quarta-feira, 16 de julho de 2008

Da escassez ao luxo*

Verticalização das favelas, e não é Programa Habitacional!

O município de São Paulo hoje é considerado o mais forte e poderoso centro econômico do país, mas o status de potência não atinge a maior parcela da população economicamente ativa. Hoje o que vemos pela cidade é um cenário totalmente diferente, com desigualdade social, alto índice de desemprego e concentração de renda.


A realidade mostra a gravidade do problema, enquanto uns decidem se gastarão R$ 17 milhões na compra de um apartamento para morar, outros lutam para pagar financiamentos da casa própria que pode se estender por até 30 anos, ou então, para cravarem suas moradias em espaços cada vez menores e em situações cada vez mais precárias nas regiões periféricas da cidade.


A população de baixo poder aquisitivo tem se espremido nas áreas periféricas da cidade. Os números divulgados pelo CEM (Centro de Estudos da Metrópole) e pelo site da Habi-SP (um banco de dados inédito da Secretaria de Habitação sobre as favelas da cidade lançado neste ano), apontam para um crescimento populacional vertiginoso nessas áreas. Os números não são capazes de precisar o percentual de crescimento populacional (ou existe divergência nele). Para a superintendente de Habitação Popular, Elisabete França, o fato se explica da seguinte maneira: "A população da favela cresce mais porque o número de filhos que eles têm é maior".


Mesmo com o crescimento populacional nas favelas, a área de ocupação desse tipo de moradia encolheu. Isso fez com que o número de indivíduos por m² aumentasse e a distância entre as casas e barracos diminuísse. Isso eleva também os riscos de contaminação por doenças transmitidas pelo ar.



Segundo matéria intitulada “Saturadas, favelas se verticalizam em São Paulo”, publicada no dia 14/07 pelo jornal on-line Folha de São Paulo, as favelas estão crescendo em números populacionais, mas diminuindo quantitativamente. Segundo a própria reportagem, somente nos últimos 20 anos que esse tipo de moradia passou a fazer parte da realidade da Zona Leste de São Paulo. Antes, a maior parte das favelas se concentravam na Zona Sul em áreas de mananciais - hoje esse número não ultrapassa 50%.


Outro dado importante para a “diminuição” no número de favelas é a escassez de terrenos vazios na cidade. Para urbanistas e especialistas do segmento imobiliário, a população que busca por esse tipo de espaço, só obtém sucesso quando não interfere na especulação imobiliária. Fatores como esses tem feito com que pequenos “prédios” surjam nas favelas. Casas de 2 e até 3 andares estão sendo construídas, colocando em risco a vida dos próprios moradores. É o processo de verticalização nas favelas. As casas abrigam os donos, seus filhos esposas, netos e agregados.


Na contramão dessa realidade, surgem em São Paulo luxuosas fortalezas. Na edição do dia 06 de julho, o jornal Folha de São Paulo, publicou em sua revista uma reportagem intitulada “eles vão morar no shopping”. O lançamento conta com 9 prédios residências e 4 deles serão entregues esse mês. O projeto basicamente vende o conceito de agregar em um mesmo local, moradia, lazer, compras e trabalho. Para termos uma idéia do porte do investimento, os apartamentos custarão de R$ 2,0 a R$ 17,3 milhões.


Serão 275 apartamentos e os paulistanos que se dispuseram a desembolsar essa quantia no empreendimento Parque Cidade Jardim, localizado no mesmo complexo de um dos shoppings mais luxuosos da cidade de São Paulo - inaugurado no final de maio - poderão usufruir de serviços como spa, academia e um imenso parque de diversão, as vitrines do shopping. Em entrevista realizada com um os futuros moradores do condomínio, a maior justificativa dada por eles para realizarem o investimento, foi a necessidade de passarem menos tempo no trânsito e mais tempo com a família - muitos compraram também um escritório no complexo.


A arquiteta e urbanista Maria Lucia Refinetti Martins da FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo), crê que o conceito do projeto Parque Cidade Jardim pode corroborar com a questão da violência na cidade. Ela afirma, “se todo mundo se fechar em seus muros, a situação fora vai ficar muito pior”. Fico imaginando, por exemplo, os trabalhadores desse shopping luxuoso de São Paulo carregando as compras das madames até seus apartamentos pomposos – um dos serviços oferecidos pelas lojas. Provavelmente, muitos desses trabalhadores moravam vizinhos ao empreendimento, mas tiveram seus barracos comprados - através de acordos “amigáveis” - pelos empreendedores do shopping e foram “obrigados” a se retirarem do local, afinal de contas, seria impossível imaginar um shopping de alto padrão, com apartamentos que vão de R$2,0 a R$17,3 milhões, com condomínios de até R$ 3 mil por mês, cercado por barracos.


Talvez seja essa tendência mesmo, as pessoas se fecharem em suas fortalezas para trabalhar, estudar, se divertir e realizar suas atividades diárias. Enquanto a maior parte da população se aglomera em trens e metrôs para irem ao trabalho ou estudar. Esse tipo de solução pontual acessível a poucos só acirra as diferenças e evidencia o abismo existente entre as classes.


Será que merecem mais que a gente? Serão eles mais dignos? Da onde vem tanto dinheiro assim que a gente não enxerga? O que faz um pai comprar para cada filho, um apartamento de R$ 5 milhões?


São questões que provavelmente a gente nunca alcance as respostas. Mas tudo isso me faz compreender um pouco, o ódio e a raiva cultivada por muitos em relação a essa classe..._________
*Enviado por Beto Tristão

Referência:
- Revista da Folha. Edição nº 824 / 6 de julho de 2008. Matéria: “Moradia 4 em 1”.

3 comentários:

Anônimo disse...

A verticalização já existia. E mais, as favelas estão diminuindo também em área. Em 2000 somavam 31km2 na capital, já em 2008 eram 23km2 pelas imagens de satélite. A queda e inversão da migração de pobres também explica o fenômeno. Por mais que se verticalizem, há um limite, e se a área está diminuindo, uma hora tendem à desaparecerem. Nos últimos 15 anos, o Brasil pegou o caminho do desenvolvimento e isto também conta muito...

PuLa O mUrO disse...

Olá, anônimo.

Não seria assim tão otimista. Com a desigualdade que o país enfrenta (que, claro, não é de hoje) é muito difícil das favelas sumirem. A especulação imobiliária expulsa as pessoas de área habitadas "irregularmente" (há outras postagens em "movimentos" que tratam disso). Na verdade, as favelas não somem, mas se formam em outros locais, nas bordas da cidade ou nas cidades limítrofes. Aqui do lado leste, em Itaquá, Ferraz de Vasconcelos etc. Estas também estão superpovoadas.

Obrigado pelos dados. Realmente não sabíamos da diminuição do espaço ocupado pelas favelas na cidade.

Abraço!

Júlio Canuto.

Anônimo disse...

Só pra acrescentar Julio. O Seade fez um levantamento que apontou grande queda na taxa de fecundidade na capital nos últimos anos, e as quedas mais altas ocorreram na periferia. Segundo o instituto, isto é reflexo da queda da migração de pobres para SP, que tendem à ter muitos filhos. E mais, com a descentralização da indústria e os programas sociais, muita gente está voltando aos seus estados de origem. Por lá, o custo de vida e moradia são bem mais baixos do que aqui, e tendo emprego tudo se resolve... São 15 anos de crescimento em 4 gestões. Uma hora a coisa tinha que começar à melhorar... Falta muito mas a gente chega lá!