terça-feira, 24 de março de 2009

Consumo e status (olhar antropológico)*

De uma simples gravata a gravata de seda, de executivo a uma pessoa.
De uma simples mascara a mascara, de um personagem a uma pessoa
Você já parou para pensar porque mulheres usam saias e homens não? A parte os padres, mas aí se chama de batina. Ou por que as prostitutas sempre estão de sandálias de salto alto? Ou por que os universitários uspianos gostam tanto de usar camisetas com a sigla USP? Eu já “cheguei até a responder” quanto às prostitutas: porque deixam as pernas bonitas, porque os homens gostam, porque os pés são uns dos mais conhecidos e efetivos símbolos do fetiche. Quanto aos universitários, pode ter sido a primeira que encontrou em sua gaveta. Todavia, o mais provável é que seja a exibição de uma marca, um símbolo de distinção usar uma camiseta com a sigla de uma das universidades mais respeitadas do país. Quanto às mulheres usarem saias e homens não, ora essa, é óbvio: porque nós fazemos depilação! Porém percebi que essas supostas repostas são apenas a casca, a capa que esconde “a resposta”. Vamos dizer que essas respostas estão para o Clark Kent assim como “a resposta” a ser desvendada está para Super-homem.
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Como bem disse o Imortal Lévi-Strauss: “A Antropologia é a ciência do Observado. Enquanto a sociologia se esforça em fazer a ciência social do observador, a antropologia procura, por sua vez, elaborar a ciência social do observado... Mas tentando então extrair um sistema de referência fundado na experiência etnográfica...” (200:404) [1]
Foi então que, em meio a uma conversa com minha amiga que é estudante de direito, relatando alguns dos preparativos para a festa de formatura de sua turma, contou: “as formandas devem usar vestidos vermelhos, pois vermelho é a cor dos advogados”. Diante de minha face estarrecida, e da visível interrogação em meu rosto, completou “cada profissão tem sua cor, você não sabe a sua?”... prosseguiu, “o problema é que algumas formandas não querem usar vermelho, pois não gostam da cor”. Eu questionei: o que aconteceria se elas usarem outra cor? Ela: “nada... mas aí elas serão confundidas com os reles mortais”.

Lembrei de uma matéria da revista da Folha, intitulada: "No mundo dos superexecutivos, é preciso ser "Cool", ter "style" e seguir uma espécie de manual de sobrevivência – As senhas de acesso ao pódio do milionário mercado executivo". Publicada em 19 de Novembro de 2006, a matéria consiste, em linhas gerais, de relatos que evidenciam a importância de determinados acessórios e roupas no mundo corporativo.

Segundo o apresentador do programa Aprendiz, Roberto Justus: “ Hoje para ser um executivo high profile[2] não basta ser, é preciso parecer” e continua “a receita para uma empresa atraente aos olhos dos cliente é: contratar ‘cool people’” , ou seja, pessoas com atitude e estilo. A matéria mostra um quadro, descrito como Dress Code Executivo, que entendemos como códigos de guarda roupa. Requisitos para ser um (a) executivo(a) “style”:

