terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Não ultrapasse a faixa amarela

por Júlio Canuto.
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“Basta se dar conta da sua própria nulidade, subscrever a derrota – e já estamos integrados.”
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Dias desses estava a caminho do trabalho. Saí do meu apartamento, num conjunto habitacional, entrei num microônibus e fui para uma estação do metrô de São Paulo. Por volta das 07:30 hrs da manhã, estava em pé num carro do metrô, rumo ao centro da cidade. Como gasto cerca de uma hora e meia no trajeto, que termina na zona sul, sempre levo uma mochila com revistas, livros, papel, caneta, blusa, guarda-chuva etc. (é, o clima desta terra é imprevisível). Para não desperdiçar este precioso tempo, saco um livro e vou lendo. Desta vez era a Dialética do Esclarecimento, de Adorno e Horkheimer, e por coincidência, bem no capítulo sobre a Indústria Cultural. Lia:

Mas os projetos de urbanização que, em pequenos apartamentos higiênicos, destinam-se a perpetuar o indivíduo como se ele fosse independente, submetem-no ainda mais profundamente a seu adversário, o poder do capital. Do mesmo modo que os moradores são enviados para os centros, como produtores e consumidores, em busca de trabalho e diversão, assim também as células habitacionais cristalizam-se em complexos densos e bem organizados. A unidade evidente do macrocosmo e do microcosmo demonstra para os homens o modelo de sua cultura: a falsa identidade do universal e do particular.
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Mas dizia “por coincidência” porque do meu lado esquerdo dois homens comentavam detalhes de filmes “blockbusters”, numa prosa onde a riqueza de detalhes eliminava a possibilidade de uma discussão mais aprofundada sobre o conteúdo, os valores simbólicos ou qualquer outra coisa que dê sentido a obra. Pareciam prestar contas um ao outro, descrevendo cenas de filmes que seu interlocutor já tinha visto – e tudo era bom, era muito bem feito! Do meu lado direito, uma mulher esticava o braço para alcançar a barra de apoio, no alto, e vez ou outra dividia comigo a leitura do livro. Percebendo seu tímido interesse (muito provavelmente por ser o objeto mais próximo dos seus olhos) levantava o livro e abria bem as páginas, como forma de ajuda-la e incentiva-la a leitura.

Continuava lendo:

Atualmente, a atrofia da imaginação e da espontaneidade do consumidor cultural não precisa ser reduzida a mecanismos psicológicos. Os próprios produtos – e entre eles em primeiro lugar o mais característico, o filme sonoro – paralisam essas capacidades em virtude de sua própria constituição objetiva. São feitos de tal forma que sua apreensão adequada exige, é verdade, presteza, dom de observação, conhecimentos específicos, mas também de tal sorte que proíbem a atividade intelectual do espectador, se ele não quiser perder os fatos que desfilam velozmente diante de seus olhos.
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Assim, cheguei ao centro e segui para a zona sul. Entrei no escritório, e durante o dia continuei com as observações dos filósofos na cabeça.

A violência da sociedade industrial instalou-se nos homens de uma vez por todas. Os produtos da indústria cultural podem ter a certeza de que até mesmo os distraídos vão consumi-los alertamente. Cada qual é um modelo da gigantesca maquinaria econômica que, desde o início, não dá folga a ninguém, tanto no trabalho quanto no descanso, que tanto se assemelha ao trabalho.
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Observei a fila na porta do banco, antes mesmo de aberto. Mais tarde, observei a fila no restaurante por quilo. O ritmo parece sempre o mesmo, sincronizado. Até os sorrisos são idênticos e as piadas – desconfio – semelhantes.





Atualmente em fase de desagregação na esfera da produção material, o mecanismo da oferta e da procura continua atuando na superestrutura como mecanismo de controle em favor dos dominantes. Os consumidores são os trabalhadores e os empregados, os lavradores e os pequenos burgueses. A produção capitalista os mantém tão bem presos em corpo e alma que eles sucumbem sem resistência ao que lhes é oferecido. Assim como os dominados sempre levaram mais a sério do que os dominadores a moral que deles recebiam, hoje em dia as massas logradas sucumbem mais facilmente ao mito do sucesso do que os bem-sucedidos. Elas têm os desejos deles. Obstinadamente, insistem na ideologia que as escraviza. O amor funesto do povo pelo mal que a ele se faz chega a se antecipar à astúcia das instâncias de controle.
Pensei nos dias anteriores, todos sempre tão iguais. Rotina. Creio, até os objetivos das pessoas com as quais cruzei são iguais.

