sábado, 25 de outubro de 2008

A crise norte-americana: o assunto do momento!

por Júlio Canuto
A moda agora é estar em crise! Para a mídia, o Brasil tem que entrar logo em crise, para pertencermos ao mundo. As palavras mais ouvidas e lidas ultimanente, e que me vêm agora à cabeça, são "commodities", "subprime", "bolha", "hipoteca". Todas relacionadas a uma palavra com significado maior, que engloba todas elas: CRISE.
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A crise do momento é a norte-americana, a principal economia do planeta. Os alarmes e as previsões são catastróficas para todo mundo: pessoas, empresas e países, o que inclui o Bush, Obama, Mcain, Lula, Serra, a Gisele Bundchen, o Ronaldinho Gaúcho, a Rainha da Inglaterra, a torcida do Flamengo, eu, você, o porteiro, o motorista do ônibus, o guarda da CET e - ufa, ao menos uma notícia boa - também seu chefe!

Mas, afinal, o que todas as palavrinhas acima tem a ver com você? É o que eu vou tentar explicar nesta postagem. Mas acalme-se, minha análise, apesar de pessimista, refere-se a algo que você já está acostumado e sabe tirar de letra.

Eu também andei coçando muito a cabeça ultimamente para descobrir o significado destas palavras na minha vida e entender a forma como os espcialistas as utilizam. Vou tentar simplificar, exemplificar e, depois, colocar você na história.

Começamos com "commodities": é um termo inglês que no economês é usada como referência aos produtos em estado bruto ou com pequeno grau de industrialização, de qualidade quase uniforme, produzidos em grandes quantidades e por diferentes produtores. Estes produtos "in natura", cultivados ou de extração mineral, podem ser estocados por determinado período sem perda significativa de qualidade. O Brasil então tá repleto de commodities, como veremos mais adiante.

A segunda palavra é "subprime", que significa algo que não é prime. Prime é utilizada no mundo dos negócios para referir-se ao que dá mais garantia, melhor estabilidade etc,. Isto siginifica que o "Sub" é de segunda categoria, arriscado, instável. Veja, há um banco que diz que é prime, e tem uma rede de agências exclusiva para seus clientes também prime. Só que a absoluta maioria dos clientes deste banco não são primes, e por isso são atendidos nas agências normais, com enormes filas, constrangimento na porta giratória e altas tarifas. Uma pessoa dessa só pode ser "subprime".

"Hipoteca": por definição é a sujeição de bens imóveis ao pagamento de uma dívida. Isto é, o que você deixa como garantia de pagamento de uma dívida, em bens.

Por fim, "bolha", que no contexto aqui apresentado é a carteira de créditos de um banco/financiadora (o total de dinheiro emprestado que lhe será pago pelos devedores). Quanto mais ele financia, mais a bolha cresce.

Só que chegou uma hora que a bolha estourou. O "estouro" é o não pagamento, em massa, dos débitos constraídos pelos clientes subprime, que hipotecaram seus imóveis, que não saldam mais suas dívidas, deixando o credor sem ação, acumulando prejuízos. Acontece que esses credores também têm dívidas, e como eles a contraíram?



A fase do capitalismo inaugurada com o chamado neoliberalismo veio com uma série de novas normas. Um novo modelo liberal de condução econômica, onde os investidores/especuladores desconhecem as fronteiras dos Estados nacionais. Funciona da seguinte forma:

Uma empresa - um banco, por exemplo - tem um negócio lucrativo, aparentemente com riscos mínimos. Os preços estão estáveis, as pessoas estão gastando. Só que essa empresa quer aumentar o seu lucro, pra poder fazer novos investimentos, abocanhar novas fatias do mercado no qual compete - como abrir financiamento para os subprimes, com prestações a perder de vista e juros baixos. O que ele faz? Ao invés de esperar seus credores pagarem as prestações, eles colocam as ações da empresa à venda numa bolsa de valores - ao que se chama empresa de capital aberto. Pessoas físicas e jurídicas que sabem do negócio lucrativo desta empresa compram as ações, não por querer fazer parte dela, mas porque têm a certeza (a confiança) de que irá receber o valor de volta com bons juros, fruto do retorno do investimento ocasionado pela venda de ações (que farão a empresa valorizar). Isto é, quanto mais este banco cresce, mais suas ações valorizam e por isso ele poderá pagar de volta o valor com juros, pois já ganhou muito mais.


