quarta-feira, 18 de junho de 2008

Pichação: arte ou não? - parte II

Leonardo André

Pixação é uma coisa que eu nunca pratiquei. Uma das razões é que sempre preferi evitar situações tais como tomar tapa na cara de gambé e ter a cara pintada com o próprio spray. Mas morador da periferia e suburbano convicto como sempre fui, tive muitos amigos que rabiscavam muros. No convívio, aprendi a decifrar o que aquela sujeira queria dizer.

Lembro que há uns 10 anos atrás tinha até um ídolo, LIXOMANIA, assinado por Zé, quem nunca conheci. Eu fui officeboy por pelo menos uns 4 anos da minha vida e em todo lugar da grande São Paulo que eu ia, com envelope debaixo do braço, encontrava uma pixação desse sujeito. Lembro também que passava pela rua Xavier de Toledo, na entrada da estação Anhagabaú do Metrô e via a mulecada reunida no pico, trocando pixo nas agendas. Coisa de muleque mesmo, que só tem dinheiro pro busão e olhe lá. 
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Fato é que muros seguem servindo de suporte pro intelecto humano, desde os tempos das cavernas até o atual estágio ultra-moderno em que vivemos. Antes pintura rupestre; agora arte urbana. Sei que pega mal com proprietários de muros, mas esse vandalismo sempre me fascinou. E sabe por quê? Porque São Paulo é uma cidade viva; muros pixados revelam a vida que pulsa mesmo quando a cidade dorme. Por menos oportunidades que as pessoas tenham, sempre há uma escapatória, sempre há uma saída, sempre há uma forma de se fazer presente, mesmo que seja através do incômodo sujar de paredes.
E a sensação de incômodo é o princípio ativo de toda arte que se preze. O misterioso Hakim Bey, o profeta do caos, explica em seu livro Caos, terrorismo poético e outros crimes exemplares, o que ele chamou de Terrorismo Poético:
“...faça-o para aquelas pessoas que não perceberão – pelo menos não imediatamente – que aquilo que você fez é arte. Evite categorias artísticas reconhecíveis, evite politicagem, não argumente, não seja sentimental. Seja brutal, vandalize apenas o que deve ser destruído, faça algo de que as crianças se lembrarão por toda a vida, mas não seja espontâneo, a menos que a musa do Terrorismo Poético tenha se apossado de você. Vista-se de forma intencional. Deixe um nome falso. Torne-se uma lenda. O melhor Terrorismo Poético é contra a lei, mas não seja pego. Arte como crime, crime como arte...”

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O último post rendeu uma indicação por parte do Panóptico de um livro (livre para download) organizado por Boleta, um dos pioneiros dessa parada de pixação. Trata-se de TTSSS... A GRANDE ARTE DA PIXAÇÃO EM SÃO PAULO. Baixe o livro clicando na imagem abaixo.

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2 comentários:

panoptico disse...

bons tempos quando a cidade dependia dos office boys e seus fliperamas. Hj depende de motos e viaturas de resgate.

Ney Braga disse...

Certíssimo, muito nostálgico, qdo a pixação tinha glamour...KK

Yeah