terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

A pós-modernidade líquida e fluida

Na faculdade aprendi que encaixar um fato ou contexto numa teoria não é fazer sociologia. Concordo, claro, mesmo porque agindo deste modo, você pode encaixar a realidade em todas as teorias, chegando a nenhuma explicação, pois por mais lógicas que sejam, teorias sempre serão – e nunca passarão de – abstrações. Hoje, porém, corro o risco de ser assim interpretado, mas esclareço de antemão (se é que isso vai adiantar) que faço algo semelhante porque vejo claras conexões entre teorias, fatos e experiências, portanto trazendo elementos empíricos e, antes que afirmem o contrário, não enviesados.

No entanto, a história é feita, entre outras coisas, de ações desencadeadas por interpretações de outras ações, quer seja do homem, do tempo, da natureza etc. Esta é só mais uma interpretação, numa época em que a diversidade de opiniões superou o consenso.

Há algum tempo venho notando semelhanças entre dois pensadores, um é sociólogo e polonês e o outro um geógrafo brasileiro: Zygmunt Baumann e Milton Santos. Começo fazendo um diálogo entre estes dois pensadores contemporâneos, com visões muito próximas a respeito da atual fase do capitalismo, do Estado e das conseqüências da fase tida como pós-modernidade, isto é, período iniciado com os declínios do Estado de Bem-Estar social nos EUA e Europa e da industrialização em todo o mundo, que coincide com a crescente importância (pela influência) da publicidade e outros meios de comunicação e da privatização dos serviços (antes de dever do Estado).

O período chamado moderno pode ser compreendido como iniciado a partir da crise de 1929 (anos 1930) se estendendo até os anos 1970, com a crise do petróleo, o avanço das tecnologias de comunicação e, na América Latina, as ditaduras, mesmo que agonizando.

Características deste período eram o trabalho industrial, a elevação dos padrões de consumo e a ampla rede assistencial promovida pelo Estado como forma de equilibrar o quadro social, o que tinha como objetivo principal o fortalecimento do consumo, da indústria e da economia nacional, num modelo sistêmico, capaz de manter a qualidade de vida da população em um padrão bastante satisfatório de conforto.

A arrecadação de impostos era alta e havia muitas empresas estatais. Problemas locais eram resolvidos localmente, as fronteiras estavam bem definidas, assim como as ações dos Estados, mais evidentes nos principais países dos dois blocos dominantes: capitalistas e socialistas.

A crise do petróleo e o avanço das tecnologias de comunicação inauguraram uma nova estratégia e conduta na produção, o que causou impactos nos níveis de trabalho, renda e consumo. A conseqüência desta mudança é o que ficou conhecido como neoliberalismo, caracterizado pela privatização dos vários setores de produção e dos serviços.

O Estado perdeu seu papel centralizador, de controlador da economia e de assistência, as fronteiras se enfraqueceram e houve uma perda da identidade, seja como classe social, classe de trabalhadores e até mesmo de nacionalidade.

A publicidade passou a vender (e, antes, produzir) imagens, estilos de vida e o aspecto de fetiche das mercadorias chegou a proporções não imaginadas – e segue progredindo.

Em “Por uma outra globalização”, Milton Santos fala sobre essa mudança na produção, característica fundamental da pós-modernidade :

“atualmente, as empresas hegemônicas produzem o consumidor antes mesmo de produzir os produtos. Um dado essencial do entendimento do consumo é que a produção do consumidor, hoje, precede à produção dos bens e dos serviços. Então, na cadeia causal, a chamada autonomia da produção cede lugar ao despotismo do consumo. Daí, o império da informação e da publicidade. Tal remédio teria 1% de medicina e 99% de publicidade, mas todas as coisas no comércio acabam por ter essa composição: publicidade + materialidade; publicidade + serviços, e esse é o caso de tantas mercadorias cuja circulação é fundada numa propaganda insistente e freqüentemente enganosa. Há toda essa maneira de organizar o consumo para permitir, em seguida, a organização da produção.”

A segurança e os objetivos bem definidos de certo padrão de vida e de bem-estar (como era chamado o Estado provedor desta segurança) que eram alcançados e mantidos foram superados pela idéia fluida de um bem-estar inconstante, uma vez que, baseado na publicidade, em breve tempo fica desatualizado e então temos que partir para alcançar o novo padrão, até que este também se desatualize.

