terça-feira, 22 de abril de 2008

Elogio da Loucura e Crítica à Civilização

Há pouco tempo, lendo o Elogio da Loucura, de Erasmo de Rotterdam, obra escrita em 1508, um trecho me chamou a atenção como uma metáfora para nossas atitudes em relação aos valores e regras do mundo “civilizado”. Dizia a Loucura, ao tratar do culto aos santos em comparação a ela:

’Mas, direis, ninguém faz sacrifícios à Loucura, ninguém lhe erige templos’. Como já vos disse, fico um pouco surpresa com tanta ingratidão; mas minha bondade natural faz que eu não dê muita importância a isso. Aliás, não tenho motivo de sentir a falta desses sacrifícios. Um grão de incenso, um pedaço de pão, um bode, um porco, poderiam todas essas oferendas adular-me, eu que recebo dos mortais da terra inteira um culto que os próprios teólogos sustentam com todo o seu poder? Não pensais, certamente, que invejo Diana pelo sangue humano derramado em seus altares. Não, não: acredito meu culto bem estabelecido quando vejo em toda a parte os homens levarem-me em seu coração, representarem-se por seus costumes, exprimirem-se por sua conduta.

Há muito poucas divindades, sem excetuar mesmo os santos cristãos, a quem se presta um culto tão sincero. Uma quantidade de gente acredita, por exemplo, honrar muito a Virgem queimando, em pleno meio-dia, uma pequena vela diante de uma de suas imagens. Como são poucos, ao contrário, os que procuram imitar sua castidade, sua modéstia e seu amor pelas coisas espirituais e divinas! Seria esse, no entanto, o verdadeiro culto, aquele que agradaria infinitamente a todos os habitantes do Olimpo e do Empíreo.

E que necessidade tenho eu de um templo? O universo inteiro, onde sou honrada incessantemente, não é um templo bastante magnífico? Se houvesse um único lugar na terra onde eu não tivesse adoradores, esse lugar não seria habitado por homens. Não acrediteis tampouco que eu seja bastante tola para desejar imagens ou estátuas; sei o quanto essas coisas prejudicam um verdadeiro culto. As pessoas estúpidas e grosseiras adoram a estátua em vez do santo, e estamos então na situação dos que são suplantados por seus agentes. Todos os mortais, mesmo que não o queiram, são outras tantas estátuas, outras tantas imagens vivas que me representam ao natural. Não tenho portanto motivo de invejar às outras divindades a honra de serem adoradas, em certos dias, nesse ou naquele lugar da terra. Que Febo seja honrado em Rodes, Vênus em Chipre, Juno em Argos, Netuno em Tarento, Píapo em Lâmpsaco, que me importa, contanto que o universo continue sempre a oferecer-me a todo instante vítimas bem mais preciosas que as imoladas nos altares dessas divindades?”
p.73-4

A partir desta imagem, que de cara já testemunha contra os rituais religiosos – e em particular com os rituais cristãos, com seus santos recobertos de uma pureza desumana – veio à minha mente a insana comparação com as nossas instituições. A Igreja já está criticada. Mas a escola, o nosso Poder “Público”, e mesmo as relações profissionais – e poderia também citar a família, porém não quero correr o risco de uma generalização absurda, além do que me faltaria fôlego para esta polêmica - podem também serem vistas deste modo.
Algumas questões podem ajudar a compreender o que quero dizer: o professor realmente acredita em seu potencial de educar e valoriza sua resposabilidade na formação de indivíduos? Os pais e alunos realmente acreditam na educação que é transmitida? O Poder Público zela pelo público? Aliás, ele é realmente público? As multinacionais e grandes empresas enxergam seus funcionários realmente como "parceiros" ou "colaboradores"? Os "parceiros" acreditam na parceria?
E mais: para que criamos estas instituições? Para que delegamos tanto poder a elas? Por acaso acreditamos neste poder? Qual a relação entre a utilidade e/ou finalidade teórica delas e suas utilidades reais? Assim como os santos no altar, aí estão elas, apenas como a imagem de um ideal, revestindo quem a comanda de uma áurea que o torna superior, transcendendo os próprios valores que representa e os quais, de forma vertical, são inculcados em toda a gente.

Mas não nos enganemos, por favor. Pois apesar de dizer amém aos templos e seus santos, estou para conhecer quem os seguem de fato ou cumprem as regras/mandamentos. O ritual é feito, cotidianamente, sincronizadamente.

Mas e aí: somos todos loucos? Nossas criações são desumanas?
É, pensando bem, creio que todos somos um tanto loucos mesmo, pois criamos regras para desrespeitá-las. Falamos com paixão de Liberdade, Democracia, mas o que são este amontoado de regras e valores se não formas de controle?

Entendam, não estou defendendo a ausência de valores, regras, ou o que quer que seja. Mas vejo tudo isso como ideais inatingíveis. E o que mais me intriga: por que é que se continua dizendo amém a algo que não se acredita? Por outro lado a Loucura, muito consciente, mostra no trecho citado acima que mesmo com os altares e templos dedicados aos santos, ninguém os segue de fato; e que, ao contrário, mesmo que não se dediquem templos e ninguém assuma segui-la, todos a representam em seus costumes, em suas condutas.
Como pode ver, só tenho dúvidas - e muitas!

4 comentários:

Acid disse...

ÉÉÉ... estamos na época em que as máscaras já não se sustentam mais... a não ser pra quem insista em ver o mundo pelos mesmos óculos.

Janos disse...

Olá, legal o blog

Visite o site de crítica à civilização:

http://largue.wikispaces.com/
Largue

waldiney disse...

Esta éa realidade louca do nosso mundo! A hipocresia e a falta de reflexão ainda reina sobre a humanidade!

Anônimo disse...

Olá. As suas dúvidas resumem-se numa confusão boba que as pessoas fazem entre o ideal e o real. Pelo que li, você já começou a perceber essa confusão e a criticá-la. Para entendê-la por completo, eu gostaria de lhe dizer o seguinte:

1. Querendo ou não, quem INICIOU a construção e a disseminação do conhecimento ocidental foram os filósofos gregos principalmente. E eles concebiam o ideal (objeto de uma idéia, só encontrado no pensamento) como oposto ao real (o que existe de fato, na experiência, no mundo).

2. O IDEAL só existe como modelo para GUIAR nossas ações e pensamentos. Ele NUNCA será alcançado ou realizado plenamente, pelo simples fato de que ele não é real. Os modelos ideais servem para dar ordem à vida humana. Retirá-los é jogar tudo ao caos.

3. Os intelectuais que estão no controle não esclarecem o povo sobre isso e lhes transmitem uma falsa noção do ideal. Falam como se fosse possível alcançá-los e por isso o povo se martiriza tanto tentando realizar o ideal, o que é impossível. A igreja, a mídia e o estado se aproveitam desse sentimento de "falha" do povo quando este não consegue alcançar o ideal e o controla e o explora.

4. Se soubessem dessa distinção não precisariam se sacrificar nem adorar estátuas e modelos imaginários, mas aprenderiam a acreditar mais em si e teriam consciencia de unidade racial.

Para finalizar, sou estudante de filosofia e gostaria que vc avaliasse o que eu escrevi. Desculpe ser extenso demais para um comentário. Envie a sua crítica para o meu e-mail: hailton_50@hotmail.com

Obrigado, abraço a todos