terça-feira, 28 de outubro de 2008

Como anda o Movimento

Esta postagem chega com atraso, mas vale a pena fazer a reflexão.
.O 2o. Fórum Internacional Criança e Consumo chegou ao fim com importantes discussões e análises, sobretudo nos campos da psicologia e do direito. No entanto, faltou ainda um maior aprofundamento de aspectos históricos, políticos e econômicos que relacionam a "distorção de valores" promovida pela publicidade com a lógica sistêmica atual.
.
O maior esforço, neste sentido, foi de Marcelo Sodré e Gilberto Dupas, palestrantes do dia 25.09, o primeiro fazendo ótima exposição sobre as confusões conceituais, por exemplo, sobre "liberdade de expressão" vs. regulamentação; o segundo, nos desafiando a desconstruir o discurso hegemônico, tratou da mobilidade do mercado e da fragilidade dos estados nacionais, a implicação desta situação na mão-de-obra, a mídia como braço das grandes corporações e a questão da tão falada responsabilidade social destas mesmas corporações.
.Como complemento, quero aqui retomar um ponto de vista muito discutido na literatura sociológica durante o final dos anos 1970 e nos anos 1980, quando "trabalho" ainda era uma categoria central de análise.
.Em artigo de outubro de 1983, o sociólogo alemão Tilman Evers analisava os então chamados "novos movimentos sociais", movimentos não partidários, surgidos num momento em que as forças de esquerda estavam em baixa, os sindicatos estavam assumindo uma nova postura e, na América Latina, como alternativa em tempos de regimes militares. Novos temas centrais eram levantados, que não a disputa pelo poder político "de fato". Evers cita em seu artigo uma objeção feita por uma "compañera", segundo a qual essa formas alternativas de fazer política era privilégio de associações de classe média ou, no máximo, organizações da classe trabalhadora apoiada pela Igreja Católica, e que os setores realmente marginalizados não faziam parte deste fenômeno. Segundo ela,
.
"para o habitante da favela que gasta seus ultimos trocados para tentar imitar o padrão de consumo da burguesia - comprar para o filho o brinquedo de plástico feito em Hong Kong e anunciado na televisão como aquele que 'todas as crianças têm' - este ato objetivo de submissão tem o significado simbólico de reafirmar sua dignidade humana" (EVERS, 1984. p.17).
.
Isto é, ao comprar os produtos que a publicidade oferece a todo momento na TV, está se comprando dignidade. A expressão choca porque coloca um dos maiores valores humanos, a dignidade, no mesmo patamar de mercadorias descartáveis, atribuindo a ele valor de mercado.
.
Passados 25 anos, estamos dentro de um auditório assitindo um documentário ("criança, a alma do negócio") que nos mostra exatamente isso: a compra da diginidade. O consumo de determinados produtos como condição ao pertencimento social. Hoje ainda mais grave quando observamos a delinquência e violência, a erotização precoce e demais consequências deste novo valor maior: TER (a qualquer custo).
.
Exatos 25 anos em que muitos movimentos surgiram, se proliferaram - e o Projeto Criança e Consumo e o Instituto Alana são frutos destas ações alternativas - e deixaram de existir, e continuamos com o mesmo impasse, ainda sem resposta.
.
Trabalhar com os adultos? Eles não tem tempo. Trabalhar com as crianças? Mas e o que elas recebem em casa? Trabalhar com as instituições? E a descontinuidade das políticas e a falta de compromisso dos governantes?
.
Como dizia Tilman Evers, é um trabalho de formiga o que estes "novos movimentos" faziam. Hoje, parece que a formiga não sabe mais onde está o formigueiro onde ela possa deixar sua contribuição - que é a folha.
.
Talvez, movimentos isolados para públicos específicos, por mais bem-intencionados e estruturados que estejam não conseguem grande alcance. A junção de públicos, idéias e de movimentos pode ser a saída. Não a fusão de movimentos, mas a complementeção de uns por outros - a rede!
.
_________________________
.
EVERS. Tilman. Identidade: a face oculta dos novos movimentos sociais. In: Novos Estudos Cebrap, São Paulo, v.2, 4, p. 11-23, abril 1984.
.
Pula o Muro. "Agora é a nossa vez de falar!". 24.09.2008.
.
.

Nenhum comentário: