sexta-feira, 4 de abril de 2008

Só leia se tiver tempo.

Qual a importância da filosofia nos dias de hoje? Parece-me que a filosofia está restrita ao meio acadêmico, e mesmo assim, com valor apenas para as Ciências Humanas, e ainda assim, fragmentada em “correntes de pensamento” e/ou “escolas filosóficas”.
No dia-a-dia então... Se você citar a palavra filosofia para um amigo seu, um colega do trabalho, provavelmente ele soltará uma risada, fará uma piada, lançará um olhar de incompreensão ou, se quiser parecer mais sério, lançará mão do termo “filosofia de vida” – na certa evocando elementos extraídos de um livro de auto-ajuda ou de dinâmicas motivacionais.

Mas não é exatamente disto que quero tratar, mas sim do olhar filosófico. E “olhar” é a palavra certa! Olhar remete a contemplação (olhar a fundo), e para contemplar é preciso tempo, e tempo é o que não temos hoje.

Filosofando, eu diria que o Homem criou tanta tecnologia, desenvolveu tanto os meios de produção e de comunicação que ele mesmo não tem tempo para desfrutar de tudo isso, e menos ainda de absorver tanta informação. As notícias nos chegam a todo momento, de todo lugar e (por isso) instantaneamente desatualizadas. É, o nosso tempo não é mais o do “dia anterior” ou do “presente”, é o do “minuto posterior”.

Sobre os meios de produção – e aqui falo de uma maneira muito abrangente – acabamos recorrendo à especialização, que é o mesmo que a fragmentação do conhecimento.

Conseqüência disso é que não se tem mais a visão de todo o processo de produção das coisas. E sem essa compreensão, sem a noção do movimento do mundo – incluindo aí suas variações de ritmos de vida – nos tornamos também cidadãos fragmentados, incompletos.

Pois então pergunto: onde cabe o filósofo nesta sociedade? Não como mero teórico, mas como agente.

Alguns poderão dizer que não há mais espaço para estes “vagabundos” que passam a vida a pensar. E há aí um raciocínio lógico, pois estamos no tempo da não-contemplação. Ouvia algo semelhante quando, trabalhando num banco e fazendo faculdade de Ciências Sociais, me perguntavam em forma de piada: pra que serve um sociólogo?

No entanto, não seria de grande valia ter quem se debruçasse em nossos mais cotidianos problemas? Que investiga a fundo as origens destes problemas, seus desdobramentos etc?

Os dias atuais também são os da solidão, e esta também é outra contradição: quanto mais se ampliam os canais de comunicação e se encurtam distâncias, mais raros são os contatos (isso até me lembra o samba do Paulinho da Viola: Sinal Fechado). Creio que os psicólogos façam às vezes dos filósofos hoje. Mas isso é a maneira individualizada e clínica de olhar os fatos. Talvez, também por isso, não consigamos resolver nossos problemas coletivos – coletivamente.

Dê tempo ao tempo, observe ao seu redor, pense nisso. Se você leu este texto até aqui, é prova de que consegue. Por que tanta pressa? Pra onde estamos correndo?

Um comentário:

Anônimo disse...

Com certeza se dedicássemos um pouco do nosso tempo para "pensar", ficaríamos, no mínimo, instigados a querer saber o porque do processo de várias coisas que estão, em muitos casos, tão intimamente ligadas ao nosso cotidiano (religião, política, trabalho, cultura, etc).
A proposta do "olhar filosófico" nos daria respostas, mesmo que na forma de "correntes de pensamento" ou "escola filosófica", para entendermos o porque de nossa falta de tempo. Essas respostas poderiam vir pura e simplesmente na forma de abstração (hummmmmmmm) ou através do materialismo histórico tendo com pano de fundo a luta de classes (hehehehehehehe), ou mesmo através de uma nova proposta filosófica séria (quem sabe?).
Bom texto!
Abraços.
João Paulo Fagundes Ledo