sábado, 10 de outubro de 2009

O medo pós-moderno

por Leonardo André



Os costumes introjetaram-lhe limites, ensinaram-lhe como ser um fulano respeitável e, para tanto, você foi educado com muito esmero. Só não contavam que você corria sérios riscos de tornar-se alguém cheio de problemas, ansiedades, temores e desesperos.


– Quantos muros!


Por muito tempo esses malditos bons modos obrigaram-no a ficar quieto e sua espontaneidade foi assim asfixiada – e, para ser sincero, amigo, todos esses limites não condizem com seu espírito criativo. Te meteram um ego, depois um superego e desde então ambos modelam seu id. Te civilizaram. Atribuíram-lhe um emprego: gerar lucro. E te apresentaram o Conhecimento. Mas quantas coisas você desconhece! E por tamanha ignorância te induziram a respeitar aqueles, menos inteligentes do que espertos, que se dizem grandes sabedores das coisas. E que, por isso (ou para isso?) te sub-julgaram. Te disseram, sem usar palavras, para engolir essa tua ousadia inata. Ora, por quanto tempo a palmatória foi instrumento da sua educação? Por quanto tempo a carteira, na sala de aula, foi sua prisão?


– Calado!


Espera sua vez de falar (se tiver vez, esteja dito!). Pra você, o confessionário. Lá sim, era lugar para pedir perdão por seus desejos libidinosos, suas sem-vergonhices. O mais perfeito panóptico de todos os tempos, os olhos de Deus, enigmáticos e onipresentes, a fitarem-no na alcova e em todos os lugares; eis uma idéia assustadora. Por quanto tempo tem sido assim a sua vida? (Aliás, seria isso vida?) Quantas neuroses infligiram-no. Pensamentos formatados, sujeito normatizado, obediente às regras. Ah, mas hoje em dia as coisas já não são mais exatamente assim, nada mais é tão absoluto. Estão desconstruindo os discursos, como dizem. Os parâmetros que balizavam as ações cada dia mais esvaecem e com eles toda a segurança que oferecem. E justamente agora, que a farsa da perfeição começa a ruir; agora que os muros da certeza começam a cair; justamente nesse momento de libertação você vai ser tomado por um mal-estar súbito?


– Isso é hora de fraquejar?


De repente a obediência virou medo; medo do diferente; medo do desconhecido. Por que tanto medo, agora? O fato é que ainda somos divididos em clãs, tribos, aldeias; nosso planeta é povoado por índios high-tech, cuja barbárie é camuflada pela ilusão do esclarecimento científico. Nesse cenário o tradicional divide espaço com o moderno, com o pós-moderno, com o ultra-moderno... Tal é a dinâmica cultural em que vivemos, nossa condição, nosso destino como espécie, culturalmente múltipla e biologicamente única. Quanta cor de pele, quantas orientações sexuais, quantas manifestações culturais, quanta gente diferente... respeitar tudo isso é mesmo bastante estranho. É, meu amigo, você está com medo da liberdade (a sua e a dos outros), acostumado que é com as amarras. Tiraram seu chão. Muita coisa mudou nos últimos anos, o mundo se fragmentou. E toda essa fragmentação carrega em si o enfraquecimento das tradições e a relativização da Verdade e tudo isso desencanta seu mundinho colorido e feliz, botando no lugar um mundo feio, terrível e... REAL – dá-lhe síndrome do pânico, depressão, prozacs e mais prozacs. Não há para onde correr. Nem a família é mais como antes. Papai não mora mais com a mamãe; mamãe não abaixa mais a cabeça pro papai. O que fizeram com a sagrada família patriarcal?


– Quem está se sentindo inseguro levante a mão!


Mas que segurança é essa que você tanto procura se seu fim será tão trágico quanto o de qualquer outro? Viver é um risco, já deveria ter aceitado essa ideia. E sabe qual a saída? A especialização! Caberá a você, indivíduo, definir a sua própria especialidade e seu próprio lugar no mundo.


– Que friozinho na barriga, hein!?


Imagina só: de repente, perceber-se sozinho e obrigado a definir a si mesmo e, além disso, definir um caminho próprio em meio à multidão de desconhecidos.


– Anda, te vira, vá ganhar dinheiro!


‘Tá difícil? É, realmente arrumamos um processo bastante desgastante do ponto de vista psíquico, não?


Era liberdade que você queria? Então toma!



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imagem: Pula o Muro
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Um comentário:

Clau disse...

Caralho! Ops! Excelente texto...rs Diante do espetáculo da modernidade apresentando, só me resta bater palmas:clap,clap.clap. Brilhante!