A tabela – rígida – de como os executivos(as) devem se apresentar ( vestir, calçar e, portanto, o que devem consumir), parece-nos reafirmar a explicação dado por Douglas, em Porque as pessoas consomem Bens? O consumo mostra-se como um sistema de significações, pela afirmação: “não basta ser é preciso parecer” e pela tabela podemos dizer que o consumo utiliza os bens como forma de dar contorno a um conjunto específico de julgamentos em processo, de classificar pessoas. Assim, é passível que uma executiva em começo de carreira use um Tailleur da Gregori, mas jamais um executivo pode ter um carro não automático. A tentativa de burlar esse sistema de significações que é o consumo pode ser danosa. Em relato, a diretora de marketing e comunicação de uma multinacional israelense, Eliane Vilela, conta que “um diretor da empresa americana onde trabalhei foi apresentar um projeto para um executivo, vice- presidente de telecomunicações. No final da apresentação o cliente perguntou, descontraidamente, onde o diretor havia conseguido aquele relógio de ‘ segunda linha’ . Por acaso [por acaso?][3], ele era um colecionador e percebeu que o Rolex era falso. Para nós, perdeu totalmente a credibilidade”. O Rolex falso traduziu-se em falta de credibilidade frente ao cliente e ao próprio grupo. Os bens podem incluir ou excluir. Nesse caso, o uso do bem falso excluiu a possibilidade de fazer negócio.
Produtos são códigos que traduzem muitas relações sociais, a partir deles é possível classificar grupos, pessoas, serviços etc. Todavia, devemos ressaltar que os bens são neutros e seus usos são sociais; podem ser usados como cercas ou como pontes.
A consultora de treinamento e comunicação, Vanessa Gobi, lembra de outra história, de uma colega chamada para uma entrevista. “Ela entrou, o hedhunter (caça - talentos) a mediu de cima a baixo e disse que estava dispensada. Não houve conversa”. Mais tarde descobriu-se o motivo da dispensa: a candidata não usava salto fino. Não houve conversa porque não foi preciso, os bens comunicam, de maneira a servir como linguagem. A candidata feriu uma regra do ritual de entrevista, não fazia uso do bem necessário para que o ritual (entrevista) acontecesse. Talvez a candidata não tivesse claro a importância desse bem.
Segundo Douglas, a cultura não é estática, e o principal problema da vida social é fixar os significados de modo que fiquem estáveis por um tempo. Já para Sahlins, o bem enquanto código trabalha em um nível inconsciente, concepção dentro da própria percepção.
Para Sahlins, observamos que os bens são divididos em categorias: para homens e para mulheres, assim como o sistema vestuário é demarcado em tempo (dia, noite); lugar (casa, rua, trabalho); idade (criança, adolescente, adulto); status. É por uma correlação em um sistema simbólico que as calças são produzidas para homens e as saias para as mulheres, e não pela natureza do objeto em si. Nenhum objeto, nenhuma coisa é ou tem movimento na sociedade humana, exceto pela significação que os homens lhe atribuem.
Segundo Donald Trump : “ Se você quer ser um presidente da empresa, vista-se como ele desde já”. A frase impactante faz refletir sobre a capacidade “mágica da roupa”, capaz de transportar o indivíduo de um status a outro [4]. Assim como conta Mouss em Uma categoria do Espírito Humano: A noção de pessoa , basta matar o possuidor e apoderar-se de suas peças rituais (roupa e máscara) para herdas seus nomes, sua posição social. Assim como uma peça, é preciso que os atores se caracterizem com roupas e acessórios específicos para representarem os personagens. O que nos permite dizer que os meios são modernos (acessórios, roupas, carros), mas o fim é tradicional: a construção da pessoa, do executivo(a).
O consumo permeia todas as esferas da nossa cidade, da prostituta à universitária, da estudante de direito que tem claro o papel do vestido como demarcador social à rígida tabela de como deve se vestir um executivo (a). O que podemos perceber é que a economia valorizou demais o valor de troca e esqueceu-se do valor de uso. Nos termos de Sahlins, como se a economia de uma sociedade fosse sinônimo da economia racional das pessoas, a disciplina bane os esquemas culturais de pessoas e coisas que ordenam os valores de uso. O valor de uso não é menos simbólico ou menos arbitrário que o valor da mercadoria. Porque a utilidade não é uma qualidade do objeto, mas uma significação das qualidades objetivadas. Sendo assim, a questão da economia não pode ser restrita a esfera biológica ou utilitária, visto que os indivíduos se reproduzem enquanto certos tipos de homens e mulheres, expressos através dos bens que consomem.
No debate desenvolvido por Douglas e Sahlins, os autores evidenciam uma nova perspectiva, em que os bens vão além de objetos práticos, são portadores de significados e o consumo um processo ritual . Essa perspectiva é interessante por demonstrar que nós, ocidentais, também somos exóticos, desmitificando a idéia de uma vida pragmática. Nossa vida cotidiana, a partir desse cenário, é “mágica”. Somos produtores e consumidores de sentidos – de bens.
Agora meninas, não me perguntem por que nos ficamos com a parte mais difícil: a depilação.
Até a próxima...
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*Enviado por Claudiana Cabral, a Clau, que escreve o Pitadas Cotidianas.
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[1]Lévi-Strauss,Claude. Antropologia Estrutural.
[2] Indivíduos de alto desempenho, que trabalham muito, têm agilidades, são bons líderes, estão sempre além das expectativas da corporação
[3] grifo nosso.
[4] Temos ciência que não basta vestir-se somente como, mas é um dos elementos necessários para sê-lo.

