quinta-feira, 19 de julho de 2007

História de Superação!?

Alguém aí se lembra quais eram as notícias que vinham diariamente do Rio de Janeiro até poucos dias atrás? Vou dar algumas dicas: a paisagem mais retratada nos jornais era o complexo do alemão ou o pão de açúcar? Os estouros eram de tiros ou de fogos? As lágrimas eram de emoção pela conquista ou de tristeza pela perda de parentes, amigos e até da esperança? É óbvio que não nos esquecemos do cotidiano violento noticiado nos jornais, TVs, rádios e revistas. E principalmente os cariocas, que sentem na pele a situação, assim como tantos outros milhões de moradores dos grandes centros urbanos brasileiros.



Mas desde o dia 13 de julho parece que as coisas mudaram. A violência sai de cena e em seu lugar entram os Jogos Panamericanos. “De repente é aquela corrente pra frente, parece que todo o Rio – isto é, o tráfico, as milícias, a polícia e todo o restante da população – deu a mão” pra “viverem essa energia”. Como que num passe de mágica as coisas mudaram da água pro vinho, ou melhor, do caveirão pro engenhão. Será a mais brilhante “história de superação”, destas que vemos em matérias emocionantes num boletim esportivo – onde é narrada a infância humilde de atuais atletas, que após viverem anos de privações conseguem mudar de vida através da dedicação e disciplina empregadas ao “dom” esportivo, superando os “obstáculos da vida” – que acabam geralmente com a imagem do atleta, em lágrimas, olhando a bandeira brasileira ao som do hino nacional?

Não. Infelizmente nada foi superado: nem a violência, nem as práticas duvidosas na composição de orçamentos para obras públicas e em licitações (como as do PAN) e nem as infâncias cheias de privações de grande parte da população brasileira, ocasionadas, entre outras coisas, por estas mesmas práticas duvidosas de pessoas que usam os órgãos públicos para obterem vantagens para negócios privados, comprometendo a formação de pessoas que poderão também se render ou serem rendidos pelas violências cotidianas.

Histórias de atletas que superam as dificuldades e conseguem viver do esporte não deveriam ser noticiadas com esse tom de “conto de fadas” e "só depende de você". Estes atletas são mesmo heróis, mas suas histórias mostram uma triste realidade, que na maioria absoluta das vezes não têm um final feliz. É inacreditável como as coisas são vistas de maneira fragmentada em nossa sociedade. Pois bem, para falar somente de esportes: porque EUA e Cuba sempre lideram o quadro de medalhas?

Apesar do antagonismo entre as estruturas sociais, nestes dois países a prática das variadas modalidades esportivas é incentivada desde a infância em escolas bem estruturadas, isto é, onde há a preocupação com a formação cidadã. Com potenciais atletas, a qualidade sempre será melhor. É óbvio que a melhor disposição dos recursos financeiros em patrocínios e investimentos são importantes, mas o essencial vem bem antes: o incentivo e acesso na infância.

Aqui, onde a educação é avaliada por números e não pela qualidade, vivemos à espera do “salvador”, do “milagre”, da “mágica” e agora da “energia” que fará as coisas mudarem pra melhor, muito melhor.

Não nos enganemos: tudo permanece igual! E prepare-se, até mesmo a ilusória paz e energia acabará no próximo dia 29.
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Leia também:

"notícias do Rio... (e do Brasil)". Pula o Muro. 02.abril.2006 (na postagem, há a citação de um texto de Leandro Honorato. Infelizmente, o ubbi retirou do ar a página que continha tal texto, mas enviamos para quem quiser, basta nos pedir por e-mail);

A verdade do PAN 2007. documento histórico e jornalístico do Evento Pan 2007, que mostra sua real significação;

Um comentário:

Anônimo disse...

"Viva essa energia". Mas somente até 29/07, depois o tema será: "Quanta agonia".

Ótimo texto!

Ass: João Paulo (ESP)