quinta-feira, 25 de setembro de 2008

"Agora é a nossa vez de falar!" - segundo dia

No dia 24/09, o 2º Fórum internacional Criança e Consumo teve como tema de debate: Educação, Consumo e Infãncia, e contou com a participação de Mário Sergio Cortella (filósofo, doutor em educação e Professor da PUC-SP), Susan Linn (psicóloga, diretora associada do Media Center of the Judge Baker Children’s Center, doutora em educação, Professora da Universidade de Harvard e autora do livro Crianças do Consumo) e Yves de La Taille (psicólogo e educador, doutor em psicologia escolar e do desenvolvimento humano, Professor da USP e Conselheiro do Projeto Criança e Consumo), como palestrantes; Regina de Assis (educadora, doutora em currículo e ensino para educação infantil e presidente da MultiRio) como debatedora; e Solange Jobim (psicóloga, doutora em educação, Professora da PUC-Rio e Conselheira do Projeto Criança e Consumo) como mediadora.
Mário Sergio Cortella inicou os debates falando da Mídia como Corpo Docente, nos colocando como desafio: recusar o que parece óbvio, o que parece inevitável. De acordo com sua argumentação, a mídia é corpo docente porque hoje ela ensina as pessoas e, sobretudo, as crianças. Estima-se hoje que as crianças até os 6, 7 anos de idade já assitiram de 5 a 6 mil horas de televisão, o que significa dizer que quando ela entra na escola, ela já tem um forte pré-escolar marcado pela mídia como corpo docente. Insignare, do latim, significa deixar um sinal, uma marca, que esta pessoa levará adiante. Já infãncia, significa aquele que não pode falar, que não pode dizer, e portanto está submetido a um processo violento de deformação no cotidiano.
Mas será toda a culpa da mídia? De que modo agem as demais instituições que também ensinam as crianças? O que nós estamos ensinando as crianças?
A escola, por exemplo, apresenta várias características que destróem um importante valor, base da construção social: solidariedade. Por exemplo, a meritocracia incentiva a competição, as filas separadas por gênero, que fazem com que se promovam as diferenças - "clássicas" - entre homem e mulher, a fila por altura, que não tem outra função se não inculcar: "este é o baixinho", "este é o grandão".
Também na família isto ocorre, basta observarmos o quanto conhecemos as pessoas com que convivemos, os gostos delas, os lugares onde anda etc. Um bom exercício para se ter noção desta situação é pensarmos: se você tiver quecomprar um CD para seu filho, o que você compraria? Muitas pessoas não saberiam responder a estapergunta aparentemente tão simples. Não por acaso, as chamadas "megastore" entregam um "vale-presente", no qual o "presenteado" vai até lá e retira o livro, o CD ou o que for de sua escolha, o que representa o anonimato extremo! Ou então o fato de que, numa mesma casa há várias televisões, e que cadamorador fica detro de seu quarto, as vezes assistindo amesma programação, mas em ambientes dieferentes. E tantos outros costumes nossos que nos fazem estranhos um ao outro, nos diferenciam etc.
Por isso, precisamos prestar atenção no que estamos fazendo a respeito. A mídia hoje, fez com que os jovens confundissem direito com desejo, achando que alcance de tudo o que desejam é um direito deles. Como reverter essa degradação da existência?
Precisamos inventar modos que preencham espaços onde a mídia não entra, ou melhor, o momentos em que esta mídia não está presente. A reflexão sobre a rotina nos espaços citados acima - família e escola - é um importante passo a ser dado.
Susan Linn falou sobre Consumismo e aprendizagem: como o marketing dirigido às crianças captura seus corações e mentes, onde tratou da influência do marketing na formação de valores e nos padrões de comportamento de crianças e jovens.
As crianças, quando constantemente bombardeadas por propagandas, estão apreendendo falsos valores, uma vez que a experiência do consumo é efêmera: se os produtos nõ te fzem feiz, voc~e vai comprar outro e assim por diante.
Além disso, a propaganda também interfere na criatividade infantil, e aqui talvez resida sua maior perversidade, pois é nesta fase, com o desenovolvimento da criatividade que a criança aprende a lutar pela vida, a lidar com os acontecimentos. Sendo constantemente estimuldas ao já conhecido, têm menos chance de exercer a criatividade.
As brincadeiras criativas, por exemplo, são essenciais para o bem-estar das crianças. Infelizmente a escola, de maneira geral, não tem mais a cultuira de brincar, o medo tomou conta deste ambiente (de forma mais intensa nos EUA).
Susan trouxe alguns dados de pesquisas que comprovam uma drástica diminuição no tempo médio em que crianças brincam por dia, nos ultimos anos.
