segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Estamira

Esse é um daqueles filmes que não é qualquer um que gosta. Talvez possam acusá-lo de apoiar-se numa certa estética da miséria. Eu não acho que seja o caso, mas enfim... Não sou crítico de cinema e nem crítico de críticos de cinema. Prefiro entender que pra cada pessoa há uma interpretação. No caso de Estamira acredito que a expectativa que cada um tem quanto ao conteúdo do filme acaba por exercer forte influência em um julgamento final (nem sei se é possível um julgamento definitivo de uma obra como essa). O fato é que aquela mulher, vivendo em meio ao lixo, dizendo-se por vezes feliz, provoca incômodo.
Poética, filosófica ou simplesmente ‘louca’, quem pode julgá-la? E o que dizer de sua fala: são declamações ou relatos? Confesso que muitas vezes cheguei a confundir-me. Estamira se enfurece quando o assunto é Deus (o filho dela, religioso, diz que é coisa do demo), pois pra ela Deus representa toda a hipocrisia do ser humano; ela não aceita a mentira. Onde estava Deus enquanto ela era humilhada, desprezada, traída e violentada? Por isso Estamira sempre repete para quem insiste no assunto: "Enfia Deus no seu cú!". Podem chamá-la de louca, alienada ou coisas que o valha, mas eu creio que, muito pelo contrário, ela não conseguiu aceitar as mentiras que a vida em sociedade muitas vezes nos impõe.

Quando ela diz “eu sou a Estamira, eu sou a bêbada; eu estou lá, eu estou cá; estou em tudo em quanto é lugar!”, ela não fala sobre ela, indivíduo, ela fala sobre todas as outras pessoas que vivem na mesma condição que ela está. E essa condição social a mantém na base daquela tal pirâmide social que aprendemos nas aulas de Geografia. Aquele gráfico em que a faixa vermelha, bastante grande, sustenta aquela outra faixa, mais parecida com um pequeno círculo, normalmente verde. Um pouco mais adiante ela vai deixar bem claro que não é simplesmente uma excluída. Em certo momento ela afirma, “Todos dependem de mim”. Nessa frase ela está metaforicamente dizendo, “a miséria é condição da riqueza” – mas tudo bem, tudo isso é só um discurso ideológico, não é mesmo?– pelo menos é o que professam os “hipócritas, mentirosos, espertos ao contrário, entendeu?, que jogam pedra, e escondem a mão!”.
Por fim, creio que o filme ressalta o fato de não podermos jamais saber o que se passa pela cabeça do outro e que a linguagem é o único meio para aproximar tantos universos. A impressão que fica é que a vida de Estamira levou-a a uma ruptura com a linguagem convencional ou talvez a apropriar-se dessa linguagem convertendo-a em uma linguagem própria expressa em seus discursos sem sentido aparente. Conseqüentemente rompe também com o resto do mundo, como uma espécie de fuga das agressões e frustrações e decepções e etc. Sua fala por diversas vezes torna-se visceral, proporcionando momentos tensos; afinal na tela não vemos uma atriz, mas uma pessoa, um ser humano em carne sangüínea” como nós, a expressar sentimentos como eu nunca havia visto. Nenhum filme de Hollywood conseguiria expressá-los assim, simplesmente porque este não é ensaiado, ela não decorou suas falas antes das filmagens. Não se trata disso. O que eu vi foi a vazão de sentimentos profundos, talvez quase sem os recalques que nós, os ‘normais’, já nos habituamos e que, muitas vezes, nos levam a julgar (rotular, se preferir...) pessoas como Estamira como loucas que devem ser aprisionadas em algum manicômio.
Se você ainda não viu, aí abaixo está o trailer.

Nenhum comentário: