quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Sabedoria Popular

Nunca fui de falar. Desde criança preferi outras formas de expressão. Primeiro o desenho. Desde criança desenhava pessoas e lugares dos quais gostava, e inventava situações. Procurei cursos e quase entrei nas Artes Plásticas. Depois tentei a música, mas desisti logo: não levo o menor jeito. Por fim, passei a escrever – o que faço até hoje. Detalhe: escrevo sempre a mão, não consigo formar raciocínios no computador. Embora isso pareça um costume “primitivo”, digo que há algumas vantagens como, por exemplo, poder escrever e anotar idéias em qualquer situação, pois sempre tenho um papel e caneta por perto. Vantagem esta que não se refere apenas à praticidade de ter sempre o material à mão e a economia do instrumento, mas porque, com meu ritmo indisciplinado, não deixo escapar as idéias que me vêm sem mais nem menos... E as viagens, como esta que encerro aqui.

É. Encerro aqui a viagem e retorno ao tema inicial, que era algo bem complexo: as relações humanas.

Dizia que nunca fui de falar muito. Logo, faço poucas amizades, uma vez que depende sempre do outro iniciar um diálogo – e insistir! Óbvio que já fui tachado de anti-social. Mas bato o pé e gesticulo que não, não é nada disso! Gosto de estar entre as pessoas, gosto da rua e do metrô (exceto no horário de pico: sociabilidade demais também irrita), gosto das praças, das arquibancadas de várzea, dos bares de rua (a mesa sempre na calçada). E se entro num bar ou padaria, escolho sempre o balcão. Portanto, não sou anti-social, mas apenas gosto de observar, ouvir histórias alheias, preocupações, expectativas, mentiras deslavadas, gargalhadas e por aí vai. Observo os tipos. Se ficar muito tempo num lugar, imagino a vida do estranho, e também acabo sorrindo com as estórias sem roteiro imaginadas por mim. Descubro também algumas habilidades ocultas das pessoas, que geralmente o uniforme ou “traje” de trabalho não deixa transparecer. É nestas horas que, por exemplo, um faxineiro se torna técnico da seleção, médico, vidente ou conselheiro, dentre outras inúmeras habilidades que o movimento mecânico do braço dando utilidade à vassoura não deixa perceber.

Ultimamente tenho perdido toda a esperança nas instituições, regimes políticos, ideais; mas sem perder o humor. Procuro formas alternativas para resolução de nossos problemas. Na minha opinião, o primeiro passo seria extinguir os títulos acadêmicos e as formalidades. Abaixo os técnicos e especialistas! Agora, o que era ócio torna-se uma intensa ocupação: passo a olhar as conversas informais como importantíssimas reuniões onde pessoas com variado conhecimento discutem e fazem propostas desprovidas de interesses – que acredito, são muito mais úteis para nossa organização social.

Na última sexta presenciei uma séria discussão na padaria, perto do trabalho: o dono (português) questionava o alto preço do feijão relacionando o fato com a baixa produção do gênero por conta da seca no nordeste. O chapeiro interveio, dizendo que não era só isso, e que a produção de biodiesel fez aumentar o preço dos produtos que agora são preteridos para dar espaço à produção da matéria prima do combustível. Um outro atendente confirmou as palavras do chapeiro lembrando a ostensiva produção de cana de açúcar. O português ficou inquieto e indignado. Agora uma pulga dividia com a caneta o espaço atrás de sua orelha. Disse: “mas se todos pensarem assim [em só ganhar dinheiro com o biodiesel], vai faltar alimento”. O atendente expôs a tragédia humana, mas numa conotação que se referia apenas aos brasileiros: “pois é, mas os caras pensam mais no quê?”

A realidade mostrou-se tão cruel que, mesmo sem ninguém pedir, fez-se um recesso. O analista colocou um hambúrguer na chapa; o historiador e filósofo seguiu para a máquina de frios; e o questionador gringo foi atender no caixa, na certa reavaliando a opção de ter vindo para o Brasil.

Meu lanche acabou e não pude acompanhar o final da reunião, pois havia outras reuniões me esperando... (as quais serão relatadas neste espaço).
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Enquanto vou anotando novas idéias, deixo como sugestão quatro vídeos do quadro "vozes das ruas":
retirado do site de um programa que há muitos anos procura lembrar às pessoas que existem na vida outros, diversos outros, espaços e cenários possíveis: Provocações

2 comentários:

Vives disse...

O link pro Provocações deu "not found" aqui. O programa do Antônio Abujamra, se bobear, é o melhor que já apareceu na história da TV brasileira.

Pula o Muro! disse...

Valeu Vives,

Falha corrigida! Agora já é possível ver os vídeos desse q é, sem dúvida, um dos melhores programas da TV.

Abraço!