Como exercício sobre a criatividade, foi apresentado uma apresentação em power point com vários brinquedos. De início um fantoche, que foi percebido demaneiras diferentes pelos participantes do fórum; até a apresentação de um brinquedo de um famosso personagem, onde não houve divergência de interpretação.
Assim, quando crianças veêm todos os dias os mesmos personagens, nas mesmas séries, as brincadeiras ficam roteirizadas, porque a imagem, o filme, tem muita autoridade sobre o imaginário. Por isso a comercialização desregulamentada destas peças, mesmo que tenham um potencial educativo, degrada a formação ao interferir diretamente na fase lúdica. Muitos destes brinquedos não exigem nenhum esforço das crianças, elas apenas apertam um botão e ele anda, fala, enfim, fazem de tudo. E nada a satizfaz, justamente porque é previsível.
A criança criativa não precisa de um brinquedo que faça tudo, ela transforma os brinquedos. O aprendizado vem da capacidade criativa.
Com estes produtos licenciados, as crianças começam a se familiarizar desde cedo, e acabam se apaixonando por estes personagens. Os produtos para bebês são uma preocupação ainda maior.
Nos EUA, crianças de 1 ano já têm TV no quarto. Aos 2 anos de idade, elas chegam a assistir a 2 horas de TV por dia! A exposição à TV não é benéfica em nenhuma ocasião, pois torna-se um hábito.
Por fim, há uma série de brinquedos que tratam as crianças como adultos. Nos EUA há jogos on-line que ensinam as crianças a fazer compras on-line - e compras reais, até mesmo pelo ceular! Há os filmes e séries violentos; as bonecas que são modelos. tudo influenciandoos padrões de comportamento e os valores.
Susan conclui sua plestra dizendo que a forma como estes jovens estão se relacionando com as teconologias de comunicação tem algo de muito prejudicial. Pesquisa recente provou que a eficiência de 'Geração Google' (nascidos a partir de 1993) na internet é mito. Pesquisar com rapidez, não siginifica reflexão, dúvidas, aspectos sem os quais não se produz conhecidmentos e valores.
Yves de La Taille fechou o segundo dia tratando do tema Cultura da vaidade e consumo, onde procurou fazer uma reflexão sobre "o que leva a criança ao consumo?", e daí a formação do Ser consumidor e "o que nos leva a associar o consumo à identidade?"
Começando por definir o termo vaidade, que em sua etimilogia siginifica "vazio". Os valores que a compõem variam de um lugar para outro. Sendo assim, em alguns lugares ela é "orgulho", algo que só depende do próprio sujeito, e portanto independente; já em outros lugares ela é "ostentação": algo que depende dos outros, e portanto dependente.
Em qual destes valores está assentada nossa vaidade? Que tipo de pessoa é a referência em nossa sociedade? O vencedor!
E o que é ser vencedor? É quem se deu melhor! Ou seja, se deu melhor em relação ao outro, uma relação dependente. Não o que se deu bem (autônomo). No vencedor não há solidariedade. E até mesmo a vergonha - sentir-se inferior aos próprios olhos - hoje, é parecer-se com todo mundo.
Esta é a medida de todas as coisas. Por exemplo, uma aula chata não se opõe hoje a uma aula interessate, mas a uma aula prazerosa. ela deve ser divertida, não exigir muito.
E qual a maneira mais fácil de se parecer com um vencedor? Pela aparência. E novamente a mesma medida: o importante hoje não é trocar idéias, mas simplesmente se comunicar. E o status comunica, status impregnado nos produtos e marcas por obra da publicidade.Neste contexto, as celebridades assumem o status de vencedor, tornam-se referência e passam a ser ouvidas sobre vários assuntos, muitos dos quais tem pouquíssimo conhecimento. A velha medida: celebridade supera a autoridade.
As propagandas não cantam mais as virtudes dos produtos, mas do consumidor com o produto. Isto é, vende-se uma idéia, uma imgem socialmente valorizada e não o material de fato produzido. Dessa maneira o consumidor passou a aceitar a marca,ue antes ficava na etiqueta, pelo lado de fora das roupas. E até mesmo as classes de menor renda assumem valores e desejos fabricados, se sacrificando por produtos dos quais dificilmente terão acesso. Esta dimensão da vaidade interfere na moral. Busca-se visibilidade a todo custo, chegando ao extremo de morrer e matar por esta visibilidade, como as causas da violência cotidiana demontram. Aliás, o medo é uma forma de visibilidade.
Deste modo, podemos dizer, sim, que a violência vem a cultura da vaidade, pois é daí que vem a motiviação para as práticas violentas.
Yves deixou este alerta: devemos cuidar para que as instituições não sejam propulsoras da cultura da vaidade. Infelizmente, em muitos casos ela já é!
Ao final, Regina de Assis sintetizou as palestras e seguiu-se para as perguntas.

Nenhum comentário: