terça-feira, 17 de julho de 2007

Montaigne

(Interpretação livre de Antônio Abujamra)
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Em suas aldeias, não há comércio, nem matemáticas, nem magistrados, não há hierarquia política, nem ricos, nem pobres. Não há contratos e nem heranças. Não conhecem as palavras que exprimem a mentira, a traição, a calúnia, a dissimulação, a avareza, a inveja. Esses povos não me parecem merecer o qualificativo de selvagens. Três índios foram trazidos à França para que o Rei Carlos nono os conhecesse. “Mas que diabo!? Essa gente não usa calças?”, exclamou o rei.
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Com a ajuda de um intérprete, conversei longamente com um deles. Disse-me que tudo lhe parecia estranho, que havia em torno do rei gente bem alimentada, gozando as comodidades da vida, enquanto muitos homens famintos, miseráveis, mendigavam às portas dos outros. E achava extraordinário que esses homens suportassem tanta injustiça sem se revoltarem e incendiarem as casas dos outros.

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Sobre o autor: Montaigne, filósofo francês, escreveu este texto no ano de 1580 sobre os índios brasileiros. Michel Eyquem de Montaigne viveu entre 1533 e 1592 na França e era um pessimista em relação a sociedade da sua época.
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Extraído do site do programa Provocações
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