quarta-feira, 13 de agosto de 2008

O barato que sai caro

A busca por preços baixos pode esconder uma dura realidade: a velha e conhecida exploração capitalista do trabalho


As grandes corporações capitalistas são poderosas. E não é à toa. Bem organizadas e influentes no cenário econômico mundial desfrutam de grande poder. Homens de negócios gabaritados juntam-se em grupos e impõem seus objetivos, amparados pelo crédito que possuem no sistema financeiro internacional. Algo abstrato para simples mortais, que nem imaginam o que significa ter milhões na conta bancária.

As empresas dedicadas ao consumo massivo sabem que seus produtos ou serviços baseiam-se na necessidade da população. Seja qual for a natureza dessas necessidades, seus produtos serão consumidos. O “mercado” sabe disso. Há muito que aprenderam a vender o que você precisa e, principalmente, o que você não precisa. E pra vender produtos de consumo de massa, sabem que preços acessíveis são garantia de sucesso. Quanto mais buscam aumentar as vendas, mais baixam os preços. Parece bom isso, não? Mas saiba que não é. Não, não estou louco, vou tentar explicar.

Serge Halimi, em sua matéria Multinacional-Pesadelo, publicada no site da revista Le Monde, demonstra claramente como funciona esse sistema exploratório, chamado por ele de populismo de mercado. À custa de preços baixos como estratégia para atrair mais e mais consumidores, ele cita o caso da rede Wal-Mart como exemplo de empresas que reduzem seus custos internos para oferecer melhores preços aos seus clientes. Assim,

para que o cliente da Wal-Mart fique satisfeito, o trabalhador deve sofrer... Para que os preços da Wal-Mart e de seus terceirizados sejam sempre os mais baixos, é preciso também que as condições sociais se degradem à sua volta. E, conseqüentemente, é preferível que os sindicatos não existam. Ou que os produtos venham da China.

Como vemos, as mega-corporações empregam muitas pessoas, soldados não voluntários, recrutados num enorme exército de mão-de-obra barata – bem barata – e de reserva. Essa população excedente de trabalhadores alimenta o poder de barganha das corporações capitalistas. O “mercado” de trabalho diz:

- Se quiser ganhar esse salário que te oferecemos, beleza. Se não quiser, rapa fora. Igual a você existem vários, peça de reposição, engrenagem...

Engana-se quem acredita que a periferia dos centros urbanos é ignorada pelo “capital”. Muito pelo contrário, o “capital” sabe muito bem que é aí onde pode desfrutar ao mesmo tempo de mão-de-obra barata que, além disso, forma considerável clientela, e terrenos com valores muito atrativos. Esse tipo de estratégia também é bastante explorado no livro Sem Logo, a tirania das marcas em um planeta vendido de Naomi Klein. Segundo a autora,

A receita que tornou a Wal-Mart a maior varejista do mundo, rendendo US$ 137 milhões em vendas em 1998, é bastante simples. Primeiro, construa lojas com duas a três vezes o tamanho de seus concorrentes mais próximos. Em seguida, encha suas prateleiras de produtos comprados em volumes tão grandes que os fornecedores são obrigados a lhe vender a um preço substancialmente mais baixo do que fariam se você comprasse pouco. Depois cobre preços tão baixos em sua loja que nenhum pequeno comerciante possa sequer pensar em concorrer com seus “preços baixos todo dia”. (p. 157)

É assim que esses pequenos grupos de pessoas muito bem instruídas, visando lucro para si e para seus pares, determinam o que nós consumimos e o preço que pagamos. Está aí pra quem quiser ver, o preço social desse sistema é caro demais pra quem só tem a força de trabalho pra barganhar.

Porém, se o apelo ao consumo é forte, nós podemos ser mais. A vida não se resume ao consumo. Render-se a esses apelos é tornar-se escravo desses grupos que só querem nossa grana para continuar desfrutando de poder. Não devemos aceitar que pessoas que jamais conheceremos, determinem o que vamos comer, beber, vestir e até para onde vamos viajar. Sem chance!

Contudo, é importante reafirmar o poder que nós, consumidores, temos em nossas mãos, mas que costumamos menosprezar. O poder de alterar todo esse cenário de exploração e degradação social. Essas grandes cadeias possuem enormes reservas de dinheiro e por isso contam com a hipótese de que você jamais optará por alternativas “menos” vantajosas que os baixos preços que oferecem. Não contam, porém, com a formação de consumidores conscientes que reflitam sobre tais estratégias. Não contam, sobretudo, que o consumidor um dia passe a privilegiar a mercearia da esquina, o comércio local, que emprega nossos vizinhos, nossos amigos, nossos parentes e, às vezes, até nós mesmos. Pagando alguns reais a mais, podemos criar um ciclo virtuoso em que sabemos quem está sendo beneficiado por nosso consumo e, além disso, sabemos que amanhã o beneficiado talvez seja nós mesmos. Como vemos, é a cultura econômica que deve ser repensada: do macro para o micro, do global para o local. O poder também está em nossas mãos; e já está mais que na hora de entrarmos no jogo.

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A matéria Multinacional-Pesadelo de Serge Halimi pode ser lida [aqui]

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