terça-feira, 9 de outubro de 2007

Realidades em Choque


“Não veria meu segundo filho. Deixaria órfã uma inocente criança. Uma jovem viúva. Uma família destroçada. Uma multidão bastante triste. Um governador envergonhado. Um presidente em silêncio. Por quê? Por causa de um relógio.

Como brasileiro, tenho até pena dos dois pobres coitados montados naquela moto com um par de capacetes velhos e um 38 bem carregado.

Provavelmente não tiveram infância e educação, muito menos oportunidades. O que não justifica ficar tentando matar as pessoas em plena luz do dia. O lugar deles é na cadeia.

Agora, como cidadão paulistano, fico revoltado. Juro que pago todos os meus impostos, uma fortuna. E, como resultado, depois do cafezinho, em vez de balas de caramelo, quase recebo balas de chumbo na testa.” (Luciano Huck)

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Eu paro e me pergunto: a quem pertence a realidade? Daí: qual realidade?

...nesse caso, me refiro (e daqui pra frente será assim) a realidade em que eu vivo; não a realidade em que você vive. Não sei se você vai entender, mas o quê eu quero dizer é, simplesmente, como eu entendo a realidade. Pra mim, ela é como um barato, uma aparência. A realidade nada mais é que simples aparência. A realidade é um barato pessoal e quase intransferível, por isso não podemos falar em uma realidade única, em que todo e qualquer ser vivente ou não-vivente se encontra ao mesmo tempo o tempo todo. Cada ser humano constrói uma realidade própria. A realidade, veja bem, é algo que só existe no homem. A realidade é fruto das elucubrações humanas. Sem a racionalidade as coisas seriam... somente coisas. Além das aparências, continuamos sendo os mesmos primitivos seres tribais interagindo entre si e com a natureza.

É bom lembrar que, se não fossem os elementos que a terra nos fornece, não haveria vida. É certo, ainda, que o ser humano transforma esses elementos naturais ao seu bel prazer: colhe tudo o que a terra oferece; alimenta-se daquilo que a terra dá; alimenta-se de outros seres que por sua vez também se alimentam daquilo que a terra dá... Além das necessidades vitais, o ser humano produz os supérfluos, através da transformação do petróleo, do aço, da fibra de carbono, do silício, etc. Nem por isso o ser humano pode querer-se além ou acima da natureza. O ser humano, apesar de tudo, deriva dos elementos da natureza: não o contrário.

Assim, temos o ser humano, um ser capaz de assumir o controle científico sobre todo o resto das coisas que existe – e nada é mais interessante que o ato de ordenar cientificamente imagens, odores, sons em idéias, memórias, filosofias. Porém, se o ser humano não tivesse aparecido na Terra, repito, as coisas seriam... somente coisas. Ou será que cachorros construiriam algum tipo de realidade que depois pudessem ensinar na escola? Diga-me, que dor tem na consciência um leão que devora um elefante na floresta?

Sendo assim, acho que não poderia ser de outra forma: cada pessoa constrói a realidade conforme as coisas e situações que presencia e que a rodeiam. Por outro lado, veja, coisas que sabemos através da televisão, ou das revistas, ou dos livros, ou dos blogs, são imagens formadas na nossa mente através de discursos de outrem. De concreto, não nos oferecem experiência alguma. Porque, só são para nós, as pessoas ou as coisas com as quais um dia tenhamos tido algum tipo de experiência concreta. Diria que o resto, todas as outras experiências alheias e alhures com as quais não tenhamos tido qualquer contato direto, são apenas construções discursivas. As ignoramos de fato. Cada um é cada um. Cada realidade é uma realidade. Eu diria, por fim, que, só se conhece algo quando se vivencia algo. Imagens formadas através de discursos são apenas imagens formadas através de discursos.

Há, ainda, e é bom lembrar, momentos em que essas realidades inequivocamente e inevitavelmente se cruzam. Não no mundo das idéias ou em reality shows dos programas de auditório, mas no concreto das ruas, onde as balas não são de festim e onde não há lugar para dublês.
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“Era da seguinte opinião: nunca iria num programa de auditório se humilhar perante milhões de brasileiros, se equilibrando numa tábua pra ganhar o suficiente pra cobrir as dívidas, isso nunca faria, um homem de verdade não pode ser medido por isso.

Ele ganhou logo cedo um kit pobreza, mas sempre pensou que, apesar de morar perto do lixo, não fazia parte dele, não era lixo.

A hora estava se aproximando, tinha um braço ali vacilando. Se perguntava como alguém pode usar no braço algo que dá pra comprar várias casas na sua quebrada. Tantas pessoas que conheceu que trabalharam a vida inteira sendo babá de meninos mimados, fazendo a comida deles, cuidando da segurança e limpeza deles e, no final, ficaram velhas, morreram e nunca puderam fazer o mesmo por seus filhos!

Estava decidido, iria vender o relógio e ficaria de boa talvez por alguns meses. O cara pra quem venderia poderia usar o relógio e se sentir como o apresentador feliz que sempre está cercado de mulheres seminuas em seu programa.” (Ferréz)

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ps.: Apesar de a UOL relegar boa parte de seu conteúdo apenas para seus assinantes/pagantes, você sabe como a internet é, né... Através de uma simples pesquisa na rede foi possível encontrar os dois textos na íntegra e comparar ambas visões a respeito de uma mesma situação: o assalto ao apresentador. Para se ter uma idéia da realidade de Luciano Huck você pode ler seus Pensamentos quase Póstumos [aqui] e para ter idéia da realidade que Ferréz conhece muito bem você pode ler os Pensamentos de um "Correria" [aqui].
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