sexta-feira, 17 de abril de 2009

Fatos e Dados

por Júlio Canuto
Continuando a postagem a pós-modernidade líquida e fluida, de 17/02, passo agora a fazer algumas observações sobre fatos e dados à luz dos teóricos citados e com referências minhas.

Os fatos:

Há muito se sabe que o maior objetivo dos governos, incluso em todas as ações voltadas para os trabalhadores, comércio e até a população mais pobre, é incentivar o consumo. Esta característica pode ser observada em várias situações: 1. Quando em programas de transferência de recursos (dinheiro) como o tão falado Bolsa Família, a iniciativa procura fazer com que as famílias agreguem uma maior renda que lhe permitam suprir suas necessidades básicas e, também, incentivar o comércio local. É verdade. Espera-se que o beneficiado use seu dinheiro no comércio local, que emprega seu vizinho e faz a economia local girar (sem entrar na questão se os produtos são de produção local ou se o próprio comércio não é um Carrefour ou Wall Mart); 2. no comércio, através da ampliação do crédito aos consumidores (prestações a perder de vista); 3. na indústria com redução de impostos, subsídios ou crédito para investimento, além da possibilidade de aplicação no mercado financeiro; 4. aos trabalhadores e classe média – novamente – com a liberação de crédito em empréstimos e financiamentos.

Em seu pronunciamento às vesperas do ultimo natal, presidente Lula veio a público dizer a todos que "não fruste seu sonho com medo do futuro". Isto é, procurou incentivar a população ao consumo, diminuindo os efeitos da crise no país e dizendo nas entrelinhas que a maneira de combater a atual crise é garantir o consumo da população, assinando o que apresentei no parágrafo anterior. Na ocasião, como é de costume, relacionou consumo com crescimento. E crescimento, como já foi dito neste blog, na linguagem econômica, é o aumento da produção do país. E só se aumenta a produção (oferta) quando há pessoas querendo comprar, consumir (demanda). Como se chama mesmo o plano estratégico do governo? Lembrei... é o PAC – Plano de Aceleração do CRESCIMENTO.

Os dados:

Em 2008, na realização do Projeto Identidade em Rede, apresentei junto aos outros membros do projeto nas turmas de Itaquera e Cidade Júlia, um mapa dos bairros com dados comparativos destes com outros bairros de São Paulo. Dados sobre população, idade, família, renda média e renda dos chefes de família. Verificamos que a renda média mensal por domicílio em São Paulo é de R$2.463,00(dados do IBGE, PNAD, em 2007, para a Grande São Paulo). Segundo o DIEESE, o Salário Mínimo, para suprir todas as necessidades “garantidas” pela Constituição, deveria ser (em março de 2007) de R$1.620,89. Atingimos em São Paulo um padrão de vida exemplar? Não! O dado exposto desta forma, embora verdadeiro, engana ao não mostrar a desigualdade por trás destes números. Quando o rendimento se divide por faixas salariais, vemos que 21% dos domicílios tem renda de até 2 Salários Mínimos, enquanto apenas 5% dos domicílios vivem com mais de 20 Salários Mínimos. Isto é, por conta da brutal desigualdade de rendas, a minoria de 5 % puxa a renda média para o alto, mas a realidade é muito diferente para a absoluta maioria.


Para se ter uma idéia, a média de rendimento se situa na faixa de "mais de 5 a 10 salários mínimos", que engloba outros 21% da população pesquisada. No entanto, 57% dos domicílios tem rendimento inferior ao da média. Conforme tabela abaixo:

Fato e dado expõem, assim, a desigualdade e isso reflete no consumo.

Contribuindo para a auto-estima de quem tem muito e de quem não tem quase nada, entra a publicidade anunciando produtos sob medida para cada “perfil consumidor”, criando assim uma identidade baseada no poder de compra. E claro que o bom mesmo é ser identificado como membro da minoria mais alta. Se estabelece assim uma outra relação do consumidor com o produto, que vai muito além de sua utilidade.

Outra estratégia é fazer produtos cada vez menos duráveis (ao contrário de antigamente) para que sempre se esteja comprando. Isto é, consumindo.

Aos que estão na parte mais baixa dos rendimentos, destina-se os programas de transferência de renda, tentando fazer com que esta população consuma, e a isto se dá o nome de inclusão social. O presidente acertou ao alertar para que a população consuma com consciência. Mas quais são os meios efetivos que garantam esta atitude? Pois como vimos, os valores embutidos no ato de consumir extrapolam a simples utilização de um produto.

Na próxima postagem relaciono todas estas medidas e os impactos no meio social e ambiental... e as crises.

E agora José?

Um comentário:

Clau disse...

Ótimo post.O que mais me impressiona e o aumento assustador de produtos de luxo - ou de alta tecnologia, como tv plasma -Justamente pela parcela, os 57%, da população que tem ganhos inferiores que a média.
Aí eu pergunto: você marcha, José!
José, para onde?