10 comentários:

ana luiza disse...

Claudiana, querida!
Bem legal.
Vc pode pesquisar agora o motivo pelo qual as pessoas competentes usam salto fino (e/ou) gravatas chiquérrimas nas entrevistas e, com o passar do tempo, tornam-se uns "chinelentos"?

Bj

PuLa O mUrO disse...

Ana Luiza, que bom que comentou.... finalmente este blog terá vários comentários... nunca passamos de 3 numa postagem. To pensando em contratar a Clau para aumentar minhas visitas!!!! rsrs

Abraço.

Vanessa disse...

Clauuu,

Adorei o texto.
Este quadro da matéria do Justus (?) me deixou muito angustiada, a minha sorte é que eu não almejo as mesmas coisas que os "aprendizes" dele.
Por outro lado, fiquei me imaginando de tailler, salto alto, bolsa chique, perfume importado e caneta Mont Blanc indo numa entrevista para algum cargo de ciências sociais, antropologia, história...
Como você imagina que me entrevistariam?

Não estamos livres dos diversos "olhares", seja qual for a profissão.
Vou providenciar meu "chinelinho"...

ps: gostei deste blog também, vou visitar mais vezes!

PuLa O mUrO disse...

Isso Vanessa, visite sempre... e comente à vontade! (creio que este é o dia mais feliz do pulaomuro) rsrs

Maga disse...

Clauzinha querida!!!
Me senti uma completa rejeitada com as minhas regatas hering e meu all star encardido!!! hahahahaha
Sinceramente, não conseguiria seguir esse manual... nem eu, nem meu pobre bolso hahahaha
Adorei seu texto, digno de uma coluna na Folha!
Beijoooos

Ananda disse...

Créud's!!!
Como já te disse pessoalmente e no seu blog, adorei o texto! Surpreendente mesmo que essa menina quietinha seja um furacão nas palavras!! Ótima surpresa aliás!
Concordo com tudo que você disse... temos milhares de exemplos ao nosso redor né... qt mais "gastação" menos "ação"...
Em Brasilia então, dispensa comentários... muita imagem pra pouca "sede"...
Mas se formos analizar que tudo é adquirido pela "imagem" a coisa até da uma amenizada né...
Não acredito naqueles que falam que "quem ama o feio, bonito lhe parece", afinal tem gosto pra tudo nessa vida...
Acredito mais naquela "por fora bela viola, por dentro pão bolorento"... infelizmente se encaixa mais no mercado atual... principalmente dos executivos...
Afinal, quem quer e sabe fazer, faz... não compra feito!
Isto posto, posto isto...
Namastê!

PuLa O mUrO disse...

Amanda, obrigado pelo comentário.

Você bem que poderia enviar pra mim um texto sobre estas "máximas populares". Que tal?

Grande abraço...

"Antonio" disse...

Olá fiz uma visita aqui um blog muito legal cheio de utilidades espero uma visita sua nós meus blog abraços Antonio.

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putra armada disse...

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putra armada disse...

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