sábado, 21 de junho de 2008

Pichação: arte ou não? - parte III

Leonardo André

As duas últimas postagens, dedicadas à ação dos pixadores, me fizeram lembrar que o caso dessa “tribo” urbana serviu para ilustrar uma reflexão sobre o tema “Cultura e Sociedade” que escrevi para a disciplina de Antropologia no meu curso de pós-graduação. Nesse texto tentei argumentar que Cultura é uma característica propriamente humana a qual se manifesta das mais variadas formas e que, assim, não deveríamos falar em culturas, mas em manifestações culturais, pois cultura não é privilégio de grupo nenhum. Segue um trecho desse trabalho.

As manifestações culturais
De fato, à medida que as informações [através do gigantesco desenvolvimento dos meios de comunicação] tornam-se mais acessíveis, tomamos contato com as mais variadas manifestações culturais. Mais importante, porém, que essa aproximação, é o intercâmbio cultural acarretado em decorrência desse cenário. Nesse ponto, quando há intensas trocas de caráter cultural, fica ainda mais evidente a riqueza da cultura humana.
Uma maneira de apreender a magnitude dessa riqueza é aproximar-se de determinado arranjo cultural e tentar compreender sua dinâmica por mais “estranha” que pareça, seja uma tribo indígena ou determinado grupo de jovens urbanos. A rua, por exemplo, é o espaço de diversas manifestações culturais. Entre diversas manifestações culturais urbanas podemos destacar o fenômeno das pichações, essas inscrições que estamos acostumados a ver pelos muros da cidade.
Num primeiro momento esses rabiscos podem parecer apenas atos de vandalismo para quem não faz parte do universo dos pichadores. Mas para esses autores anônimos que deixam suas mensagens aparentemente confusas, o muro é o suporte através do qual comunicam-se entre si. E mesmo esse universo restrito pode abrigar diferenças, como as existentes entre a pichação e o graffiti. E tenha certeza que esses dois grupos não fazem parte do mesmo universo. Muitos grafiteiros já são reconhecidos como artistas pelo circuito “formal” de arte, enquanto os pichadores são vistos pela sociedade como essencialmente vândalos.
Uma análise mais próxima dessa ação, no entanto, pode revelar a intenção desses jovens em expor críticas sociais, ideologias próprias ou, simplesmente, buscar reconhecimento [por parte de seus pares] deixando suas marcas nos locais mais improváveis da cidade. Além disso, podemos questionar as origens dessa manifestação considerada vandalismo por alguns e, por outros, uma forma de expressão artística. Contudo, essa é apenas uma entre tantas outras manifestações culturais que têm na rua seu principal espaço de atuação.
Assim entendido, pixar não pode ser considerado pura e simplesmente um ato de vandalismo, pois trata-se da manifestação cultural de um grupo aparentemente excluído ou, ao menos, marginalizado. Vemos que o tema é um prato cheio para a Antropologia e, de fato, alguns trabalhos acadêmicos têm sido realizados sobre o assunto. Para aprender a “ler o muro”, indico abaixo alguns artigos a respeito.
Rede de relacionamentos e trocas é a principal motivação dos jovens pichadores é uma matéria de Flávia Souza para a Agência USP de Notícias citando a dissertação de Alexandre Barbosa Pereira, que destaca a importância da sociabilidade para os pichadores de São Paulo. Aliás, o mesmo Alexandre é citado em pelo menos outros dois textos que indico para quem se interessa pelo tema. O primeiro dele é Pixo, as marcas de SP de André Maleronka publicado no Overmundo, texto que destaca a particularidade da pixação paulistana. O segundo, na verdade, é um artigo científico de José Guilherme Cantor Magnani para a revista Tempo Social. O artigo intitulado Os circuitos dos jovens urbanos, apresenta os resultados de um trabalho sobre o tema dos jovens e suas práticas culturais e de lazer, redes de sociabilidade e relações de troca no contexto urbano da cidade de São Paulo. Há uma ótima descrição sobre os pixadores que vale a pena conferir. Infelizmente, a dissertação de Alexandre, intitulada De Rolê pela cidade: os pichadores em São Paulo não está disponível na net.
***

4 comentários:

Cristina Roseno disse...

vc é o alexandre???
te procurei por todo google academico!!! quero fazer tcc sobreo o assunto!!!

PuLa O mUrO disse...

Não sou o Alexandre não. Na verdade, tb procurei mais sobre o trabalho dele na net, mas infelizmente tb não encontrei.

Abraço!

Cristina Roseno disse...

oi!!! eu consegui entrar em contato com ele e ele me passou por e-mail a tese dele. ele foi muito simpático...

vc fez algum trabalho sobre o tema??

abraço!!

PuLa O mUrO disse...

Olá Cristiane,

Acho fascinante tanto o fenômeno da pixação quanto do graffiti.
Talvez pelo fato de São Paulo ser referência mundial no assunto.
Tem um livro sobre pixação no Brasil, bastante rico em fotos e textos chamado Graffiti Brasil - achei no site da Siciliano:

http://www.siciliano.com.br/produto/produto.dll/detalhe?pro_id=974813&ID=BD648FA47D80911111D221153&PAC_ID=24201&FIL_ID=102 )

Pra quem tá pesquisando o assunto esse livro parece ser bem interessante.

Infelizmente não tenho tido tempo pra pesquisar mais o assunto, já que meu objeto principal no momento é Educação (se tiver tempo, dê uma olhadinha também no www.identidadeemrede.blogspot.com - é um projeto q estamos desenvolvendo).

De qualquer forma, gostaria muito de ler o trabalho do Alexandre, pois parece ser bem aprofundado.

Você vai mesmo fazer seu TCC sobre esse tema?

valeu!