sexta-feira, 24 de abril de 2009

Os destinos da humanidade

por Júlio Canuto

“mas eu resolvi voltar, não adiantou nada fugir.O mundo é que mudou, o mal globalizou, o bicho ta pegando. É a guerra das desigualdades, a humanidade lavando a roupa, oportunidade não cruza o Rebouças, é muito louca a vida por aqui...”
(Picolé)

Estamos falando da sociedade, e dos indivíduos que fazem parte dela. Mas até o momento não citamos uma única vez a palavra que identifica a pessoa como membro da sociedade moderna: cidadão. Ao invés de cidadão, utilizamos consumidor.
.
Talvez aqui esteja a chave para entender os problemas que vivenciamos hoje em dia, seja a desigualdade, o individualismo nocivo, a violência, os danos ambientais e uma série de outros problemas coletivos e mesmo individuais que costumamos pensar separadamente.
.
A diferença entre consumidor e cidadão corresponde à diferença entre crescimento e desenvolvimento, citada na postagem anterior “Fatos e Dados”. Isto é, enquanto o crescimento é o desenvolvimento da produção, a sua maximização em termos quantitativos; o desenvolvimento é o crescimento qualitativo da sociedade. O desenvolvimento promove o crescimento pessoal de cada cidadão, que melhora a produção das técnicas de produção e, sendo a sociedade composta de cidadãos, melhora o desenvolvimento da sociedade. Já o crescimento faz aumentar apenas a vontade de consumo. Em resumo: desenvolvimento contém crescimento, mas crescimento não desenvolvimento.
.
Como também vimos na postagem anterior e em outras postagens (veja no final do texto), a publicidade transformou o ato de consumir. Os produtos, mais do que nunca, são valorizados pelo o que representam socialmente, - representações estas que são repassadas a seus consumidores - e não pela sua utilidade prática.
.
Num curto período, inovações são colocadas à venda. Os produtos vêm com detalhes que os diferenciam dos modelos anteriores, e por isso têm status mais elevados. Assim, consumidores irão ávidos atrás das novidades, descartando sua mais recente antiguidade. Reparem: se isto tem reconhecimento social – e somente por isso se consome avidamente – podemos afirmar com convicção que este é um valor de nossos dias. E mais: é um valor atribuído individualmente e reconhecido socialmente.
.
Conseqüências deste valor são os diversos problemas atuais:

  • Os desequilíbrios ambientais, com extração além da capacidade de reprodução – impulsionada pela busca a todo custo de lucro ;
  • A coisificação do homem nas suas relações sociais, enxergando o outro como objeto de consumo (relação de posse), como degrau para alcançar certa posição ou privilégio ou mesmo como um obstáculo a ser superado pelos mesmos motivos;
  • A violência, quando os objetos (carros, calçados, jóias) que são reconhecidos socialmente e atributos de status, são vistos no mesmo patamar ou ainda mais importantes que as vidas de quem as possui;
  • O uso do espaço público e das instituições públicas para interesses privados, seja de um grupo ou de um indivíduo apenas;
  • A má qualidade da educação que passou a ser vista apenas como aprendizagem de emprego em detrimento da reflexão (a vitória da técnica, da aceleração do tempo);
  • A atual crise financeira, que reflete, grosso modo, a fragilidade do sistema especulativo (busca por lucro sem produção) e a total abertura do crédito para consumo. No Brasil temos os financiamentos para automóveis a perder de vista, possibilitando a posse de um automóvel (e seu status embutido) sem ter pago por ele, sabendo que o trocará antes mesmo de terminar de pagá-lo.

Enfim, todos com base em um valor individual, do único prevalecendo sobre o todo. No entanto, paremos para pensar: o desenvolver da nossa sociedade e do Estado moderno, foi baseado no consumo, com as expansões mercantis aos países vizinhos, depois o desenvolvimento das expedições marítimas, a revolução industrial, a revolução tecnológica servindo à publicidade etc. O desenvolvimento das tecnologias e das formas de consumo.

Os direitos vieram sermpre como forma de ajustar as relações sociais quando estas ameaçavam ruir, ou seja, nunca como meta principal, e sempre através da luta de camadas da sociedade que se viam em prejuízo ou meramente como concessão do grupo dominante como forma de contenção de conflitos: os diretos civis vieram para DECLARAR (e não assegurar) a liberdade dos indivíduos; os direitos políticos, como forma de representatividade no poder ; e os direitos sociais – apenas no século XX – para amenizar as desigualdades ou como manobra para novo conjunto de ações com outros interesses..

Atualmente, a violência é a consequência mais preocupante, pois por mais injustificda que seja, não passa da busca desesperada pela aquisição de status através dos valores simbólicos dos objetos. Reparem que estou falando da violência em seu estado elementar: como a coisificação das pessoas. Estou convencido de que a violência acompanha o espírito do tempo, os valores do tempo.

Fica a pergunta: será que o atual momento que estamos vivendo – que já chamei de crise de valores – é apenas o destino da humanidade em sua plena evolução? Será que seu destino (estamos cumprindo bem, neste sentido) será a sua autodestruição? .

Quem tiver idéias da resposta ou alguma sugestão que nos diga.

____________________________________

Série:

A pós-modernidade líquida e fluida

Fatos e Dados

Textos relacionados, publicados no Pula o Muro:

Eixo temático anti-consumismo

Consumo e status (olhar antropológico)

A crise norte-americana: o assunto do momento!

Sobre a atual Crise de Valores (a causa da causa)

AS ENTRELINHAS DOS FACTÓIDES: miséria do medo e o medo da miséria

PROPOSTA DE REFLEXÃO SOBRE A VIOLÊNCIA

Comprar é o sentido único?

Causos do Coletivo - Panis, circenses et shopping centers

Nenhum comentário: