quarta-feira, 27 de agosto de 2008

O barato que sai caro - parte II

Abaixo, segue artigo extraído do site da Confederação Argentina da Média Empresa. Traz estatísticas que demonstram o impacto sócio-econômico provocado pela instalação de hipermercados como o Wal-Mart. Aqui o artigo está grosseiramente traduzido por nós. O original em espanhol, inclusive com gráficos, pode ser acessado através do link ao final do texto.


Na cidade de La Plata, as ações do Supremo impediram a instalação de um novo hipermercado.

"O Setor de Hipermercados não cria empregos e sim os expulsa"

Segundo o último relatório do "Inquérito dos Supermercados" emitido em 29 de agosto pelo INDEC o emprego caiu em junho deste ano em relação ao mesmo mês do ano passado cerca de 2, 7%, e até agora este ano cerca de 2%, mas o que esta a tendência demonstra em relação a junho de 2000 é que o emprego neste setor caiu 9,4%. Esta situação é agravada quando observamos que o número de pontos e área de vendas aumentaram, enquanto os postos de trabalho por 100 metros quadrados diminuíram mais de 22% em junho de 2006 em relação a janeiro de 2000.

"Wal-Mart não vai gerar 5.000 empregos"

Segundo a referida nota, a empresa prometeu 5000 postos de trabalho em 15 hipermercados. A partir de uma rápida análise do quadro acima é muito fácil perceber que isso é impossível. O número médio de empregados por estabelecimento, considerando pessoal de planta, administrativo e de gestão, em junho de 2006 foi de 58, 5 pessoas por estabelecimento. Mesmo admitindo que o Wal-Mart emprega o dobro da média, a conta seria menos de 1.800 postos de trabalho. Além disso, se a média atual é de cerca de um trabalhador para cada 25 metros quadrados da área de vendas de cada uma de suas 15 sucursais, deveriamos ter aproximadamente 8.350 metros quadrados. Isso daria mais de 8 hectares de locais de vendas! Não acreditamos nisso. É uma mentira, não haverá jamais 5.000 postos de trabalho.

Quaisquer estudos sobre a "produtividade" indicam que, num contexto de globalização dos mercados, o investimento é principalmente destinado a reduzir os custos em vez de aumentar o emprego, como aconteceu no período 1990/95 quando registrou-se aumento de aproximadamente 30% do PIB paralelamente aos indíces de desemprego mais elevados da história da Argentina E assim acontece atualmente com o ídice de crescimento da empresa batendo recordes mês após mês, sem que as taxas de desemprego decaiam em igual proporção.


"A perda de postos de trabalho pode chegar a 30.000"

É bem sabido que a instalação de grandes superfícies produzem diferentes tipos de impactos negativos: urbano, ambiental, cultural e também sobre o emprego. Um trabalho realizado em 1996 pelo Ministério de Produção e Emprego da Província de Buenos Aires lança resultados relevantes.

Segundo tal estudo, após um ano de instalação de dois novos hipermercados (Jumbo e Carrefour) no distrito de San Martin, desapareceram cerca de 30% das empresas locais, ou seja, aproximadamente 4.000 pequenos negócios nas proximidades. A zona mais afectada foi a de alimentos e bebidas (37, 8%), seguido por vestuário e outros serviços (de 19,6% em 14, 2%) (2).

O mesmo estudo estima em 8.000 o número de postos de trabalho extintos. Por outro lado considera entre 1.200 e 1.300 o número de pessoal incorporado ao Jumbo e Carrefour, de modo que o balanço apresenta um saldo negativo de cerca de 6.700 empregos. Nós estimamos que o número de empregados dessas empresas deverá ser substancialmente menor. Tendo em conta que em janeiro de 1997 (primeira estatística disponível no INDEC) 780 sucursais das duas cadeias de hipermercados empregavam 75.300 pessoas, temos cerca de 100 trabalhadores por sucursal. Os postos de trabalho no Jumbo e no Carrefour, se muito, em 1996 não deve ter atingido os 500, de modo que o impacto negativo no emprego deve ter sido ainda mais elevado, perto de 7.500 empregos.

Para além desta análise é estimado que para cada emprego que se gera em uma grande área perdem-se 6 no comércio local na mesma área de influência. Isto confirma o que afirmamos acima: 5000 empregos do Wal-Mart poderia significar menos 30.000 empregos nas províncias afectadas.

"O emprego no pequeno comércio local"

O boletim do INDEC contendo os principais indicadores do mercado de trabalho no segundo trimestre de 2006 dá-nos os seguintes detalhes. A sondagem de Junho de 2006, no que diz respeito à procura de trabalho, relatou 14.200 empregos a cobrir durante o mês de julho. O comércio com 27% ocupa o primeiro lugar dessa demandas, dos quais 78% são empregados em pequenas empresas de até 50 trabalhadores, 18% nas médias (de 51 a 200 empregados) e apenas 4% nas grandes (mais de 200 empregados). Isto indica claramente qual o seguimento com maior potencial em termos de criação de emprego. Isto, aliás, com um investimento mínimo, em detrimento das milionárias cifras anunciadas pelo Wal-Mart.



Mas, assim mesmo, é o comércio (e serviços conexos), o setor que mais gera empregos e que mais vende também no segmento das PME.

Isto demonstra claramente que o pequeno e médio comércio local é, e continuará a ser, a espinha dorsal da distribuição como acontece em todo o mundo desde a origem das cidades.

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Imagem: Consume Hasta Murir.
O artigo original em espanhol no site da CAME [aqui].


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Um comentário:

panoptico disse...

Lembrei-me como fiquei impressionado qd conheci Buenos Aires. No bairro de San Telmo, por exemplo, os cafés não impressionam só pela quantidade e pela beleza, nesses lugares ainda existem garçons.

Não são meninos e meninas subescolarizados e superexplorados que servem as mesas, limpam o chão, atendem o caixa e vão ao banco como no modelo norte-americano que importamos faz tempo.

Na maioria dos bares senhores servem as mesas com simplicidade e dignidade. Interessa a comida, a bebida e o atendimento. Café chama café e leite chama leite. Não há mocacafe lux ou coisas assim. Vc pode ficar quanto tempo quiser na mesa, ler o jornal do balcão etc.

Em alguns bairros vários cafés modernos já não têm o mesmo espírito e fica claro o perfil de atendente que procuram: o mais barato do mercado. No desespero do mercado quem vai dançar são todos, os jovens que precisam de um primeiro emprego e receberão trocados por isso, e os profissionais experientes que serão substituídos sem chances de recolocação.

Sendo o paradigma econômico que vivemos, se tudo der certo, a riqueza da diversidade dos bares e cafés será substituída por grandes redes que dominarão as esquinas Buenos Aires com suas luminosas lojas e nomes de lanches em inglês.