Se os primes e subprimes deixam de pagar suas dívidas, a tal empresa recorre as hipotecas. Mas se essas perdem o valor - afinal, são bens imóveis, e perdem o valor se houver menos procura -, o credor também não terá dinheiro para devolver aos investidores/especuladores. Estes ameaçam requerer seus investimentos + juros e isso deixa os, agora, credores/devedores apavorados, já que isso pode os levar à falência. Porém, como se pode perceber, neste jogo todos acabam perdendo, e não é vantagem pra nenhuma das partes que essa empresa venha à falência. Eles então recorrem ao governo, que tem dinheiro em caixa, para que ele garanta suas dívidas. O Estado, aceitando, vai remanejar valores para estes bancos, através do Banco Central, o que diminuirá seus investimentos sociais. Acontece, porém, que o Estado também vende títulos e ações (de suas estatais) e pode também ser questionado.

Voltando para nossa realidade. É muito fácil perceber a "bolha". Para quem mora em São Paulo, é só parar numa grande avenida e ficar vendo o trânsito. Como todos os carros estão parados, você pode até contar quantos são velhos: muito poucos. No entanto, ninguém é verdadeiramente dono dos carros novos. Todos estão financiados (Lembram dos recentes comerciais que dividiam o valor em até 70 vezes? Sumiram, né?). A diferença fundamental de nós para os norte-americanos é que não temos a cultura de investir em ações, na bolsa de valores, para acumular, fazer fortuna. Ficamos apenas no carro zero pra impressionar as moças e passar uma imagem de bem sucedido.


A crise, então, tem tudo a ver com o mercado de ações, e quase nada a ver com o nosso dia-a-dia. Claro, ela influencia em empresas que estão no nosso dia-a-dia, como na indústria automobilistica (mas até mesmo no caso citado sabemos que até no ABC paulista o setor industrial já não detêm a maioria das vagas de emprego), ou no preço dos produtos eletro-eletrônicos que dependem de componentes importados, e também em nossas exportações, que são em sua absoluta maioria advindas da agricultura.
Aqui as commodities entram na história, e neste sentido há coisas boas e ruins. O ruim é que com a produção pouco diversificada - investe-se muito pouco em tecnologia - e na área rural, promove-se a geração de ocupações informais, precárias e de baixa qualificação, por conta da estrutura agragária históricamente desigual em distribuição de terras. Também como commodity, e portanto participando do mercado de ações, ela pode vir a sofrer os impactos da crise. O bom é que os alimentos, sendo gêneros de primeira necessidade, são os que menos sentem impactos externos, pois não se abre mão deles.

Então, onde está a catástrofe da crise em nossas vidas?

A verdade é que os assalariados, como eu e, creio, muitos do que lêem este artigo, vivemos em crise há tempos. O salário nunca dá para satisfazer nossas necessidades. Aprendemos naturalmente a abrir mão de algo importante para obter outra coisa também importante. As relações trabalhistas se afrouxaram no que diz respeito à CLT (Consolidação das Leis do Trabalho - benefícios trabalhistas). Há muita informalidade, terceirização e demais formas "flexíveis" ou bizarras de nos tirar direitos. E assim, por sermos sempre subprimes, não nos "acommodamos", nossa "bolha" de responsabilidades sempre está cheia, mas deixar de cumprir siginifica estagnação, recessão, pois, ao contrário dos bancos, finaciadoras, seguradoras e especularores, o Banco Central não irá nos salvar.
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Para saber mais:
Le Monde Diplomatique Brasil, ano 2, número 14, setembro de 2008:
SADER, Emir. Desequilíbrios estruturais do capitalismo atual
CARNEIRO, Ricardo e BIANCARELI, André. Impactos e oportunidades.
CORDONNIER, Laurent. Ajustes dolorosos entre oferta e procura.
Le Monde diplomatique Brasil, ano 2, número 15, outubro de 2008:
LORDON, Frédéric. O dia em que o Fed se tornou socialista
PINTO, João Roberto Lopes. BNDES: o reforço à dinâmica dos negócios.

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