quarta-feira, 23 de julho de 2008

A nova estética da Mídia

Mais e mais pessoas estão aderindo à luta contra um sistema de mídia que tem deixado a sociedade civil no frio e no escuro. É uma batalha que Adbusters promete continuar.


Os últimos anos foram duros para pobre e velha televisão.
Os telespectadores que davam muita audiência para a televisão – pessoas entre 18 a 34 em particular - estão abandonando tal aparelho, optando muitas vezes por vídeo games e internet. Entretanto, aqueles que permaneceram leais à tevê não permanecem similarmente leais aos anúncios que a mantém como um negócio rentável, cada vez mais optando por vias não-comerciais tais como gravadores digitais, DVDs copiados, e (o horror dos horrores) downloads piratas.
Com telespectadores habituados ao lucrativo esquema anúncio-programa-anúncio, a televisão pode impor toda sua capacidade de sedução através dos 30 segundos convencionais das peças publicitárias. Porém, pela primeira vez em décadas, diversos mercados chaves testemunharam diminuições no gasto em tal modelo, fazendo com que o mercado buscasse programas evasivos, cuja linha argumentativa pudesse abranger suas marcas. O resultado: 15 minutos de cada hora de determinados programas televisivos nos EUA reserva-se a anúncios publicitários integrados. Isso sem falar os 14 a 22 minutos de cada hora dedicados aos intervalos comerciais convencionais.
Dada a incrível perca de credibilidade da tevê, em especial no caso do telejornalismo, é um tanto espantoso o quanto ainda sofremos com o debate incessante sobre se nós vivemos sob influência de “meios liberais” ou “meios conservadores”. Felizmente, nós podemos com segurança desconsiderar a questão de afiliação política da televisão, já que estamos nos aproximando rapidamente de uma implosão deste meio (no sentido mcluhaniano), o que torna a questão política irrelevante. Contudo, seja lá qual for o assunto tratado pela programação da tevê, a mensagem propriamente dita permanece a mesma. A mensagem transmitida, na verdade, é a própria televisão, esse aparelho engenhoso cuja principal função é capturar nosso olhar. Gradualmente, a programação está sendo guiada por uma finalidade singular, qual seja, exigir a exclusão de idéias divergentes entre si para funcionar eficientemente.
Adbusters começou, em grande parte, com o objetivo de afrontar o caráter destrutivo, auto-interessado e, às vezes, deliberadamente excludente deste sistema insano. Nós aprendemos, por exemplo, que os depositários das ondas radiofônicas permitirão que se divulguem os perigos das doenças cardiovasculares; entretanto, jamais permitirão dizer a verdade sobre produtos com gorduras trans em detrimento de seus principais anunciantes. Similarmente, é permitido estimular as crianças a praticarem mais exercícios físicos, mas nunca deve pedir-lhes que desliguem suas tevês para isso. Pode-se incentivar as mulheres a ignorar imagens produzidas pela indústria da beleza e a sentirem-se bem quanto aos seus próprios corpos – desde que algum cosmético esteja sendo vendido desta forma. E ainda, você pode falar sobre as mudanças climáticas, no entanto você não pode incentivar as pessoas a comprar menos coisas como forma de realmente poupar o meio ambiente.
Mas é possível que você nem se importe com tudo isso. Talvez você tenha desistido da televisão há muito tempo. Talvez você nem possua mais uma tevê. Para sua paz de espírito, pode ter sido uma boa decisão; entretanto, com uma estimativa de que exista cerca de 112 milhões de televisores somente nos EUA, não podemos ignorar o risco quanto ao apelo da televisão. Nas últimas décadas consideraram-se inauditos os níveis de consolidação das mass media. Hoje, os grupos por trás das redes de televisão são formados pelas mesmas pessoas e entidades empresariais que controlam a maioria dos jornais, estações de rádio, editoras, gravadoras, produtoras de cinema, agências de publicidade e sites de relacionamento. Os truques sujos que são utilizados para manter mensagens dissonantes fora do ar não são de forma alguma específicas da TV. Eles são conseqüências naturais do Estado corporativo, e eles serão empregados sempre que nós estivermos demasiado distraídos.
Não por acaso, mais e mais pessoas estão fazendo exatamente isso – aderindo à contínua batalha contra um sistema de mídia que tem deixado a sociedade civil no frio e no escuro, um sistema de comunicação social que tem sido ativamente promovido com altos custos sociais, culturais, políticos e ambientais. É uma batalha que Adbusters tem orgulho de encarar, inclusive com ações judiciais como o que move contra CanWest, um dos maiores conglomerados de mídia do Canadá.
O que está em jogo nesta luta não é apenas o acesso, mas a criação de toda uma nova estética para a comunicação social: um messier, espontâneo e imprevisível de energia, que promova a participação e a relevância social – um verdadeiro motor para uma mudança positiva. Se Adbusters obtiver sucesso nos tribunais, uma das primeiras manifestações dessa estética será estranhamente bem humorada – excitante, desafiadora, até mesmo um pouco perigosa – toda vez que você ligar a tevê na sua sala de estar, no lugar de uma antiga e moribunda programação completamente preparada por interesses particulares, voltados basicamente à lógica do lucro. Esta nova e estranha estética revelará de uma vez por todas que a televisão (tal como jornais, revistas e rádio, antes dela, e tal como a internet depois) é capaz de oferecer muito mais do que apenas vender o fetiche do consumo, e que ela pode proporcionar serviços de importância vital para a saúde da nossa espécie e da democracia. Além disso, estamos apostando que a tevê, como a conhecemos hoje, revelar-se-á como a porcariazinha infecciosa que é.
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O artigo original em inglês publicado no site da Adbusters pode ser lido [aqui]. Caso alguém com mais prática em tradução queira corrigir eventuais erros, por favor, sinta-se a vontade. Afinal, a tradução meia-boca foi feita por nós mesmos do Pula o Muro.
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