segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Horizonte do desejo

Pensar o comportamento político do brasileiro é tarefa pesada, ainda mais quando temos quase como senso comum a definição de acomodados ou conformados, definições estas que levam em consideração a baixa filiação associativa e ignoram a importante atuação dos movimentos sociais da década de 1980, impulsionadores de políticas públicas hoje essenciais; e a incansável luta do Movimento os Trabalhadores Rurais Sem Terra e Movimento Sem Teto.
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No entanto, reflexões a respeito da nossa cidadania, da nossa participação política ou da relação Estado–Sociedade, vêm desde o início do século XX, através de autores clássicos como Sérgio Buarque de Hollanda, Oliveira Vianna, Alberto Torres, Florestan Fernandes, Raymundo Faoro, Luiz Pereira, José Murilo de Carvalho, entre tantos outros. As observações sobre a tradição ibérica e os desdobramentos desta na vida política e institucional do país são dados essenciais para compreender a questão.
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Recentemente – no ano de 2006 – o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos publicou trabalho intitulado Horizonte do Desejo: instabilidade, fracasso coletivo e inércia social, onde traz novas observações sobre o aparente conformismo presente em nossa sociedade, alertando que "a pura exigência de participação, às vezes acompanhada de sanções morais, reflete o aspecto autoritário de um rousseanianismo doutrinário, antes que apropriado entendimento das razões de inércia".
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O autor cria as noções de “instabilidade produtiva” e de “privação relativa”: a primeira referindo-se à evolução da nossa sociedade nos últimos 60 anos, particularmente a evolução de nossas instituições; e a segunda referente às condições materiais, tendo em vista a melhoria de qualidade de vida dos indivíduos e o desejo de mudança: o horizonte do desejo.
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O quadro que se configura é o de instituições incapazes de dar soluções às demandas semeadas com a mega-conversão cívica do século XX, tendo como principal hipótese explicativa para esta situação a manutenção do poder e das condições de vida, onde o crescimento do país não altera o quadro de desigualdade, o que acaba por gerar um sentimento de incapacidade para alcançar uma equiparação social, contrário ao conceito de privação relativa, definido como o sentimento hospedado no hiato que se interpõe entre a condição de vida, tal como percebida pelo indivíduo, e aquela que ele considera deveria ter, por mérito ou compensação social; e que Santos utiliza tendo por base a teoria hobbesiana sobre a ambição natural do homem (querer sempre mais).
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Santos retrata o Brasil como uma população pobre, sem disponibilidade (ou disposição) para enfrentar os riscos de organizar ações coletivas, tampouco para absorver custos de eventuais fracassos, que consistem em desemprego prolongado, afastamento do processo produtivo, violência institucional e marginalização. Assim, classificar a baixa participação das massas trabalhadoras brasileiras como conformismo, desprezo pela democracia ou alienação é precipitado. O que ocorre é que os riscos, muito mais do que os custos, da participação são consideravelmente superiores às expectativas de possíveis ganhos e o temor de recaída ou simplesmente piora é bem maior do que o que se espera obter arriscando organização e demandas.
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Conclui o autor:
Por isso a privação relativa é tão insignificante – porque relativamente à privação absoluta elas são iguais. O Brasil encontra-se, muito possivelmente, aquém do limiar de sensibilidade social, e assim tem convivido, pacificamente, com a miséria cotidiana, material e cívica, sem gerar grandes ameaças. Aqui, o horizonte do desejo é puro desejo, sem horizonte.

A obra de Santos ao lado de outras importantes obras como as do autores citados no início, constitui essenciais observações para quem procura pensar o atual comportamento político do brasileiro numa perspectiva realista, fora do senso comum.
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Aqui, uma pequena bibliografia sobre a relação Estado x Sociedade no Brasil, e sobre a participação política do brasileiro:

SANTOS, Wanderley Guilherme dos. Horizonte do desejo: instabilidade, fracasso coletivo e inércia social. 2 ed. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2006.
HAAG, Carlos. Pacato Cidadão: Descrença em instituições, gerada por crise política atual, pede discussão sobre nossa cidadania. In: Revista Pesquisa. FAPESP, fev.2006. [Disponível aqui]
CARVALHO, José Murilo de. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a república que não foi. 3a. edição. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
FAORO, Raymundo. Os Donos do Poder (Livros I e II). 8a. edição. Rio de Janeiro: Ed. Globo, 1989.
FERNANDES, Florestan. Mudanças Sociais no Brasil. São Paulo: Difel, 1960.
FRANCO, Maria Sylvia de Carvalho. Homens livres na ordem escravocrata. 4a. edição. São Paulo: Ed. Unesp, 1997.
HOLLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 26.edição. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
IANNI, Octávio. A idéia de Brasil Moderno. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1992.
PEREIRA, Luiz. Trabalho e Desenvolvimento. São Paulo: Difel, 1965.
TORRES, Alberto. O problema nacional brasileiro. São Paulo: Ed. Nacional, 1933
VIANNA, Luiz Werneck. Revolução passiva: iberismo e americanismo no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Revan, 1997.
VIANNA, Oliveira. O idealismo da Constituição. Rio de Janeiro: edição Terra do Sol, 1927.

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