumula poder político e econômico; e por aí vai.

E o que uma coisa tem a ver com outra?

Quem mais capta no capitalismo capta, acima de tudo, a atenção dos demais. Atenção é algo que faz bem ao ego; infla-o. Capitalismo estimula o egoísmo. O ego do egoísta quer captar o mundo todo e todo mundo para si. Captar está na ordem do dia. Captar está tão atrelado ao nosso modo de viver que nem notamos a relatividade daquilo que desejamos, nem das escolhas que fazemos. Queremos muito mais do que precisamos, fato que nos obriga a sujeições demasiadas, como escolher uma profissão que, ao invés de prazer, dê dinheiro e status. Não damos conta do nosso próprio egoísmo e fazemos qualquer coisa para superar obstáculos, como distribuir cargos de impor- tância não por mérito, mas em troca de favores que facilitem a realização de nossas metas e objetivos. Daí o porquê de não darmos valor ao conhecimento, afinal bons cargos não dependem desse detalhe “superficial”. Para captar, tanto dinheiro quanto poder, às vezes, assumimos o risco de destruir vidas, como ocorreu nos dois deploráveis episódios aéreos citados acima e como vem ocorrendo nas periferias das grandes cidades há tanto tempo, onde falta saneamento básico, educação, transporte público (mais deficiente que o transporte aéreo, diga-se de passagem) etc.

Agora, utilizando nossa capacidade de imaginar, imaginemos o futuro de um mundo entregue aos desejos e às ambições de uma multidão de egoístas, digladiando-se veladamente, sob as nuvens da rotina. A civilização flerta com a barbárie.
***

3 comentários:

Anônimo disse...

Vocês terminaram o texto, “Do desprezo ao conhecimento”, propondo aos leitores uma reflexão sobre o futuro do mundo entregue aos desejos e às ambições de uma multidão de egoístas. Pois bem, agora imaginem os outsiders que não tem sequer às condições mínimas e necessárias para terminarem o ensino fundamental ou o ensino médio e, aí sim, escolherem se farão uma faculdade porque gostam (sem se preocupar com a grana) e os que escolherão determinado curso (só para ganhar dinheiro).
Para estes que estão de fora do processo a civilização já os barbarizou, tornando-lhes às nuvens da rotina!
Infelizmente uma rotina de descaso e cretinice do Estado que banca este namoro da civilização e barbárie, namoro este que ocorre em um motel dos mais asqueroso e imundo, vulgo mercado.
Bom texto!

Assinado: João Paulo, ESP

Anônimo disse...

Eu pensei em dizer algo parecido com o que o Jão Paulo disse acima.
Na primeira parte do texto, acho que faltou considerar que existe uma parcela considerável da população que não pode dar-se o luxo de fazer o curso superior que realmente gosta sem se preocupar prioritariamente com o retorno que ele pode trazer, sem visar o custo-benefício, como você disse. Simplesmente não há opção para estes muitos. Precisam pensar em sobreviver, ainda que seja à custa de um emprego desagradável ou uma graduação que não apreciam. Não é ganância, é sobrevivência e por isso parece-me precipitado absolutizar os julgamentos e demonizar as escolhas que levam antes ao dinheiro do que à realização pessoal.


Yla

nóis! disse...

Yla,

Esse texto trata especificamente das escolhas que as pessoas fazem quando tem acesso ao ensino superior. A exclusão da imensa maioria do povo das salas de aulas das universidades brasileira é um outro grave problema.

Também não é questão de demonizar as escolhas das pessoas que visam o retorno financeiro. A reflexão proposta tem a ver com causa e efeito. Quem escolhe um curso que não lhe dá prazer será um profissional de qualidade? Vc prefere um médico que tenha prazer em lhe atender ou um que antes de te ouvir já te receite um remédio do laboratório que paga a ele gordas comissões? Quais as conseqüêcias sociais desse tipo de escolha?

É isso,

Aguardo novas participações suas!

léo