quarta-feira, 13 de maio de 2009

É hora de um neo-abolicionismo?

Não preparamos nenhum texto para este 13 de maio, mas resolvemos (re)publicar postagem de 02/04/08 (que teve boa repercussão) para trazer de volta a reflexão.
.
.Por Leonardo André


Em treze de maio de 1888 a princesa Isabel assinou a famosa lei Áurea, decretando a proibição da propriedade de um ser humano por outro ser humano em solo brasileiro. Ganhou, a princesa, papel de destaque na História de nosso país, tornando-se uma espécie de mito da libertação dos escravos.


Qualquer aluno em algum momento da vida escolar é instado a decorar o nome dela e a data de seu feito. Entretanto, o Abolicionismo foi um movimento muito mais complexo do que essa fórmula prática de ensino pode aparentar.

Joaquim Nabuco era ainda jovem quando publicou O Abolicionismo em 1883. Era filho de uma família tradicional de Recife, ligada a economia açucareira. Portanto, como não poderia ser diferente, tinha fortes ligações políticas – pai e avô ocuparam funções de deputado, senador entre outros. Joaquim Nabuco, além de jornalista, tinha costas quentes e ótimas referências na burocracia, o que lhe abria muitas portas.

Contudo, o que lhe rendeu prestígio histórico foi ter sido militante da causa abolicionista. Trabalhando como correspondente do Jornal do Comércio em Londres, encontrou tempo suficiente para escrever o que chamou de “livro de propaganda política sobre a emancipação”, com objetivo de tornar a escravidão uma coisa odiosa perante a opinião pública. Percebeu a necessidade de lutar contra todo um aspecto cultural brasileiro que via a posse de escravos como coisa normal, como se comprar um ser humano fosse o mesmo que adquirir maquinário industrial.

A obra O Abolicionismo é uma síntese de uma dura luta que culminou com o famoso autógrafo da princesa, já às portas do século 20. Joaquim Nabuco deixa claro nesse livro, até não restar dúvidas, o tamanho da vergonha que era para o Brasil o escravismo.



"Já existe, felizmente, em nosso país, uma consciência nacional - em formação, é certo - que vai introduzindo o elemento da dignidade humana em nossa legislação, e para a qual a escravidão, apesar de hereditária, é uma verdadeira mancha de Caim que o Brasil traz na fronte".

A Abolição, porém, não trouxe à sociedade brasileira a transformação que Joaquim Nabuco esperava. É certo que pouco mais de um ano depois, conseqüentemente, o Império veio abaixo e, a partir daí, foi aberto o caminho para que se desenvolvesse o Brasil Moderno. Democracia e trabalho assalariado - aí sim, tudo de bom!

De fato, o que ocorreu foi o desaparecimento da figura do escravo. A péssima imagem que a escravidão emprestava ao país foi apagada. Mas como ficou a relação entre senhor e escravo, depois que assumiram os papéis de capitalista e proletariado ou, numa linguagem mais atual, de patrão e empregado?

Ao longo dos 130 anos, da Abolição até os dias de hoje, a República foi marcada por ciclos, digamos, sinistros (café-com-leite, ditaduras varguista e militar etc.) o que antes era escancarado – a escravidão – passou a ser dissimulado. Mesmo a democracia tendo levado um operário sindicalista ao cargo mais importante do executivo nacional, o trabalho aqui ainda gera salários irrisórios. Aboliu-se a escravidão, mas a ganância do senhorio ainda se faz presente. O povo ganha mal e ainda é taxado de “folgado” por não dedicar-se ao trabalho. A esmagadora maioria da população recebe dos senhores modernos salários insuficientes para uma vida minimamente digna. Daí que hoje o trabalho não é visto com bons olhos; peão que dá um trampo é o otário que se mata pra receber uma merreca no fim do mês. O resultado disso? Um deles, eu diria, está refletido no nível altíssimo da violência no Brasil. Roubar rende mais que trabalhar.

Joaquim Nabuco foi um nome importante no movimento abolicionista, que mobilizou a opinião pública em torno de uma situação limite. A figura do escravo explicitava a escravidão, o que, de certa forma, facilitou tal mobilização. Hoje, vivemos outro grave problema. Atualmente, a violência reflete a extrema desigualdade social, porém a complexidade do mundo ultra-moderno e a falta de um ícone tal qual o escravo de outrora ofusca o óbvio: a incapacidade da opinião pública em perceber o que está por trás da realidade em que vivemos.

Precisamos unir os mais variados segmentos da sociedade brasileira à favor de um neo-abolicionismo, de um movimento tal qual o abolicionismo de Joaquim Nabuco. Assim como esse grande nome do abolicionismo, precisamos tornar a desigualdade social brasileira a vergonha nacional a ser eliminada, a meta a ser compartilhada por todos aqueles que entendam seu papel de cidadão.

_________________

+ Baixe O Abolicionismo de Joaquim Nabuco clicando [aqui]

***

Nenhum comentário: