quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Os 200 anos da chegada da Família Real... ou: já começou o carnaval?

por Julio Canuto

Assisti ontem, bestializado, às comemorações realizadas em Salvador para o bicentenário da chegada da Família Real ao Brasil, em 1808. Hoje, ainda sem digerir a notícia entrei no portal do governo da Bahia, que conta em detalhes a festa. Li que foi
a primeira vez que uma parada naval (cerimônia tradicional das Marinhas de guerra de todo o mundo para datas comemorativas), é realizada em águas baianas". O almirante Aurélio Ribeiro disse que “Essa parada não poderia deixar de ser na Bahia, foi um pedido do governador que nós tivemos que atender com muita honra, pois além de oficiais somos também cidadãos brasileiros e temos orgulho da história do nosso país (grifo meu).

Recorro a Raymundo Faoro, em Os Donos do Poder:

A dinastia de Bragança cumpria, a 29 de novembro de 1807, um destino já entrevisto pelo primeiro rei dessa casa, D.João IV. As dificuldade da restauração se resolveriam com o Brasil independente, já a única colônia que sustentava a monarquia, a ‘vaca de leite’ da metrópole. O plano se faz realidade, com o furacão napoleônico desencadeado sobre a Europa, no momento em que muitos reis perdem o trono ou o entregam à voracidade das armas francesas. O Brasil, sustentáculo do reino, torna-se seu refúgio, com imediatas conseqüências sobre a própria estrutura do reino, mal seguro e flutuante sem os recursos americanos, suas rendas, tributos e comércio. A resistência secular ao domínio inglês, resistência desesperada e inútil, esboroa-se, favorecida a quebra, paradoxalmente, pelas armas de Napoleão. O reino não seria inglês, subjugado pelas tropas de Junot, mas o cerne, o seu miolo, a sua substância cairiam sob a tutela econômica da Revolução Industrial. A indecisão, as negociações dúplices, as escaramuças diplomáticas levaram à histórica viagem da noite de 29 de novembro, em que o juízo da nação parece recuperado nos lábios de D. Maria I, a Louca, única a lamentar o abandono do país sem combate, sem uma batalha perdida, sem um tiro disparado. O povo, bestializado diante da cena como bestializado assistiria a outra, em outro palco, quase um século depois, o povo não acreditava no que via, entre lágrimas e imprecações, a dar vazão ao seu melhor sentimento, a saudade. Emigrava a corte, seu ouro e seus diamantes, com metade do dinheiro circulante, frustrada por não poder arrecadar a prata das igrejas. Entre 10.000 e 15.000 pessoas acompanharam o rei, sem contar os militares, embarcados em vinte vasos de guerra, sob a escolta da marinha inglesa. Portugal ficaria entregue a uma regência, o Brasil seria, desde logo, um ‘novo império’, de acordo com a força dos acontecimentos e a expressa vontade régia (...)


Orgulho? Bom, tudo bem. Mas mesmo neste caso?

Os reinóis transmigrados, arrogantes e desdenhosos da terra, doidos para volver às delícias lisboetas, não compreendem o país e o tratam com uma conquista a explorar. Os vícios e os abusos atravessaram o Atlântico para o ‘cômodo plagiato e cópia’, para maior carga do Tesouro e maiores ônus sobre a população nativa. A receita pública subiu, de 2.258:172$499, em 1808, para 9.715:628$699 em 1820. O Banco do Brasil, ao invés de auxiliar do comércio e da indústria recém-liberada, obedeceu, de acordo com a inspiração de sua lei orgânica, ao papel de servir o erário, destino que o matou depois de treze anos de precária existência. A despesa recai, em mais de dois terços, num período e outro, no custeio da casa real, Exército, tribunais, pensões e soldos. Tudo fluía ao aparelho de sucção da corte – o cancro roedor da vitalidade econômica do país...ela acudia aos seus dependentes imediatos não só com mesadas e cargos rendosos, mas até com rações diárias de víveres, as quais não eram desdenhadas mesmo por pessoas bastante ricas. As despesas da ucharia de D.João VI ficaram impressas na tradição popular e são ainda hoje citadas como simbólicas da imprevidência e prodigalidade da administração da Real Casa. No ano de 1818 – o pormenor é suficiente – consumiam-se diariamente no Paço 620 aves, muito mais naquelas rações , cujo valor subia, o das mais importantes, a 500 francos por mês, do que na alimentação mesma do palácio. Para se fazer uma melhor idéia do desperdício, pode-se referir que a ração diária da aia do Infante D. Sebastião, filho do falecido D.Pedro Carlos, abrangia 3 galinhas, 10 libras de carne de vaca, meia de presunto, 2 chouriços, 6 libras de porco, 5 de pão, meia de manteiga (que era muito escassa no Rio), 2 garrafas de vinho, 1 libra de velas, 1 de açúcar, café, frutas, massas e folhados, legumes, azeites e outros temperos’. Mais de 300 cavalos e muares ocupavam cocheiras do paço de São Cristóvão, acrescido de outro tanto no paço da cidade. Nessa dança de desperdícios, a sovinice do rei, poupado até a miséria com seus recursos próprios, formava contraste ridículo com a folga dos funcionários e dos grandes. O ambiente inspirou a um zeloso burocrata a expressão, que fez fortuna durante um século e meio: o país está ‘à borda do precipício´”.p.281-2 e 285
O governador Jacques Wagner completou, dizendo que “Eu respeito muito a instituição da Marinha e fico muito satisfeito por nosso pedido ter sido atendido. Além disso, a comemoração histórica também se estende as importantes instituições criadas na época que tanto representam nosso país com as mais diversas atividades”.
"As importantes instituições criadas na época"... Faoro, por favor:
Organizar o império, para o ministério, seria reproduzir a estrutura administrativa portuguesa no Brasil e colocar os desempregados. O eixo da política era o mesmo, secularmente fundido: o reino deveria servir à camada dominante, ao seu desfrute e gozo (...)

Segundo Hipólito José da Costa, continuariam no Rio de Janeiro o ofício exercido em Lisboa: ´comer à custa do Estado e nada fazer para o bem da nação´ (...)

.
´O governo do Brasil´ – escreve Hipólito – ‘arranjou-se exatamente pelo Almanaque de Lisboa, sem nenhuma atenção ao país em que se estabelecia. Mostra, por exemplo, o Almanaque, em Lisboa, um Desembargo do Paço, um Conselho da Fazenda, uma Junta do Comércio etc; portanto, quer o Brasil careça desses estabelecimentos, quer não, erigiram-se aqui no Rio de Janeiro, logo que a Corte aqui chegou, um Desembargo do Paço, um Conselho da Fazenda e uma Junta do Comércio’. ´p.284
Não preciso dizer mais nada. Cada uma...


_____________________
A notícia na íntegra, do sítio do Governo da Bahia: Parada naval rememora a chegada da família real

FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação e patronato político brasileiro. vol.1 / 10 ed. - São Paulo: Globo; Publifolha, 2000 - (Grandes nomes do pensamento brasileiro)

Nenhum comentário: