sexta-feira, 18 de abril de 2008

Brasil e as heranças lusitanas

Reflexões sobre uma aula de Sociologia dedicada à Caio Prado Jr.

Nos idos tempos da colonização dos portugueses no Brasil, como nos diria Caio Prado Jr., Portugal era uma espécie de empório da Europa. E essa imagem dum empório europeu é ótima para entendermos o que era nossa metrópole e qual era função do Brasil no período colonial. E de certa forma, o que somos ainda hoje.

Essa idéia vem ao encontro de uma visão particular minha do Brasil como um fazendão danado de grande. Realmente um mundão velho sem porteira – país de território imenso, com mais de 8 milhões de metros quadrados. Se Portugal era um empório, então o Brasil era seu grande depósito além-mar.

Portugal, a padaria da esquina da Europa, aproveitou muito bem a maluquice de seus filhos aventureiros que se jogavam ao mar em embarcações de meia-tigela para longuíssimas viagens até o Brasil. Gostavam da aventura, mas não gostavam de trabalhar. Daí que somente administravam seu estoque tropical. O trabalho pesado quem realizava eram os escravos e, assim, na base do açoite (e de muita putaria), retiravam dessas nossas terras tudo que na Europa não se encontrava facilmente. Exauriram boa parte do solo e florestas tupiniquins pra abastecer seus vizinhos mais ricos com açúcar, algodão, café, ouro e madeira...

Mas o problema de Portugal é que lá existiam muitos portugueses católicos insolentes que preferiram estacionar no tempo, agarrados aos seus títulos nobiliárquicos. Essa espécie de entreposto europeu de produtos tropicais até que exerceu algum poder durante certo tempo, mas eles não tinham um exército decente que garantisse sua hegemonia comercial. Os joaquins e manuéis mantinham seu negócio à base de uma política de neutralidade no cenário político internacional. Não tardou até que, diante de tal fragilidade, a Padaria perdesse o monopólio que desfrutava: as nações mais espertas passaram por cima do velho empório embolorado. O Padeiro, ops, Dom João VI, correu pra se esconder no estoque de sua empresa arcaica, desembarcando no Brasil com uma patota de uns 12 mil fidalgos duma figa. Felizmente, ficaram bem pouco tempo por aqui.


A HERANÇA

Entretanto, o Brasil herdou o maldito estereótipo de estoque do mundo: estoque de soja, estoque de jogador de futebol, estoque de bunda e, pior, estoque de mão-de-obra barata, estoque de capitalista vassalo, estoque de político aproveitador e estoque de toda sorte de pessoas que buscam ganhar a vida sem fazer muito esforço. Por isso, por essas bandas, não há nada melhor que nascer rico ou conseguir um cargo político. Ainda hoje, nesse país, muita gente quer seguir a carreira de assessor ou secretário de políticos. O que não falta aqui são peritos em cultivar círculos de amizades influentes... Nesse fazendão, que é o Brasil, grilar terras e ser aliado da bancada ruralista/entreguista, é bão demais, sô.

O encanto pelo poder não é à toa; é resultado do sentido tomado por nossos colonizadores. Pros poderosos a Lei não tinha antes, e nem agora, muito significado. É assim: aqui, quem tem um bom advogado e boas influências é quase inimputável.

É essa herança que precisamos discutir. Até que ponto esse espírito aristocrático ainda está presente nos dias atuais? A fidalguia é mesmo a pedra fundamental da sociedade brasileira? Ou essa triste característica é apenas mais uma pedra no nosso caminho? Estas são questões que envolvem nossa complexa relação entre fatores sócio/culturais e político/econômicos; nossa eterna crença numa inevitável dependência dos países desenvolvidos, como se tudo isso fosse mesmo nosso destino. Tarde demais já é... mesmo assim precisamos fazer alguma coisa para livrar-nos dessa herança maldita.

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As ilustraçõs utilizadas nesta postagem foram copiados do wikipedia.

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