quarta-feira, 10 de setembro de 2008

O barato que sai caro - parte III

ECONOMIA POPULAR SOLIDÁRIA: possibilidade de geração de emprego, trabalho e renda, e os desafios a serem superados
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Já faz algum tempo que diversos empreendimentos e serviços ligados à economia popular solidária vêm buscando conquistar espaço em diversas áreas do mercado econômico. A economia popular solidária tem em seus objetivos fundamentais a ligação em rede dos empreendimentos e, conseqüentemente, indivíduos que dela participam, enxergando nessas relações a possibilidade de uma nova proposta de integração social e, principalmente, inserção no mundo do trabalho. Em geral, várias propostas de trabalho associado, como formação de cooperativas e associações de interesse de grupos que não dispõem dos recursos econômicos para se estabelecerem, buscam possibilidades para comercializarem produtos e também venderem seus serviços através de uma espécie de união em rede que tem como essência movimentar a teia em que muitas vezes liga estes grupos em suas necessidades e problemas comuns.
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Pensando na possibilidade de geração de emprego, trabalho e renda a economia solidária nos mostra ter potencial e ser promissora para alcançar seus objetivos. Tendo em vista que a organização de grupos ou indivíduos para a formação de uma rede economicamente auto-sustentável foge dos modelos organizacionais dos chamados grandes conglomerados e seus tentáculos capitalistas globalizados (exploratórios ao extremo) e, mesmo fazendo parte de uma “engrenagem social” de mercado, possibilita não só o retorno financeiro para quem está envolvido (em muitos casos há famílias inteiras que retiram seu sustento desse modelo) como também possibilita que os sujeitos se incluam socialmente e passem a buscar novos horizontes em suas vidas.
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Muitos avanços relacionados à economia popular solidária têm sido notados de uns tempos pra cá, tanto no campo social, como também no político. Só para citar um exemplo destas conquistas, a Prefeitura Municipal de Santo André incluiu na agenda de sua Secretaria de Desenvolvimento e Ação Regional, através do Departamento de Geração de Trabalho e Renda, um espaço permanente para questões ligadas a economia popular solidária, sendo que isso independe de governo ou corrente ideológica (se é que ainda existe isso) que estiver no poder, pois, além de estar atrelado a uma secretaria, foi aprovada na segunda metade de 2008 uma lei específica que coloca a economia solidária como assunto permanente do executivo e legislativo do município. No campo social a cidade de Santo André também desenvolve já algum tempo trabalhos que estão consolidados e são considerados modelos no segmento da economia popular solidária, como o programa Central de Serviços Autônomos – CSA – que dá formação, orientação e encaminha para a realização de orçamentos e serviços profissionais autônomos que trabalham nas áreas da construção civil e governança residencial, sendo que, além de possibilitar uma oportunidade de geração de trabalho e renda. Mensalmente realiza reuniões de acompanhamento com os autônomos participantes do programa e, a cada dois meses, promove palestras sobre temas ligados ao cotidiano destes trabalhadores, como segurança no trabalho, PROCON, ISS, INSS, saúde do trabalhador, alcoolismo, entre outros.
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Apesar dos avanços, contudo, as dificuldades também se mostram de forma bem acentuada na busca de um tipo ideal, se podemos assim dizer. As grandes corporações capitalistas com seus conglomerados muitas vezes adentram campos onde alguns empreendimentos populares tentam ou já se encontram estabelecidos, sendo que isso provoca, na maioria dos casos, o desaparecimento de formas de trabalho que oferecem mais oportunidades de ganho e possibilidades de desenvolvimento pessoal, pois sabemos que as grandes empresas usam de táticas de barateamento de seus produtos, isso no primeiro momento, para depois “imperarem” no mercado, pagando salários que na maioria dos casos remetem o trabalhador a uma servidão quase que compulsória, pois é muitas vezes explorado ao extremo, sendo que seu salário na maioria dos casos é baixo, a jornada de trabalho altíssima e, em muitos casos, sem os direitos garantidos pela CLT.
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Voltando a questão da economia popular solidária, é muito importante que se busque formar redes entre grupos locais, tanto no nível do produtor e prestador de serviços que trabalha neste modelo, quanto com o consumidor. Digo isso por algo que chamou minha atenção recentemente. Aproximadamente no mês de junho de 2008, foi realizada uma pré-pesquisa com moradores que recebem alguma bolsa-auxílio do governo, pequenos comerciantes, cooperativas e grupos que trabalham de forma associada na região do Jardim Santo André na cidade de Santo André (esta pré-pesquisa é para um trabalho que pretende mapear a organização social, os empreendimentos de economia solidária e a forma em que se encontra o comércio local nessa região).
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Entre os vários resultados divulgados na pré-pesquisa, um em especial chamou a atenção. Foi apontado que os moradores do Jardim Santo André que recebem alguma bolsa-auxílio do governo tem que se deslocar até o bairro mais próximo, Vila Luzita, para receberem seus benefícios, já que não há nenhuma lotérica ou banco dentro da comunidade. Ao deslocar-se até o bairro vizinho para receberem a grana, acabam fazendo suas compras por lá mesmo, em supermercados que pertencentes a grandes redes. Uma das conseqüências imediatas disso, sem dúvida nenhuma, é o enfraquecimento do comércio, da oferta de serviços e da geração de empregos na localidade. A pesquisa também apontou que a maioria dos moradores gostaria de trabalhar nas proximidades de suas residências e que os comerciantes e cooperativas existentes do bairro não podem abrir mais vagas de trabalho e serviços por não conseguirem aumentar suas vendas, exatamente por não ter forças para competir com as grandes redes.
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Por mais difícil que pareça, para a consolidação da economia popular solidária é muito importante que as redes envolvidas nesse processo busquem formas de se fortificar na busca por caminhos alternativos ao modelo canibal de capitalismo que vivemos. A troca de resultados e experiências com os envolvidos nesse campo deve ser vista não só como algo fechado em determinados grupos, mas, além disso, deve ser expandida aos mais diversos segmentos da sociedade para que tenhamos uma “teia” de informações sobre às vantagens de estarmos ligados a esta rede. Os adeptos da chamada teoria da dependência tem discursos praticamente idênticos dizendo que este tipo de organização econômica é algo atrasado e que não leva à lugar algum, porém, tenho em mente que ficaremos sim na dependência total se continuarmos nos sujeitando aos modelos econômicos tradicionais que estão sempre se transfigurando para continuarem a exploração ditando regras que sempre enfraquecem o trabalhador e suas potencialidades.

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