quinta-feira, 7 de maio de 2009

Os maiores três minutos da história do futebol

por Júlio Canuto
Garrincha é uma lenda do futebol brasileiro. Quando eu era criança, ouvia alguns tios meus dizendo que ele foi o melhor jogador do mundo – melhor que Pelé, portanto. De tanto ouvir isso, fiquei com essa impressão. Penso hoje que isso deve-se a que ele fazia exatamente o que todo menino gosta de fazer quando joga uma pelada: driblar. Driblar muito. O drible é a alegria do futebol, mais que o gol.
.
Agora, lendo a biografia de Garrincha, escrita por Ruy Castro, me deparei com uma descrição fantástica do início de uma partida da seleção na Copa do Mundo de 1958 que faz jus ao título deste post. Era o terceiro jogo da seleção na primeira fase da Copa e o adversário era a temida URSS (União Soviética, para os mais novos que eventualmente não conheçam a sigla. Um conjunto de países, tendo a Rússia como centro e que dividia com os EUA o poder econômico e militar mundial, porém sendo seu rival, com regime comunista). A seleção soviética era a favorita para a conquista da Copa, e tinha no seu elenco astros como Igor Netto e o goleiro Lev Iashin, tido por muitos como o melhor goleiro de todos os tempos. Para se ter idéia do contexto:
.
Havia dois anos que só se falava no futebol russo. E mais ainda depois que a URSS lançou o primeiro satélite artificial – o Sputnik, em 1957 –, embora não se soubesse o que uma coisa tinha a ver com a outra. Como tudo que parecia vir da URSS, seu futebol tinha uma aura de modernidade e mistério que dava medo. Era o ‘futebol científico’, em que os jogadores estavam preparados para correr 180 minutos e, depois, sapatear balalaikas sobre os bofes dos adversários. Dizia-se que, em dia de jogo, eles faziam quatro horas de ginástica pela manhã. Dizia-se também que a KGB espalhara espiões pelo muno, filmando partidas, e que seus computadores – então chamados ‘cérebros eletrônicos’ – haviam produzido um sistema perfeito para derrotar qualquer equipe”.
.
“...o jogo seria decisivo para os dois. Para piorar as coisas, o treinador russo Gavrin Katchalin ousara fazer uma visita 'de cortesia' à seleção brasileira na semana do jogo e espionar pessoalmente um treino. Quando um repórter brasileiro pediu-lhe para escalar o ataque ideal do Brasil, Katchalin falou sem hesitar: Garrincha, Didi, Mazzola, Pelé e Zagalo. O olho de Moscou conseguira entrar na cabeça da comissão técnica”.

Garrincha ainda não tinha estreado na Copa, e Pelé tinha apenas 16 anos. A escalação deste ataque não era certo. Do lado russo, Igor Netto também faria a sua estréia na Copa. A seguir a descrição dos três minutos e o primeiro João das Copas (era como Garrincha chamava seus marcadores).
.
A poucos minutos da partida, enquanto os jogadores eram massageados por Mário Américo, Carlos Nascimento [supervisor da seleção] resolveu retribuir a ‘cortesia’ dos russos e foi xeretá-los no seu próprio vestiário. Muniu-se de flâmulas da CBD e foi oferecê-las aos adversários.Voltou poucos minutos depois, com a mesma cara fechada, mas com um brilho nos olhos:

‘Eles estão apavorados!’

Quando a seleção reuniu-se ao redor de Feola para as ultimas instruções, todos escutaram quando ele virou-se para Didi:

‘E não se esqueça, Didi. A primeira bola é para o Garrincha.’

E para Garrincha:

‘Tente descadeirá-los de saída.’

Monsieur Guigue, gendarme nas horas vagas, ordena o começo da partida. Didi centra rápido para a direita: 15 segundos de jogo. Garrincha escora a bola com o peito do pé: 20 segundos. Kuznetzov parte sobre ele. Garrincha faz que vai para a esquerda, não vai, sai pela direita. Kuznetzov cai e fica sendo o primeiro João da Copa do Mundo: 25 segundos. Garrincha dá outro drible em Kuznetzov: 27 segundos. Mais outro: 30 segundos. Outro. Todo o estádio levanta-se. Kuznetzov está sentado, espantado: 32 segundos. Garrincha parte para a linha de fundo. Kuznetzov arremete outra vez, agora ajudado por Voinov e Krijveski: 34 segundos. Garrincha faz assim com a perna. Puxa a bola para cá, para lá e sai de novo pela direita. Os três russos estão esparramados na grama, Voinov com o assento empinado para o céu. O estádio estoura de riso:38 segundos. Garrincha chuta violentamente, cruzado, sem ângulo. A bola explode no poste esquerdo da baliza de Iashin e sai pela linha de fundo: 40 segundos. A platéia delira. Garrincha volta para o meio de campo, sempre desengonçado. Agora é aplaudido.

A torcida fica de pé outra vez. Garrincha avança com a bola. João Kuznetzov cai novamente. Didi pede a bola: 45 segundos. Chuta de curva, com a parte de dentro do pé. A bola faz a volta ao lado de Igor Netto e cai nos pés de Pelé. Pelé dá a Vavá: 48 segundos. Vavá a Didi, a Garrincha, outra vez a Pelé, Pelé chuta, a bola bate no travessão e sobe: 55 segundos. O ritmo do time é alucinante. É a cadência de Garrincha. Iashin tem a camisa empapada de suor, como se já jogasse a várias horas. A avalanche continua. Segundo após segundo, Garrincha dizima os russos. A histeria domina o estádio. E a explosão vem com o gol de Vavá, exatamente aos três minutos.’

Foi assim que o repórter Ney Bianchi reproduziu em Manchete Esportiva aquele começo de jogo, como se estivesse um olho na bola e outro no cronômetro. Mas não estava longe da verdade. Outro jornalista, Gabriel Hannot, diria que aqueles foram os maiores três minutos da história do futebol – e, com mais de setenta anos, ele fora testemunha ocular dessa história. A avalanche fora tão impressionante que, assim que se viu vazado, Iashin cumprimentou o primeiro brasileiro que lhe passou por perto – por acaso, Pelé.

E ainda faltavam 87 minutos para o jogo acabar! A continuar daquele jeito, já havia russos contemplando uma temporada na Sibéria. Nunca o orgulho do científico futebol soviético fora tão desmoralizado, e pelo mais improvável dos seres: um camponês brasileiro, mestiço, franzino, estrábico e com as pernas absurdamente tortas. A anticiência por excelência, o anti-Sputinik, o anticérebro eletrônico ou qualquer cérebro. (...) No começo do jogo, depois da saraivada inicial de dribles, os russos ainda pensaram que fosse um problema de marcação. Começaram a gritar e a discutir entre si. Mas, se acertaram a marcação, não se ficou sabendo, porque Garrincha continuou a driblá-los do mesmo jeito
.”
___________________________
Todas as citações são de:
CASTRO, Ruy. Estrela solitária: um brasileiro chamado Garrincha. São Paulo. Companhia das Letras, 1995

Um comentário:

Leonel disse...

É de arrepiar esta lindíssima narrativa dos três minutos fantásticos daquele jogo histórico !
Eu lembro que, antes do jogo, todo mundo no Brasil estava com medo dos tais "segredos russos"! Só não entendo até hoje como aquilo não terminou numa goleada histórica!