A indústria só se interessa pelos homens como clientes e empregados e, de fato, reduziu a humanidade inteira, bem como cada um de seus elementos, a essa fórmula exaustiva. Conforme o aspecto determinante em cada caso, a ideologia dá ênfase ao planejamento ou ao acaso, à técnica ou à vida, à civilização ou à natureza. Enquanto empregados, eles são lembrados da organização racional e exortados a se inserir nela com bom-senso. Enquanto clientes, verão o cinema e a imprensa demonstrar-lhes, com base em acontecimentos da vida privada das pessoas, a liberdade de escolha, que é o encanto do incompreendido. Objetos é que continuarão a ser em ambos os casos.
O lazer também não foge à regra. Final de ano, os bares lotados, os amigos secretos, as mímicas, os sorrisos e abraços a quem nem se cumprimenta mesmo se vendo todas as manhãs. E as palavras também serão as mesmas: “prosperidade”, “sucesso”, “paz”, “amor”, “realizações” e por aí vai... Mas quem se realiza? Ah, ia me esquecendo: as doações de natal, pois essa é a época do ano em que algumas pessoas sentem fome!

Quem tem frio e fome, sobretudo quando já teve boas perspectivas, está marcado. Ele é um outsider e, abstração feita de certos crimes capitais, a culpa mais grave é a de ser um outsider (...) De fato, o que se desenvolve atualmente é uma espécie de Estado de bem-estar social em grande escala. Para afirmar sua própria posição, as pessoas conservam em movimento a economia na qual, graças à técnica extremante desenvolvida, as massas do próprio país já são, em princípio, supérfluas enquanto produtoras. Os trabalhadores, que são na verdade aqueles que provêem a alimentação dos demais, são alimentados, como quer a ilusão ideológica, pelos chefes econômicos, que são na verdade os alimentados. A posição do indivíduo torna-se assim precária. No liberalismo, o pobre era tido como preguiçoso, hoje ele é automaticamente suspeito. O lugar de quem não é objeto da assistência externa de ninguém é o campo de concentração, ou pelo menos o inferno do trabalho mais humilde e dos slums [1]. A indústria cultural, porém, reflete a assistência positiva e negativa dispensada aos administrados como a solidariedade imediata dos homens no mundo dos competentes.

Alimentando os que têm fome, alimentam também suas consciências. E assim nada muda.
Apesar de todo progresso da técnica de representação, das regras e das especialidades, apesar de toda atividade trepidante, o pão com que a indústria cultural alimenta os homens continua a ser a pedra da estereotipia.
E o ano começa com as contas a pagar dos presentes de natal ou das férias a prestações. Claro, os mesmo presentes e os locais de passeio para onde todos foram. Afinal, da mesma forma como os filmes foram comentados, também as férias serão: prestando contas sobre os locais que todos já visitaram.
Hoje, a indústria cultural assumiu a herança civilizatória da democracia de pioneiros e empresários, que tampouco desenvolvera uma fineza de sentido para os desvios espirituais. Todos são livres para dançar e para se divertir, do mesmo modo que, desde a neutralização histórica da religião, são livres para entrar em qualquer uma das inúmeras seitas. Mas a liberdade de escolha da ideologia, que reflete sempre a coerção econômica, revela-se em todos os setores como a liberdade de escolher o que é sempre a mesma coisa.
O dia passava e eu o enxergava com esse olhar. O caráter descartável de cada coisa. Pensei nos espaços onde este espírito dos tempos modernos está impregnado. A própria academia, com certeza, é um desses espaços. E o quanto isto também está impregnado em mim. Óbvio que este texto está longe de ser uma análise sociológica, mas apenas uma “viagem” com base em idéias, sem atitudes. Isto é, oposição sem ação.
...o poder da indústria cultural provém de sua identificação com a necessidade produzida, não da simples oposição a ela, mesmo que se tratasse de uma oposição entre a onipotência e a impotência. – A diversão é o prolongamento do trabalho sob o capitalismo tardio. Ela é procurada por quem quer escapar ao processo de trabalho mecanizado, para se pôr de novo em condições de enfrenta-lo.
E assim voltei pra casa [de modo mecanizado, como todos ao meu redor], depois de um dia de trabalho. E enquanto voltava, a todo tempo ouvia a ordem: “não ultrapasse a faixa amarela”









___________________[1] cortiços

4 comentários:

William Dubal disse...

Belos comentários. Sou estudante de filosofia. Meu TCC, decidi recentente, abordará a indústria cultural. Pesquisando pela internet mais sobre o assunto, topei com seu blog.

Realmente angustiante tudo isso, não acha?

Abraço!

Pula o Muro! disse...

Ô... se é! Perceber o condicionamento das pessoas é ruim, perceber o próprio é pior ainda!

Abraço, valeu pelo comentário e boa sorte no TCC. Quem sabe rende um texto pro blog? rs

Al Porcino disse...

Foi assim que cheguei aqui: pesquisa no google "todos são livres para dançar adorno"... procurando algo sobre a ideologia, coerção econômica, etc, para embasar meu TCC, que envolve a questão do ser em Heidegger num paralelo com a subjetividade na Pop-art.

Depois de ler seu post, só consegui dizer: uau...

Pula o Muro! disse...

Valeu pelo comentário. Espero que o texto tenha ajudado em algo.

Abraço...