terça-feira, 6 de novembro de 2007

Movimente-se

Ultimamente, temos visto a emergência de novos movimentos – ou melhor: neomovimentos – em horário nobre da grande mídia, convidando todos, inclusive você, a participar. “Uma ligação basta”. Sem riscos, sem a preocupação de pensar em alternativas, sem “dar a cara a tapa” – como, infelizmente, já aconteceu de maneira literal.

Assim como o restante dos comerciais que dividem espaço no horário nobre, as campanhas dos neomovimentos também contêm um valor objetivo e outro de fetiche. Nada contra a utilização de um veículo de comunicação com tamanho alcance para promover um (neo)movimento, pois a divulgação de trabalhos, princípios e objetivos é estratégia importante para a sobrevivência e mesmo para a abrangência dos trabalhos. No entanto, o que não fica claro são os reais interesses que estes neomovimentos representam, que se escondem atrás dos recursos de propaganda.

O processo de estabelecimento do Estado e dos direitos da cidadania – da qual a participação política é um direito e também meio para alcance e garantia de direitos – são, por definição, um acordo entre indivíduos livres, iguais em status (juridicamente), mas desiguais em todas as demais dimensões da vida social. A democracia nunca foi o consenso, mas sim o conflito. Neste sentido, o conjunto de direitos e deveres que regem os Estados, tem por princípio mediar este conflito de interesses de modo a proporcionar o bem-estar de todos que estão submetidos a este conjunto de normas. Trata-se, portanto, de um acordo, e não de consenso; e a igualdade só existe neste sentido.

Pode-se questionar se em algum lugar do mundo isso chegou a acontecer. No entanto, para este artigo, basta relembrarmos da História republicana brasileira e vamos notar que, apesar da fachada liberal e – nos últimos vinte anos – democrática, em nenhum momento estes ideais chegaram a se firmar. Pior: nem chegamos perto disso. Muitas vezes temos a sensação de reviver práticas dos tempos de colônia, confirmados pelas diversas “revoluções passivas”, desde a independência, passando pela revolução de 1930, até a democratização nos anos 1980. Portanto, é de causar desconfiança quando surgem movimentos com uma causa unânime, num país de tantas desigualdades. Ainda mais quando esta causa não está explícita.

Então, ao invés de apoiar cegamente as "implícitas causas unânimes", pense nos interesses comuns entre você e os que estão ao seu lado, sejam seus vizinhos no bairro, seus colegas no trabalho e assim por diante.

Preste atenção nas carências e nas potencialidades que lhe cercam. Transforme, primeiro, o local de trabalho, o bairro onde mora, a escola onde estuda. Faça o seu movimento.

Movimente-se!
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na coluna ao lado, com o mesmo título deste artigo, estão alguns variados exemplos de movimentos no Brasil. Apesar de não serem vistos em horário nobre da grande mídia, eles promovem siginifcativas mudanças na vida das pessoas que - como integrante, participante ou beneficiário - estão ligadas a eles.

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