segunda-feira, 23 de junho de 2008

Falar sem dialogar

Como a Mídia pode transformar a vida num reality show

No dia 29 de março deste ano a garota Isabella Nardoni é barbaramente assassinada. Com apenas cinco anos foi jogada da janela do sexto andar do prédio em que residia. Antes mesmo de conhecer os detalhes do caso, o pai e a madrasta da vítima já haviam sido julgados. O poder da mídia está refletido em cada uma das pessoas postadas em frente ao prédio gritando palavras de ordem, pedindo a cabeça do casal suspeito. Por mais de um mês os meios de comunicação, em sua maioria, não trataram de outro assunto. Entretanto, outro caso rompe o estado de hipnose em que se encontra a opinião pública. Um astro do futebol brasileiro envolve-se em um episódio embaraçoso com travestis em algum motel do Rio de Janeiro. A mesma mídia que em 2002 elegia o herói do penta, exemplo da persistência do povo brasileiro (que não desiste nunca), recuperado de grave lesão no joelho cerca de um ano antes de tal conquista, agora estampa em primeira página a foto de Ronaldo, o Fenômeno, desta vez no papel de alguém cuja conduta é um mau exemplo moral, mesmo sem saber o que de fato havia ocorrido.

Todos os citados até aqui tiveram suas vidas expostas como se participassem de um reality show. A mídia encarregou-se de transformá-los em mercadorias assim como faz com os brothers e sisters do BBB. No entanto, por outro lado, condenar a mídia por alimentar a sociedade do espetáculo pode ocultar outros fatores relevantes quando falamos no poder dos meios de comunicação. A mídia, como o próprio nome diz, é um meio: de um lado estão os produtores, do outro estão os consumidores. É bom lembrar, as empresas de mídia, assim como qualquer outra empresa capitalista, buscam o lucro e para isso produzem aquilo que seus clientes necessitam... ou desejam. O poder da mídia, portanto, é proporcional ao valor que os espectadores emprestam a ela.

O caso da menina Isabella, assim como o de Ronaldo, são iguais a tantos outros casos que diariamente alimentam a avidez dos espectadores por histórias que preencham um certo vazio existencial. Sendo assim, como conviver em meio ao excesso de informações ao qual estamos submetidos atualmente? Não há uma resposta fácil, porém, se a mídia corresponde a uma demanda, fica claro que precisamos prestar especial atenção não apenas àquilo que nos é informado, mas também ao porquê de certos assuntos estarem sempre retornando às manchetes.

Sem um olhar crítico a mídia pode falar muito e, mesmo assim, não dizer nada. Portanto, o problema não está na quantidade de informações, mas no consumo irrefletido de qualquer assunto. A mídia fala, mas não cria diálogo. Em meio a inúmeros problemas sociais, temas importantes para a sociedade ganham caráter efêmero, ou seja, temas relevantes sobrepõem-se uns aos outros sem que sejam devidamente digeridos pela sociedade. O assassinato brutal de uma criança pelas mãos do próprio pai ou as razões que levam uma pessoa mundialmente reconhecida pelo seu talento a buscar prazeres no submundo da prostituição (e acabar extorquido) são fatos que acabam sumindo da mídia sem que haja uma reflexão profunda que, talvez, evitasse muitos outros casos de igual gravidade.

Se é tão difícil separar sujeito e sociedade é porque há um pouco da sociedade em cada sujeito e um pouco de cada sujeito na sociedade. Não é por outro motivo que somos atraídos pelo noticiário. Aquelas informações têm a ver com nós, com nosso cotidiano e com as pessoas com as quais convivemos direta ou indiretamente. A sociedade nos dá os parâmetros através dos quais é possível entender quem somos.

Como diz Maria Rita Kehl, “o pensamento talvez seja o selo que distingue a espécie, e a atividade de pensar garante que cada sujeito pensante seja um homem, e não outro animal qualquer. É por isso que o contato com a mídia não deve ser passivo, caso contrário nos tornamos reféns de imagens que mimetizam o status quo e nos induzem a ser qualquer coisa que os produtores de informação nos vender, como se fossemos belos animaizinhos adestrados e domesticados. Porém, o ser pensante diferencia-se enquanto reflete sobre a realidade que lhe infundem e decide que tipo de imagem quer passar perante a sociedade. É essa capacidade, algo cada dia mais raro, que tentamos “vender” ao produzir esse artigo.

_________

Referências:

KHEL, MARIA RITA. Visibilidade e espetáculo. In Videologias: ensaios sobre a televisão, Boitempo editorial, 2003.

***

Nenhum comentário: