segunda-feira, 3 de setembro de 2007

O choque das anticivilizações

Há tempos que quero escrever um artigo sobre um problema crucial que observo e que os tradicionais veículos de informação presos no imediatismo não costumam observar (ou talvez façam questão de não observar). Ainda não consegui organizar as idéias na forma como pretendo, mas resolvi escrever trazendo outras análises como suporte.

Em meio ao bombardeio de notícias sobre as mais variadas violências – desde um assalto terminando em crime irracional (que aqui significa mais que hediondo), até os sofisticados esquemas de corrupção envolvendo governos, órgãos (que deveriam ser) públicos e corporações – ficamos sempre na análise superficial, isto é, a ocorrência do fato em si, sem nos aprofundar no processo que geram tais acontecimentos.

Em texto
[1] de março deste ano sugeri tais observações aprofundadas. Outros textos, porém, já me indicavam tal caminho. Para não me alongar em citações, cito apenas o recente texto de Leonardo Boff intitulado “o verdadeiro choque de civilizações”[2], publicado no sítio Adital, onde citando o pesquisador norte-americano Mike Davis, ele trata do processo de favelização do mundo, acelerada com a introdução do neoliberalismo a partir de 1980, quando:

houve uma privatização de quase tudo, uma acumulação de bens e serviços em poucas mãos de tal monta que desestabilizou socialmente os paises periféricos e lançou milhões e milhões de pessoas na pura informalidade. Para o sistema eles são ‘óleo queimado’, ‘zeros econômicos’, ‘massa supérflua’ que sequer merece entrar no exército de reserva do capital.”

Uma das conseqüências deste processo seria (ou já está sendo) “a luta entre a cidade organizada e amedrontada e a favela enfurecida”, isto é, de incluídos vs. excluídos – aqui num aspecto político, configurando-se o verdadeiro choque de civilizações – , fato aliás observado pelo sistema dominante, o qual já se prepara (e já age) para conflitos urbanos, em favelas, chegando a lembrar um cenário próximo ao da guerra de canudos. Daí, Boff questiona se a militarização do combate aos traficantes no Rio de Janeiro já não estaria obedecendo esta estratégia.

Antes fosse uma “guerra” com motivos políticos, pois explicitaria um grande desejo de mudança. Penso que, pior que isso, trata-se de uma luta vazia de sentido político, a violência literal, desumana, uma luta coisificada. Há muito já havia percebido que os diferenciais entre um ladrão de rua, desses que assaltam ou seqüestram, e um corrupto ou corruptor é apenas o tipo de arma utilizada – o primeiro com uma faca ou revolver; o segundo com a influência e a caneta – e a pena, para o que é realmente punido. Neste caso também ha incluídos e excluídos, mas em ambos temos o Homem sendo consumido pelos objetos, que procura conquistar a qualquer custo, a que chamo choque das anticivilizações.

O atual momento – conseqüência do processo descrito por Boff – nos apresenta um conflito social onde a ideologia de qualquer lado que se esteja é a mesma, contrária à noção de comunidade. Com isso, o desprezo pelo espaço público tende a crescer; o desrespeito com o outro também; e o Homem coisificado como fim e como único valor, fazendo qualquer outro desaparecer. Enquanto isso, os governos continuam na balela do crescimento (produzir mais), esquecendo-se (talvez propositalmente) do desenvolvimento, que é a preocupação de colocar os avanços da técnica e da informação aliado com a vida de toda a população, proporcionando uma real qualidade de vida, permanente, e não comprada num supermercado.

Alio-me assim as idéias do geógrafo Milton Santos, que via uma saída para esta crise através das ações locais, desde que haja um insistente esforço das parcelas da população que estão conscientes do quadro que está configurado
[3]. Creio ainda nisso porque conheço muitas pessoas que fazem este trabalho de formiga, que passa sobretudo pela educação, num sentido abrangente que inclui informação e oportunidades. Qualquer esforço ou medida que não tenha este foco será inútil.

A conclusão de Boff, com a qual encerro este artigo, vai também por esta linha ao dizer que “enquanto não se fizerem as mudanças de inclusão necessária, continuará o medo e o risco real de uma guerra sem fim” e – acrescento – sem sentido.
_________________________[1] Quando pessoas são tratadas como coisas. (2007). Jornal de Debates. Observatório da Imprensa, ano 11, nº423, 06/03/2007. Disponível aqui
[2] O verdadeiro choque de civilizações. Adital – Notícias da América Latina e Caribe. Brasil. 22.08.2007. Disponível aqui[3] SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 6a. ed. Rio de Janeiro: Record, 2001.

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