terça-feira, 17 de março de 2009

A importância do lúdico no universo infantil*.

"ativem o lúdico e tragam

a velocidade instantânea

da imaginação." (Ona Gaia)


Numa coletânea de artigos intitulado "Reflexões: A criança. O brinquedo. A educação", Walter Benjamin diz que "os brinquedos documentam como o adulto se coloca com relação ao mundo da criança". Mais adiante, adverte que independente da origem do brinquedo, "a resposta da criança só se dá através do brincar". Estive pensando nisso ha pouco tempo.
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Recentemente, estive em Itacaré, cidade localizada no sul da Bahia, distante 75km de Ilhéus. A cidade que possui maravilhosas praias cercada de mata atlantica ainda muito bem preservada, tem no turismo sua principal fonte de recursos. Mas, se de um lado os turistas trazem uma boa parte das divisas para o município, de outro trazem novos costumes, influenciando a vida local. Vale lembrar que grande parte dos comércios (entre restaurantes, bares, pousadas e a única livraria da cidade) são de turistas que visitaram a cidade, gostaram e ficaram por lá, sejam brasileiros ou estrangeiros.

Certa tarde estava na praia da Concha, tranquila e de águas limpas e calmas. Haviam dois meninos nativos brincando da areia, Rian e Gabriel, enquanto sua mãe vendia algo aos banhistas.

De repente chegou uma família de turistas, também com uma criança em torno de 4 a 5 anos de idade. Este vinha com uma mini motocicleta motorizada - que já tinha visto em São Paulo. Ele andava pra cima e pra baixo na areia, numa boa velocidade. Na minha opinião, uma brincadeira perigosa e um "brinquedo" inadequado para crianças - uma vez que não é brinquedo, mas um automóvel de verdade, já que tem motor.

Claro, os olhos dos nativos que estavam brincando perto de um tronco, brilharam ao ver a motocicleta no tamanho certo também para eles. Mas, ao invés de ir pedir para dar uma volta, os dois fizeram melhor: transformaram o velho pedaço de madeira na sua motocicleta, com um motor bastante barulhento, produzido também por eles mesmos. O mais velho pilotava.



Curiosa, me aproximei para conversar. Nesta hora fiquei sabendo seus nomes e origem.

"Do que vocês estão brincando?" - perguntei.

É Gabriel quem responde: "de moto".

Provoco: "ah, é? Igual aquele menino? Ele também tá brincando de moto..."

Respondem: "É, só que aquela (moto) foi o pai dele quem deu pra ele, e essa aqui foi a natureza que trouxe."

Vacilo: "E qual a diferença desta para aquela?"

"É que esta não anda, né!"

Rian e Gabriel nem devem saber, mas sua moto era muito melhor que a do jovem turista, pois é, antes de tudo, mais segura, pois adequada para suas idades. Mas ainda mais importante que isso é que a imaginação desses meninos, transformando o tronco numa moto, fez com que eles desfrutassem da verdadeira utilidade da brincadeira, que é a de dar novos significados aos objetos, interagindo com a natureza, mesmo que representando ali o universo adulto.

O jovem turista motorizado também não deve saber, mas ele não estava mais brincando, ele já estava pilotando precocemente. Ou quem sabe ele não estava se imaginando pilotando um foguete?
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E o que será que pensa o adulto que dá uma moto de verdade para uma criança, sozinha, pilotar?

Eu, que não sou boba nem nada, pedi para dar uma volta na "moto da natureza", e Rian me guiou com sua imaginação...



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*fotos e texto Regiane Santana. Colaborou Júlio Canuto.

Um comentário:

Clau disse...

Que texto bacana! As fotos sensacionais. As crianças são mágicas!