Em “o mal-estar na pós modernidade”, Baumann observa que

“Se o consumo é a medida de uma vida bem sucedida, da felicidade e mesmo da decência humana, então foi retirada a tampa dos desejos humanos: nenhuma quantidade de aquisições e sensações emocionantes tem qualquer probabilidade de trazer satisfação da maneira como ‘manter-se ao nível dos padrões’ outrora prometeu: não há padrões a cujo nível se manter – a linha de chegada avança junto com o corredor, e as metas permanecem continuamente distantes, enquanto se tenta alcançá-las. Muito distante, recordes continuam a ser quebrados.(...) De todos os lugares, por intermédio de todos os meios de comunicação, a mensagem surge forte e clara: não existem modelos, exceto os de apoderar-se de mais, e não existem normas, exceto o imperativo de saber aproveitar bem as cartas de que se dispõe”. p56

A era da comunicação é também conhecida como globalização. Para Milton Santos, a atual globalização é dada como fábula porque imita a publicidade no sentido de passar a falsa impressão de que tudo está ao alcance das mãos, e que a vontade (e esforço) individual é suficiente para o alcance de “tudo”. Aliás, ela propaga as vantagens das ações individuais sobre as ações coletivas.

“Fala-se, por exemplo, em aldeia global para fazer crer que a difusão instantânea de notícias realmente informa. A partir desse mito e do encurtamento das distâncias – para os que realmente podem viajar – também se difunde a noção de tempo e espaço contraídos. É como se o mundo se houvesse tornado, para todos, ao alcance da mão. Um mercado avassalador dito global é apresentado como capaz de homogeneizar o planeta quando, na verdade, as diferenças locais são aprofundadas.”

A fábula é a face perversa da globalização, de um lado com a destruição das fronteiras para a livre entrada de mercadorias e capitais; de outro com a intensificação da repressão para trabalhadores em busca de melhores condições de vida, fugindo dos baixos salários pagos pelas empresas que adentraram seu próprio país, vindas na onda da desregulamentação e da privatização.

A conseqüência, na visão de Baumann, é que

“a incriminação parece estar imergindo como o principal substituo da sociedade de consumo para o rápido desaparecimento dos dispositivos do estado de bem-estar.O estado do bem-estar, essa resposta ao problema da pobreza numa época em que os pobres eram o ‘exército de reserva de mão-de-obra’ e se esperava que fossem preparados para voltarem ao processo produtivo, não é mais, sob essas circunstâncias alteradas, ‘economicamente justificável’ e é, cada vez mais, encarado como um ‘luxo a que não nos podemos dar’ O problema dos pobres é remodelado como a questão da lei e da ordem, e os fundos sociais destinados à recuperação de pessoas temporariamente desempregadas são despejados na construção e modernização tecnológica das prisões ou de outros equipamentos punitivos e de vigilância”. p.78
.
Nota-se, portanto, que a competição é a norma da nova ordem, em detrimento dos valores coletivos dos períodos anteriores. Ora, sem identidade, sem sentimento de pertencimento, não há coletividade. Tudo agora é global: economia global, sociedade global. E também problemas de ordem global, mas que “curiosamente” são sentidos localmente. E mesmo esta competição nunca estará em pé de igualdade.

Com isso, as desigualdade aumentam, como o próprio Baumann observa :

“o grau de polarização (e, portanto, também da privação relativa) quebrou, nessas três décadas, todos os recordes registrados e lembrados. A quinta parte socialmente mais alta da população mundial era, em 1960, trinta vezes mais rica do que o quinto mais baixo; em 1991, já era sessenta e uma vezes mais rica. Nada aponta para a probabilidade, no futuro previsível, de que essa ampliação da diferença seja reduzida ou detida, quanto mais revertida”. p.76
.
Está dado o contexto do ponto de vista dos dois pensadores. A seguir passo para o lado prático da coisa.

2 comentários:

2t disse...

Olá, olá! Bom o blog! Você podia fazer uma daquelas ferramentas que o blogspot está disponibilizando, como ACOMPANHAR ESSE BLOG. Melhor que usar os favoritos do Firefox!!!

abç

Clau disse...

Excelente "aproximação". Mto boa a argumentação sociológica!