quarta-feira, 11 de junho de 2008

Sobre a atual Crise de Valores (a causa da causa)*

*O conteúdo da postagem foi enviado, por e-mail, ao autor do artigo comentado.

Em artigo na Folha de São Paulo, do dia 25/05/08, intitulado "Lamentável!", Antônio Ermírio de Moraes fez uma reflexão sobre [1] a divulgação do IDESP - Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo - que constatou a má qualidade do ensino público em São Paulo e sobre [2] a maior causa, do seu ponto de vista, para esta situação, que seria a deterioração do respeito humano. Por concordar em partes com esta reflexão passo a tecer algumas considerações sobre este tema crucial sobre o desenvolvimento da sociedade.

1. Sobre a má qualidade do ensino público paulista.
Considero que quatro motivos destacados no IDESP são suficientes para explicar a má qualidade do ensino público: 1) a falta de professores de matemática, física, química, história e geografia; 2) a ausência de interesses dos adolescentes pelos conteúdos ensinados; 3) a má gestão e o pouco envolvimento dos professores e dos diretores com a escola; 4) a precariedade das condições nas quais os professores são obrigados a trabalhar. Os critérios de avaliação são o desempenho dos alunos nos exames do SARESP e o fluxo escolar.
Sobre a primeira causa, eu acrescentaria a insistência em proibir as disciplinas Sociologia e Filosofia no ensino médio.

Sobre as outras três causas, creio que estão interligadas: O aspecto modificador do interesse e participação dos estudantes (causa 2) no conteúdo ensinado tem a ver com a tradução das informações trabalhadas na escola para o cotidiano destes estudantes. Como bem observou Gilberto Dimenstein, em artigo publicado neste mesmo jornal, no dia 13/04/2005, no caderno Cotidiano (Comunicadores do Futuro), se por um lado, a precária estrutura das insitutições públicas de ensino (causa 4) colocam limites ao aprendizado; por outro, a melhora na estrutura, com acesso as tecnologias, não é suficiente, por si só, para promover o aprimoramento do ensino. Isto requer uma participação ativa dos professores e demais profissionais envolvidos com a educação (causa 3). Diante das dificuldades, há que se tentar formas criativas para que o aprendizado não seja prejudicado. E isso parte de ações simples, a começar, por exemplo, pelo tratamento aos alunos. Por exemplo: há uma clara diferença entre escolas públicas e privadas. No ensino privado, a criança é chamada por nome e sobrenome, na pública por um número, de acordo com a ordem alfabética.
2. Sobre a deterioração do respeito humano.
Não colocaria este problema como a principal causa da má qualidade do ensino público, pois penso que a questão extrapola os limites da escola. Enxergo esta deterioração do respeito humano como uma crise de valores, a qual agrega aspectos morais (nas famílias), passando por aspectos educacionais (sobre o problema tratado no item anterior) e até mesmo de ordem econômica.

É fato que ha décadas o formato das famílias vêm se alterando. Hoje, é grande a quantidade de pais separados e, mesmo os que estão juntos, há o problema da falta de tempo, uma vez que homens e mulheres trabalham, ficando menos tempo com os filhos. Com isso, a educação que vem da família, que tem mais a ver com a formação individual da criança (formação de caráter, se assim posso dizer), fica prejudicada. Observo que, em muitos casos, os pais esperam que a escola os substitua nesta tarefa. A escola tem a função da educação para a sociabilidade. Isto é, ela deve ser um complemento da educação familiar, e NUNCA sua substituta. Como demostra o IDESP, atualmente o ensino público é de má qualidade, o que siginifica dizer que ele não consegue realizar nem o seu prórpio objetivo: a construção da cidadania, quanto mais substituir a educação familiar. Assim, temos que muitas crianças não recebem a devida atenção no lar (e aqui não estou criticando os pais, mas propondo uma reflexão sobre nosso atual modo de vida), e também não são devidamente educadas para a cidadania, na escola. Assim, já temos configurada uma crise de valores

Por fim, e como complemento, quero relacionar ainda um outro fator.
A partir de meados dos anos 1970, o Brasil entrou numa fase de abertura econômica, acompanhando o período de democratização. De forma mais intensa, verificamos nos anos 1990 a mudança no padrão de consumo dos brasileiros. Mais eletrodomésticos, mais carros, enfim, toda uma série de novos produtos passaram a fazer parte do horizonte da massa trabalhadora. Embora haja a disponibilidade destes produtos e dos novos padrões de vida, o acesso a eles ainda não é fácil. As pessoas não têm dinheiro para comprar os bens que, hoje, elas julgam necessários. Daí a grande quantidade de financiadoras, empréstimos etc, etc. Quando converso com pessoas mais velhas - com meu pai, por exemplo - sobre as dificuldades vividas na juventude, eles dirão que mesmo para as pessoas que vinham de outras regiões do país, rapidamente se conseguia comprar uma casa. Geralmente, as famílias eram constituídas por jovens de 20 e poucos anos, e já com casa própria. Hoje, as pessoas não conseguem sair de casa sem se endividar muito.

Quanto a educação, não foi dada a devida atenção, no sentido de formar cidadãos. Ou seja, os eforços ficaram concentrados na abertura econômica, e esqueceu-se da democratização. E sem cidadania não há democracia. E daí se fala muito hoje em crescimento, esquecendo-se do desenvolvimento. Ora, um país pode crescer, produzir mais e mais.... mas de que forma sua população está participando disso?

As novas gerações, desprovidas da educação básica - como foi colocado nos parágrafos anteriores - parecem ter incorporado este novo padrão de consumo como principal valor - na falta de outros. E pra isso fazem qualquer coisa. "Ser alguém" hoje, é TER!

Tenho reparado que essa deterioração do respeito humano tem como principal característica o que alguns sociólogos chamam de "coisificação". Isto é, ver-se como coisa e tratar os outros como coisa (objetos). Repare que isto independe de classe social, são aspectos que perpassam todas as camadas sociais.

3. Conclusão
Por todos estes motivos é que chamo essa deterioração do respeito de Crise de Valores. E coloco este problema como algo muito mais amplo, que vai além dos limites do ensino público. Creio que o ensino público ao mesmo tempo que agrava o problema com sua má qualidade, sofre também as consequências desta crise.

O debate, no entanto, é intenso. E deve ser mesmo, pois trata-se do maior problema para o desenvolvimento de nosso país. Abaixo você tem vários elos que trazem o artigo comentado, as repercusões e algumas ações alternativas. A discussão deve continuar e ampliar-se para toda a sociedade.
______________________________________

MORAES, Antônio Ermírio. Lamentável! In: Folha de São Paulo, 25/05/2008. Extraído do sítio Educação Já
Pula o Muro, 10.04.2008. A Educação vai de mal a pior
Ações alternativas:
Pula o Muro, 15.05.2008. Educomunicação

2 comentários:

Flávio de Miranda disse...

O Antônio Ermírio, lembro bem, fez uma propaganda na TVE em que dizia que o Brasil "deveria educar mais". Bem, ele, que é um dos reis do cimento do Brasil, bem que poderia por assim dizer, além de dedicar seu tempo aos hospitais, o que eu acho muito digno, dedicar um pouco, só um pouquinho de dinheiro, dinheiro do seu império, a educar, da maneira que creia a correta e em conformidade com o MEC, alunos carentes. Certamente seria um projeto que estimularia a educação nacional. O que eu quero dizer com isso? Antônio Ermírio, o sr. que é um grande executivo, FAÇA alguma coisa pela educação, invista, em vez de reclamar no jornal e na TVE.

Claudio Manoel disse...

Tínhamos uma família em que o homem trabalhava no seu projeto rural (mesmo que em terreno de terceiros: à meia, à terça ou à quarta); deste projeto, à medida do possível, participavam a esposa e os filhos, sendo estes educados no trabalho. A educação direta dos filhos era desempenhada pela mãe, sendo que o pai agia mais firme em questões mais complicadas. Professoras, na sua quase totalidade, desempenhavam suas funções como um sacerdócio!

Nossa mente girava dentro do ciclo anual de nossas principais colheitas, sendo administradas nossas necessidades em função do nosso proprio estoque de sementes e mantimentos.

A cultura era desenvolvida com disciplina e dentro do temor respeitoso de Deus e, em nosso círculo social, celebrávamos nossas principais vitórias sem desvarios, ou aconselhávamo-nos com os mais experientes e sérios as nossas principais aflições de espírito.

Mas...

Em duas guerras quase que consecutivas, mataram nossos pais ou nos devolveram os mesmos aleijados física e piscologicamente. Esta primeira macro ação contra a família abriu espaço para a segunda, mais fatal ainda.

Nossas mães tiveram de sair para buscar o sustento e, para tanto, criaram um tal "movimento feminista" taxando todo aquele que se posicionava contra essa atitude, de antiquado. Nossos pais, frágeis para lidar com essa mudança de paradigma, teriam realmente muita dificuldade em substituir a maneira carinhosa como nossas mães e professoras cuidavam de nós. Estava aberta a segunda porta para o terceiro golpe, mais contundente ainda.

Colocaram um rádio e depois uma tv dentro de nossas casas e, cada vez mais, passamos a ser "educados" por uma mídia administrada (em escala mundial) por poucos.

Tendo nossa mente horror à guerra, a mídia mundial passou então a nos empurrar "celebridades" que só falavam de amor e paz. Porém, não falavam do amor responsável e sem interesses, mas confundiram nossas cabeças com sexo.

Para afastar as consequências do sexo fora do casamento, criaram as pílulas anticoncepcionais e antibióticos poderosos. Aliás, normalmente os donos dos maiores laboratórios tinham e têm ligação com o pessoal da mídia. Este foi o quarto golpe contra a família e os valores morais.

Mas era necessário mais...

Como nós estávamos por demais envolvidos com nossos projetos de carreira academico-financeira, demos aos nossos filhos consoles (por que será que esse nome me soa tão familiar?) de jogos, PCs próprios, msn, orkut, etc. etc.
Na mente de nossos filhos, matar se tornou algo tão comum e banal. Nem é preciso lembrar que os que fabricam armas também são "sócios" do pessoal da mídia e dos laboratórios

Criamos uma lei (E.C.A.) mostrando a eles apenas privilérios, a mídia não fala de suas responsabilidades e, por fim, para concluir, foi imposta as tais séries continuadas. Bomba no final do ano? Nem pensar!

Nossos filhos já estão nos matando, e muitos de nós matando nossos filhos.

Aparentemente, o objetivo de quem planejou tudo isso foi alcançado.

MAS...

Leio em "Atos dos Apóstolos", Capítulo 17, verso 30 e 31:

"Porquanto tem determinado um dia em, que com justiça há de julgar o muindo, por meio do varão que destinou; e disso deu certeza a todos, ressuscitando-o dos mortos.